A INCRÍVEL BATERIA DO MESTRE MARÇAL | 1987, Polydor

A tradição do samba se personifica nesse homem elegante e esbelto, sempre impecavelmente vestido: NILTON DEFINO MARÇAL. Como seu pai, Armando Marçal, que compôs sambas antológicos com seu parceiro Bide, NILTON leva em suas veias as mais profundas raízes da música brasileira.
Um PERCUSSIONISTA maiúsculo, ele domina todos os instrumentos ritmicos como uma segunda natureza. Carioca (nascido em Inhaúma), jovem de 57 anos, desde os 9 participando dos desfiles de Carnaval, sempre tocando: o surdo centrador, o centro mesmo da sessão ritmica.

Neste disco, MARÇAL apresenta alguns dos mais populares sambas-enredo e os instrumentos, um por um, primeiramente, e todos juntos, depois, os quais compõem a bateria: explicando também de forma simples os formatos, as funções, as características específicas, como devem ser tocados e as colorações que eles tem no espectro total dos sons, que, combinados, fazem o coração pulsante de uma escola-de-samba.
Assim, segurem-se que vamos nós nessa viagem colorida e sensual, enebriados pela alegria contagiosa dos sons e ritmos e vozes e fantasias que é o Carnaval!
MESTRE MARÇAL, faça as honras, por favor.

OS INSTRUMENTOS

SURDO – Instrumento que segura a bateria; o coração, o ponteiro do metrônomo, a base onde todos os outros instrumentos se apoiam. É um grande cilindro de metal com uma pele de couro bem esticada em cada extremidade, que é pendurado no ombro do percussionista por uma correia de couro. É tocado com uma baqueta de madeira, com cabeça de madeira coberta de veludo para absorver o som. O músico usa a baqueta com uma das mãos e usa a outra como abafador. Existem 3 tipos de surdos: o surdo de primeira, que ataca no tempo forte e usa a mão para abafar o tempo fraco; o surdo de segunda, que é um pouco menor que o primeiro e tem afinação mais aguda. Toca, também, de maneira oposta, a baqueta ataca o tempo fraco e a mão abafa o forte. O surdo tem sido tocado da mesma maneira através dos anos, mas a evolução do conceito ritmico pediu uma terceira batida como um complemento ás outras, preenchendo as lacunas, mais a vontade para criar, elaborar, sem perturbar o equilibrio. este é chamado de surdo de terceira, o surdo centrador.

GANZÁ – Também chamado chocalho é um instrumento que passou pôr radicais mudanças através dos tempos. Anteriormente, era um longo cilindro de metal, cheio de bolinhas metálicas ou tachinhas, que sacudindo ritmicamente preenchia os espaços das batidas dos outros instrumentos, com seu som áspero e chiado. Com o passar dos anos, evoluiu para um quadrado de madeira (ou, mais recentemente de alumínio), com fileiras de pratinelas de pandeiro o que fez com que o som ficasse mais agressivo e pujante. O compositor Bide foi o introdutor do ganzá nas escolas-de-samba e também nas orquestras.

TAMBORIM – O instrumento mais agudo da bateria, ele complementa todos os sons, ele fecha, arredonda o círculo. O tamborim é um pequenino cilindro metálico com pele de couro em um dos lados (atualmente o couro foi substituído por nylon para o som ficar com mais projeção). É tocado com uma baqueta, antes feita de madeira, mas agora, feita de plástico que pode medir até 50 cm de comprimento para projetar ainda mais o som. O músico usa os dedos da mão que segura o instrumento para marcar a batida. Os instrumentistas mudam o padrão rítmico na segunda parte da música, não somente pela dinâmica, mas também para descansar os braços, pois é um instrumento muito exigente e preciso.

AGOGÔ– Um dos mais primitivos instrumentos, era usado anteriormente para marcar ritmos como baião, maracatu, côco. Nos anos 50 foi introduzido nas escolas-de-samba. Consiste de 2 cones de metal, presos a uma haste metálica, por onde é segurado. Hoje em dia, já se podem encontrar agogôs com até mesmo 5 bocas, que variam em tonalidade (talvez inspirados pelo som dos “steel drums” do Caribe). É tocado com uma baqueta de madeira e dá colorido a bateria. Sua participação é também bastante visual, compõem a parte cênica do show, pois os tocadores tem movimentos coreografados. O agogô tem que ser extremamente bem tocado para não criar conflito com a bateria do tamborim.

