5 companheiros… Pixinguinha | 1961, Sinter

Em 1937, na Rádio Mayrink Veiga, Pixinguinha (Alfredo da Rocha Viana), com um conjunto intitulado “Cinco companheiros”, formado com Pixinguinha (sax), Tute (violão), Luperce Miranda (cavaquinho), Valeriano (violão) e João da Bahiana (pandeiro), representava a atração máxima da rádio. Eram fabulosos e hoje ainda o são.

Rememorando àquela época a Sinter apresenta ao público brasileiro êste long-playing intitulado “Cinco Companheiros”, com Pixinguinha e os “Chorões daquele tempo”. Desta vez os cinco solistas são: Abel Ferreira, Pedro Vieira (Pedrinho), Silva Leite, Irany Pinto e o próprio Pixinguinha. No acompanhamento temos: Gessé e Nelson (violões), Salvador (pandeiro) Waldemar Melo (cavaquinho), Cavalo marinho (contrabaixo) e J. Cascata (afochê).

As músicas deste LP, de autoria de Pixinguinha, em sua maioria de parceria com o saudoso Benedito Lacerda, representa mais uma homenagem da Sinter a um grande vulto da música brasileira: Benedito Lacerda, recentemente falecido.

Antes de falar como estão gravados estes bonitos números, convém dizer algo sôbre Pixinguinha, expressão máxima de talento musical e verdadeiro patrimônio musical brasileiro. No espaço disponível de uma contracapa de LP, pouco se pode dizer, visto sermos obrigados a abordar vários pontos. Dêste modo, nada melhor do que expressar a opinião de Lúcio Rangel — profundo conhecedor da música brasileira sôbre Pixinguinha e, onde, em poucas linhas, tudo diz. “Em Alfredo Viana, o Pixinguinha, devemos considerar o instrumentista, o compositor, o orquestrador e o chefe de orquestra. Poderíamos ainda acrescentar o cantor, se êste não fôsse tão pouco conhecido do público em geral. Em tôdas as manifestações de sua arte, Pixinguinha revela-se admirável e sempre cem por cento brasileiro, o que nos leva a afirmar, com tôda serenidade, estarmos frente ao maior músico brasileiro, em tôdas as épocas, mesmo considerando a grandeza de um Nazareth, de um Sinhô ou de um Noel Rosa”.

O “Cinco Companheiros”, Pixinguinha e os “Chorões daquele tempo” faz reviver uma época gostosa, a época das serenatas e dos passeios improvisados, onde grupos de artistas divertiam, num “convescote”, todos os participantes. Eram momentos agradáveis, deliciosos e que, hoje são revividos apenas através dos “transistors” e dos rádios de pilha.

Pixinguinha, além de ser o autor exclusivo de quase tôdas as músicas de “Cinco Companheiros”, ainda atua destacadamente em tôdas elas. Os outros solistas, já mencionados, aparecem da seguinte forma: Abel Ferreira (clarinete), em “Um a zero”, “Proesas do Solon”, “Segura êle”, “Ingênuo”, “Lamento” e “Chorei”. Pedrinho (70 anos), com sua flauta maravilhosa, atua em “Naquele tempo”, “Sofres porque queres” e “Cinco companheiros”. Silva Leite (trombone de pisto), brilha em “Proesas do Solon” e “Lamento”. Irany Pinto, um violino que em “Vou vivendo”, relembra o violino chorão das serestas de Minas Gerais, aparece ainda em “Tapa Buraco” e “Cuchicho”. O acompanhamento rítmico está excelente e, em “Lamento”, notamos uma atuação fabulosa dos dois violões (Gesse e Freitas) do conjunto. Soberbos! … As músicas dêste long-playing são antigas e constituem uma verdadeira antologia musical brasileira. Tôdas elas são chôros, com exceção de duas — “Segura êle”, e “Tapa Buraco” — que são polcas. Um bonito nome para este disco seria “Chôro brasileiro em Hi-Fi”, pois a perfeição, a técnica, a beleza das músicas e a qualidade dos executantes é tudo o que poderíamos desejar de melhor.

Com esta gravação Pedro Vieira (Pedrinho) se despede da vida artística. Aposentou-se da Rádio Nacional e de tôdas as gravações. A idade, 70 anos, não mais permite uma atividade, onde o instrumento utilizado — a flauta — sacrifica bastante o bom executante. Entretanto aqui fica registrado, para sempre, o prodigioso talento de um músico excepcional.

As músicas dêste LP representam fatos marcantes da vida do compositor, ou então, uma homenágem de algo de interêsse ou digno de louvores: Assim é que temos! “Um a zero”, em homenagem a vitória brasileira, “goal” de Friedenrich contra os Uruguaios. Como o nome bem diz, “Tapa buraco”, foi feita na hora, um improviso inspiradíssimo, onde a beleza das composições de Pixinguinha não sofreu a menor deturpação. Prova, assim, as qualidades magníficas de compositor. “Lamento”, composta na mesma época do “Carinhoso” — clássico da música popular brasileira — é mais uma prova do talento genial de Pixinguinha.

Este disco de Pixinguinha, como todos os outros já apresentados — (“Carnaval de Nassara”, “Marchinhas carnavalescas de João de Barro e Alberto Ribeiro” e “Assim é que é…) constitue um valioso e imperdível subsídio para o estudo da música brasileira. Representa, ainda, o carinho e o cuidado de uma gravadora pelas coisas de nossas Pátria.
MÁRIO DUARTE

LP 5 companheiros... Pixinguinha | 1961, Sinter

FACE “A”:
UM A ZERO
NAQUÊLE TEMPO
PROESAS DO SOLON
VOU VIVENDO
SEGURA ÊLE
SOFRES PORQUE QUERES

FACE “B”:
TAPA BURACO
INGÊNUO
CINCO COMPANHEIROS
LAMENTO
CUCHICHO
CHOREI


Sinter – slp 1731, LP

*PS: Todas as músicas com autoria de Pixinguinha e Benedito Lacerda, a exceção de “Tapa Buraco”, “Cinco Companheiros”, “Lamento” e “Cuchico” composta somente por Pixinguinha.

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