A Arte Negra de Wilson Moreira e Nei Lopes | 1980, EMI-ODEON

A arte legada pelos africanos á sociedade brasileira se mantém viva, em termos de Rio de Janeiro, nos subúrbios, nos morros e nas Baixadas. E no que diz respeito á música, Wilson Moreira e Nei Lopes se revelam legítimos porta-vozes dessa herança. Wilson, do subúrbio de Realengo, descende uma família de jongueiros que se ramifica hoje por Avelar e Barra do Piraí, chegando até Juiz de Fora. Nei, filho de um operário da Casa da Moeda, nasceu e se criou na freguesia de Irajá, onde o pai, nascido em 1888, fora morar no início do século.

Na década de 50 várias agremiações de samba disputavam as preferências das vizinhas estações de Realengo e Padre Miguel. Lá então, Wilson se iniciou como sambista, primeiro carregando “gambiarra” na Unidos da Água Branca, depois passando pelas Escolas Voz de Orion e Três Mosqueteiros e, finalmente, ajudando a fundar a hoje famosa Mocidade Independente, onde foi autor dos sambas com que a Escola desfilou em 61 e 62.

Mas os sambas de Wilson ultrapassaram os limites de Realengo e Padre Miguel, alcançaram a Portela – por iniciativa do saudoso Natal – abriu suas portas para o compositor.

Já em Irajá, pela mesma época, o quintal de “Seu Luiz” recebia nos fins de semana um time respeitável de músicos amadores. E a “Tia Zica”, compositora do Paz e Amor e depois da Portela criava lá um bloco infantil (comum na época) onde Nei se iniciava.

De mestre-sala e ritmista do Bloco papa com Lombo, pouco depois o sambista se afirmava como compositor do Bloco do Rascunho, criação da família. E em 63 ingressava nos Acadêmicos do Salgueiro (escola de seu coração) onde, dez anos depois, era recebido na ala dos compositores.

Coube a Délcio Carvalho, outro grande compositor, a aproximação da dupla. E, a partir de 74, essa aproximação produziu uma parceria que hoje é uma das mais respeitadas e requisitadas do mundo do samba.

Este disco é uma coletânea de regravações dos principais sucessos da dupla, somados ao inédito “Silêncio de Bamba“, homenagem pôstuma a Candeia, fundados do G.R.A.N.E.S Quilombo, escola alternativa na qual Wilson e Nei venceram os sambas-enredo de 78 e 79. Nele, estão contidas as diversas modalidades musicais cultivadas pelos negros cariocas e fluminenses como jongo, calango, partido-alto, samba de gafieira, samba de terreiro, samba-choro e samba-enredo. E tudo de uma forma despojada, como num autêntico disco de compositor.

Destaque especial para o verdadeiro espírito de equipe que presidiu o trabalho, seja na produção do corretíssimo Genaro, seja na fidelidade de arranjos e regência do Maestro Rogério Rossini, seja na competência e na dedicação dos técnicos Dacy e Nivaldo Duarte que tão bem souberam compreender a arte negra de Wilson Moreira e Nei Lopes.

Rubem Confete
contracapa

REPERTÓRIO (por Nei Lopes)

1 “SÓ CHORA QUEM AMA” – Primeira parte de Wilson Moreira, com “versos” de minha autoria. Samba na tradição dos antigos “sambas de primeira”, ou “sambas versados” da família do partido-alto. Foi lançado por Nadinho da Ilha em 1977. Em 2010, ganhou um remake e uma estrofe atualizadora, em gravação de Zeca Pagodinho com minha participação.

2 “GOIABADA CASCÃO” – No ambiente do Clube do Samba, por volta de 1975, o jornalista Sérgio Cabral elogiou Dino Sete Cordas. Disse que o grande violonista era uma raridade, como “goiabada cascão, em caixa”. Vi ali o mote para mais uma letra musicada por Wilson.

3 “MEL E MAMÃO COM AÇÚCAR” – Letra e música de Wilson Moreira sobre um dito comum no ambiente do sistema penitenciário carioca na década de 1970. “Mamão Com Açúcar” quer dizer tranquilidade, felicidade, paz. Por ironia, claro!

4 “COISA DA ANTIGA” – Samba composto em 1976 e gravado por Clara Nunes no ano seguinte. Wilson trouxe a ideia e a primeira parte da letra já pronta. Compus os versos restantes e meu parceiro musicou. O interessante é que o titulo sugerido por Moreira era “Tina, Barril e Bica”.

5 “COITÉ, CUIA” – Uma das primeiras obras de nossa parceria, este samba-calango foi lançado por Roberto Ribeiro em 1977 e frequentou o repertório do cantor Djavan, que, entretanto, nunca o registrou em disco. Uma de minhas primeiras incursões no universo rural, mais íntimo de Wilson. Ele compôs toda a primeira parte, eu compus a segunda.