CUÍCA – Instrumento feito de uma barrica de madeira (antigamente: hoje, uma raridade) ou metal, com pele de couro em um dos lados e uma vareta de bambu por dentro, que sai do centro da pele e que é esfregada com uma pano úmido ou mesmo com a mão molhada, para produzir um som bastante exótico, que varia de timbre e complementa o colorido da bateria. Ela não tem uma função de marcação, mas se apresenta como solista, é um instrumento de grande criatividade. A cuíca atrai a curiosidade de músicos e turistas estrangeiros por sua originalidade de som, único e divertido.

TAROL – Este instrumento é um tipo de caixa, produz o rufado. Tem a mesma função das castanholas na música espanhola, dá colorido a bateria. É um pequeno cilindro metálico com pele de couro (ou mais frequentemente, pele de nylon) em cada extremidade e tem na parte de baixo um trançado de bordões de violão cruzados 4 vezes para dar atrito. A pele de cima é chamada “pele de chamada” e a de baixo é a “pele de resposta”. É tocado com duas baquetas de madeira e também é pendurado no ombro do músico por uma correia. Sua batida é repetitiva, ininterrupta e ele chama, incita, provoca os outros instrumentos com o seu rufado.

REPIQUE – Este instrumento foi introduzido na bateria também nos anos 50 e é a complementação do tamborim. É um instrumento de chamada, dá o sinal de partida para os ritmistas. É uma caixa cilindrica, mais ou menos do tamanho do tarol, tem pele de couro ou nylon em cada extremidade e é tocado com uma baqueta de madeira. Também é pendurado no ombro do ritmista, que usa uma das mãos como apoio ritmico. É um instrumento muito criativo e inventivo, tira partido de diferentes toques marcando o ataque da bateria.

APITO – O apito é usado pelo diretor da bateria. É o grito de guerra, o sinal de alerta e, toda vez que ele soa, os ritmistas já sabem que alguma coisa vai acontecer. Tudo é previamente estabelecido, combinado durante os ensaios. O diretor com o seu apito tem a mesma posição que o maestro de uma orquestra com sua batuta – ele dá as entradas, as chamadas, a dinâmica, para os músicos.

MESTRE MARÇAL acrescenta. A bateria é o cartão de visita da escola; o samba-enredo é o complemento. O samba conta lendas, tradições, a história do povo brasileiro. A bateria é a força propulsora que convida a todos a participarem, a cantar e dançar durante esses 3 dias em que tudo é esquecido e permitido, nos quais se abrem a alma e o coração para a ALEGRIA – a rainha do Carnaval.

Texto de REGINA WERNECK, a partir de uma entrevista com Mestre Marçal.
Rio, novembro/1987

LP A INCRÍVEL BATERIA DO MESTRE MARÇAL | 1987, Polydor

LADO 1

  1. A INCRÍVEL BATERIA
    (Durval Ferreira – Marçal)

LADO 2

  1. FESTA PARA UM REI NEGRO (PEGA NO GANZÊ)
    (Zuzuca)
    (enredo – “SALGUEIRO”/1971)
  2. O MUNDO MELHOR DE PIXINGUINHA (PIZINDIN)
    (Jair Amorim – Evaldo Gouveia – Velha)
    (enredo – “PORTELA”/1974)
  3. OS SERTÕES
    (Edeor de Paula)
    (enredo – “EM CIMA DA HORA”/1976)
  4. CONTOS DE AREIA (Paulo da Portela, Natal e Clara Nunes)
    (Dedé da Portela – Norival Reis)
    (enredo – “PORTELA”/1984)
  5. ILU-AYÊ (Terra da Vida)
    (Cabana – Norival Reis)
    (enredo – “PORTELA”/1972)
  6. NO REINO DA MÃE DO OURO
    (Tolito – Rubens da Mangueira)
    (enredo – “PORTELA”/1976)
  7. BUM BUM PATICUMBUM PRUGURUNDUM
    (Beto S/ Braço – Aluisio Machado)
    (enredo – “IMPÉRIO SERRANO”/1982)

Polydor ‎– 835 123-1, LP

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *