ARY AMOROSO Elizeth canta Ary Barosso | 1991, Columbia

Quando se pensa em Ary Barroso logo se estabelece a lógica associação com a “Aquarela do Brasil”. Mas existe nele um poeta, espessamente romântico que nesse quase ninguém prestou atenção. Um poeta de versos ágeis e imagens fortes, que se permite despudoradamente falar na primeira pessoa feminina, como aquela submissa do “Camisa Amarela”, ou naquela outra que saiu por ai se ‘esmulambando’ na batucada da vida. É esse amoroso Ary que a Divina Elizeth interpreta neste álbum, pra machucar nossos corações. (Hermínio Bello de Carvalho)

Ary Barroso (07 de novembro 1903/09 de fevereiro 1964) é mineiro de Ubá, cidade que hoje abriga a Móveis Itatiaia. Vinte e cinco anos sem Ary, vinte e cinco anos com uma empresa coincidentemente fundada no mesmo novembro em que o compositor veio ao mundo: um belo motivo para se promover um ato cultural, neste “Amoroso”. Convidar a Divina Elizeth para estrelar este disco é, antes de tudo. homenagem ao grande aquarelista musical, artista que continua sendo reverenciado pelas novas gerações. exaltado que foi por Villa Lobos como um dos nossos maiores metodistas opinião também compartilhada por Tom Jobim. A ficha técnica deste disco relaciona músicos de biografia riquíssima e de alto renome junto não só às plateias brasileiras, como também às internacionais. Ao entregar a produção deste álbum à Belo Bello Empório de Artes Ltda., quis a Móveis Itatiaia presentear sua clientela com um produto cultural de altíssimo nível no momento em que comemora um quarto de século de atividades. É oportunidade única para homenagear também um verdadeiro gênio da nossa música popular que, ao nos deixar também há vinte e cinco anos, legou uma obra cuja a perenidade aqui se confirma na voz de sua intérprete favorita, a sempre divina Elizeth Cardoso.

Hermínio Bello de Carvalho
contracapa


“A grande Elizeth. Refiro-me a Cardoso. Artista de raça. Voz suavíssima e convincente. Interpretação magnífica”. Ary Barroso


Uma explicação

Igual ao nome de Ary Barroso onde os “zés” e “esses” se degladiam e um pernóstico “ipsilone” é sonegado em favor do “i”, também os versos das canções desse ilustre ubanense sofrem os mesmos percalços, não só ortográficos (por conta das partituras mal-acabadamente impressas) mas também melódico-literários – esses por conta dos intérpretes que gravaram suas obras. Garimpar as palavras supostamente corretas ou até entender a procedência de adulterações de frases inteiras (“Que não tenho nada, nada/Que por Deus fui esquecida” por “Que topo qualquer parada/Por um prato de comida”), isso equivale ao esforço de decifrar o próprio sobrenome do compositor. Ora ele se apresenta como Ary Evangelista Barroso, que se transmuda num Ary de Rezende Barroso, que dá lugar às vezes a um Ary Evangelista de Rezende Barroso. Até cabe mencionar o fato que seu sobrenome na certidão de batismo consta com um sonoro “z” mas que ele autografava com “s”, fiel apena ao “ipsilone” do qual jamais abdicou. Cotejando as gravações originais com outras mais recentes, defrontamo-nos com supressões (um exclamativo “Pobre Coitado” é reincorporado na letra do samba “Caco Velho” conforme Ary ensinou à Elizeth) e agregações, como é o caso do breque “Isto não é chalaça”, que Aracy de Almeida provavelmente enxertou naquele samba, sem contudo fazer registro fonográfico desa agregação. Em outras situações, diante de um leque de equívocos, o bom senso nos guiou a optar pelo mais óbvio. No samba “Inquietação”, por exemplo, ficou mesmo “No aceso da paixão” ao invés de “No acesso da paixão”. Melodicamente, por falta de partituras corretas, o critério foi o musical. Orlando Silva, Elis Regina, Nara Leão e Gal Costa tomaram rumos os mais diversos na interpretação de algumas melodias de Ary. Preferimos, entretanto, optar por alguém que estrelou o espetáculo “Mr. Samba” em 1957, na Boate Night and Day abordando a obra do mestre, a própria Elizeth Cardoso. Qual o critério, então, para se manter o tal breque do “Camisa Amarela” tal como consta neste disco? Optamos pela tradição oral, que incorporou a saborosa frase ao samba que, igual ao “Fez Bobagem”, de Assis Valente, foi percusor na utilização do eu feminino, que Chico Buarque depois utilizaria à exaustão na sua maravilhosa obra. Fiquemos então nessa pequena obra-prima que é “Camisa Amarela”, a música mais indicada para centrar a discussão sobre a trama dos equivocos, erros, desacertos ou que nome se dê a esses acidentes litero-musicais que fazem aguçar a lupa dos pesquisadores de verdade verdadeira, que muitas vezes se domicilia em locais desconhecidos. Para avaliar esse tipo de garimpagem e rasteiro, basta cotejar cinco gravações daquele samba: a do próprio compositor, uma segunda e terceira gravadas por Aracy de Almeida, uma quarta gravada por Nara Leão e uma quinta registrada por Gal Costa. Sobre Gal, ela resvalou num erro cometido na primeira versão de Aracy, cantando “Café do rapa” ao invés do “zurrapa”, substantivo que no dicionário do Aurélio consta como vino mau, estragado, mas que no jargão popular equivale a fuleiro, malcheiroso, “pé sujo” ou vá lá que seja: zurrapa mesmo! Aracy cantava “Bebendo o quinto copo de cachaça” (Nara Leão bebeu nessa fonte referendado o equivoco), quando Ary escreveu “Tomando o quarto copo de cachaça”, como também adiante fala que voltou às cinco da manhã, e não duas horas depois (“Voltou às sete horas da manhã”), como consta das versões das duas cantoras. Vergamo nos à ponderação do Produtor Executivo deste disco, João Carlos Carino, um boémio que se preze jamais voltaria às cinco horas da manhã de uma quarta-feira de cinzas, e nem seria flagrado apenas no quarto copo de cachaça. Com o devido respeito ao Ary, abdicamos de sua versão em benefico da que foi registrada na época por Aracy de Almeida, por sinal considerada antológica pelo próprio compositor.

Gastaríamos laudas e mais laudas tentando explicar aqui como é difícil abordar-se a obra de um autor que, morto há vinte e cinco anos, não teve a parte literária de sua obra devida e acertadamente comentada como hoje se faz com Chico Buarque, cujos textos poéticos já são objeto de alguns livros críticos. Isso em nada deprecia a obra do Ary, pelo contrário, observando sua lírica, e de seus parceiros, temos oportunidades de detectar sutilezas poéticas mais encontráveis nos poetas românticos do que nos clássicos, por exemplo. E é esse lado amoroso que pretendemos abordar neste disco interpretado pela Divina Elizeth Cardoso e do bando de músicos-arcanjos que a acompanham neste preito de amor a um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos.

Hermínio Bello de Carvalho
encarte

ARY AMOROSO – Elizeth canta Ary Barosso - 1991

LADO A

  1. INQUIETAÇÃO (Ary Barroso): 2’06”
  2. FAIXA DE CETIM (Ary Barroso)
    NA BATUCADA DA VIDA (Ary Barroso / Luiz Peixoto)
    CAMISA AMARELA (Ary Barroso): 6’46”
  3. FOLHAS MORTAS (Ary Barroso): 3’25”
  4. TRAPO DE GENTE (Ary Barroso)OCULTEI (Ary Barroso): 4’40”
  5. TU (Ary Barroso) Participação Especial de Toni Mascarenhas: 2’20”

Tempo Total: 19’17”

LADO B

  1. PRA MACHUCAR MEU CORAÇÃO (Ary Barroso): 2’23”
  2. POR CAUSA DESTA CABÔCA (Ary Barroso / Luiz Peixoto)
    NO RANCHO FUNDO (Ary Barroso / Lamartine Babo)
    CACO VELHO (Ary Barroso): 10’59”
  3. AS TRÊS LÁGRIMAS (Ary Barroso): 4’06”
  4. INQUIETAÇÃO (Ary Barroso): 1’14”

Tempo Total: 18’42”


Columbia – 281.002/1-464176, LP

Produtor Fonográfico: Belo Bello Empório de Artes;
Produtor Artístico: Hermínio Bello de Carvalho;
Produtor Executivo: João Carlos Carino;
Ass. Produção Executiva: Walter Faria Filho;
Arranjos: Gilson Peranzzetta e Maurício Carrilho;
Projeto Gráfico: DNA PROPAGANDA;
Fotos: Luiz Silva (China)
Técnico de Som; Claudio Farias;
Assistentes: Mauro e Robson;
Teclados: DX7-2 e JK8-P
Mixagem: Maurício Carrilho, Gilson Peranzzetta e Hermínio Bello de Carvalho;

Cavaquinho: Alceu Maia (1);
Tamborim: Gordinho (Antenor Marques Filho) (1); Ovídio Brito (1);
Surdo: Gordinho (Antenor Marques Filho) (1);
Pandeiro: Marcos Suzano (1);
Cuíca: Marcos Suzano (1, 2);
Violão: Maurício Carrilho (1); Raphael Rabello (2, 4, 5, 7);
Violão de 7: Raphael Rabello (1);
Bateria: Wilson das Neves (1, 2, 4, 5, 7);
Contrabaixo: Zeca Assumpção (2, 4, 5, 6, 7);
Arranjador: Maurício Carrilho (1, 2, 4, 5, 7); Gilson Peranzzetta (2, 3, 6, 7);
Violoncelo: David Chew (3);
Acordeon: Sivuca (7);
Gaita (Harmônica): Maurício Einhorn (7);
Saxofone: Mauro Senise (7);
Teclados: Gilson Peranzzetta (2, 4, 5, 7);
Piano: Gilson Peranzzetta (2, 3, 4, 5, 6, 7);
Coro: Áurea Martins (1); Dalva Torres (1); Gustavo Travassos (1); Hermínio Bello de Carvalho (1); Leila Rocha (1); Naiha (1); Toni Mascarenhas (1); Ithamara Koorax (1)

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