6 “GOTAS DE VENENO” – Lançado em 1978 por Jair Rodrigues, foi um dos campeões de execução carnavalesca naquele ano e nos seguintes, e é tocado até hoje. É um dos três “venenos” de Wilson Moreira, juntamente com “Não Tem Veneno” (parceria com Candeia) e “Gostoso Veneno”.

7 “SENHORA LIBERDADE” – Um dia, no final dos anos 1970, eu, ex-advogado, pedi informações ao agente penitenciário Wilson sobre a existência ou não da tradição do “samba de cadeia”, pungente, arrependido. Ante a confirmação, a meio-dia foi encomendada e composta, e a letra saiu exatamente como devia. Só que a melodia da segunda parte tornou-se a primeira, e o samba, sucesso de 1979, foi entendido como um dos hinos da Anistia.

8 “NOVENTA ANOS DE ABOLIÇÃO” – Samba-enredo vencedor no G.R.A.N.E.S. Quilombo (escola de samba alternativa fundada por Candeia), nos preparativos para o carnaval de 1979. Foi gravado por Clara Nunes, mas o disco não saiu.

9 “SILÊNCIO DE BAMBA” – No Quilombo, às vésperas do carnaval de 1978, o mestre-sala foi assassinado na porta do clube onde a escola ensaiava. Wilson teve a ideia da homenagem póstuma, concretizada meses depois, quando faleceu Candeia, com uma segunda parte que evoca sua trajetória.

10 “SAMBA DO IRAJÁ” – Por volta de 1975. em crise existencial, tendo que aceitar trabalho em um ambiente politicamente desprezível, lembrei de meu pai, homem de rígidos princípios, sepultado no dia em que eu fazia 18 anos. Letra e melodia nasceram juntas, numa lágrima furtiva.

11 “NÃO FOI ELA” – Pungente samba romântico de 1978. Ganhou sobre-vida após a gravação de Zeca Pagodinho, em 1997, tornando-se um hit nas rodas do chamado “samba de raiz”.

12 “CANDONGUEIRO” – Lançado por Clara Nunes em 1978, este samba-longo foi motivado pelas recordações de seu João, velho morador de Olinda, Nilópolis, pai de meu colega Silvano da Silva, que mais tarde se tornaria juiz. Foi seu João, jongueiro em sua terra natal, quem me explicou o que era um candongueiro. E Wilson vestiu a letra com instigaste melodia.

13 “GOSTOSO VENENO” – Samba de 1979. Lançado por Alcione, é talvez o mais conhecido de minha parceria com Wilson Moreira, com mais de uma dezena de registros. Tornou-se internacional, com uma gravação instrumental da orquestra de Paul Mauriat e, depois, ganhou uma versão angolana, com o grupo Semba Tropical.

14 “AO POVO EM FORMA DE ARTE” – Samba-enredo do G.R.A.N.E.S. Quilombo no carnaval de 1978. Gravado inicialmente por Candeia, é considerado um dos melhores sambas-enredos de todos os tempos.

A Arte Negra de Wilson Moreira e Nei Lopes

Lado A

  1. Só chora quem ama / Goiabada cascão / Mel e mamão com açucar / Coisa da antiga
    canta: Wilson e Nei Lopes 9’43
  2. Coité, cuia
    canta: Wilson e Nei 2’35
  3. Gotas de veneno / Senhora liberdade
    canta: Nei e Wilson 3’36
  4. Noventa anos de Abolição
    (G.R.A.N. Escola de Samba Quilombo)
    canta: Nei 2’52

Lado B

  1. Silêncio de um bamba
    canta: Wilson 3’58
  2. Samba do Irajá / Não foi ela
    canta: Nei e Wilson 4’32
  3. Candongueiro
    canta: Wilson 3’00
  4. Gostoso veneno
    canta: Nei 3’20
  5. Ao povo em forma de arte
    canta: Wilson 4’15

Todas as músicas são de autoria da dupla á exceção de “Mel e Mamão com açucar“ que é de Wilson Moreira


EMI-ODEON 062 421196, LP

Produtor Fonográfico: EMI-ODEON fonográfica, industrial e eletrônica S.A. – direção de produção: Renato Corrêa – produção executiva: Genaro – orquestrações e regência: Rogério Rossini – técnicos de gravação: Dacy-Bill – técnico de mixagem: Nivaldo Duarte – corte: Osmar Furtado – capa: Lobianco – fotos: Januário Garcia – coordenação gráfica: Tadeu Valério

Violão de 7 cordas – Dino
Violão de 6 cordas – Rogério Rossini
Cavaquinhos – Carlinhos e Alceu
Bandolim – Afonso
Trombone – Nelsinho
Clarinete – Netinho
Flauta – Geraldo
Acordeom – Julinho
Bateria – Aladim
Ritmo – Nosso Samba – Marçal – Luna – Eliseu – Geraldo Bongô – Caboclinho – Cabelinho – Testa – Zezinho Trambique
Coro – “Nosso Samba” e “As Gatas”
Arranjos – Maestro Rogério Rossini
Técnicos de gravação – Dacy e Bill
Técnico de remixagem – Nivaldo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *