áurea martins depontacabeça 2010, Biscoito Fino

Em qualquer país que preze sua cultura, Áurea Martins seria incensada. No Brasil, terra de indigência e cascatas culturais, Áurea Martins não aparece nas rádios nem na televisão. É como se privássemos o povo brasileiro de beber em fonte límpida. Cantar é, já disse e repito, o Maior Espetáculo da Alma. E nossa própria alma nunca se redimirá sem a voz sagrada de Áurea.

Ela faz parte, e talvez seja a última representante, de uma tradição inesgotavelmente rica, e é também pedagógica, porque uma porção de gente que se acha cantora tem muito que aprender com a Áurea Martins. É incrível que uma artista assim diamantifera, única, jóia da Coroa de Ouro formada por cantoras como Ângela Maria, as Irmãs Baptistas, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Elis Regina, Aracy de Almeida, Clementina de Jesus, permaneça em ostracismo cruel. Áurea Martins é o elo vivo de uma história, de uma Legenda Cultural nossa – uma Legenda Áurea!

Aldir Blanc
contracapa

Fissurado por vozes femininas, Hermínio Bello de Carvalho conheceu a de Áurea Martins por intermédio de Elizeth Cardoso. De fã virou amigo; de amigo, produtor. Ela é uma das personagens do livro que Hermínio está escrevendo sobre cantoras brasileiras. O que vem a seguir é um trecho do capítulo sobre Áurea.

“Sabe-se, ao chegar, quando está contrafeita: os óculos escuros pendem até a ponta do nariz, destacando os olhos que faíscam, chamuscam, trovejam. Adentra a casa já cuspindo marimbondos. Volta e meia carrega ou um bolsão (aliás, de grife) ou uma sacola de supermercado, conforme as circunstâncias. E é nesse matulão que ela transporta suas trapizongas. Se está com boina, dela se desfaz e deixa-a num canto do sofá. O ombro direito meio pendido, senta-se esbaforida, dou-lhe um copo d’água e ela destrava a língua. Conta um caso qualquer que se passou há pouco com ela na rua, alguém a desfeiteou ou percebeu-se desfeiteada, não importa. Solta alguns palavrões, e há que se dar um tempo para que ela se recomponha e relate o acontecido.

O acontecido, no caso, não tem muita importância para este relato. E quando se acalma, abre um sorrisão com dentes perolizados, alvíssimos, próprios, e temos de volta nossa amada Áurea Martins em toda sua plenitude.

Estamos na metade de 2010. O cenário é meu apartamento, que estará com pelo menos dois ou três outros amigos de Áurea, quase sempre músicos, até porque haverá ensaio e lá a Áurea dá um beijo na amiga Lucia, que prepara o regabofe. Beberá um copo de água, respirará fundo – e aí vão rolar as histórias, as lembranças, de como venceu há 45 anos o programa “A grande chance” do Flávio Cavalcanti, Maysa estendendo-lhe uma rosa, Bibi Ferreira no júri, e é bom lembrar que ela ainda era Áldima, na pia batismal. Paulo Gracindo é que a batizou artisticamente como Áurea.


“Áurea Martins canta Hermínio Bello de Carvalho”


E aí veio uma quase invisibilidade, menos para aqueles que frequentavam a noite. A “crooner de voz rouca” estava lá, hospedando o repertório de outras cantoras. Teve até que aprender umas canções em inglês para atender a freguesia. É eclética no bom sentido. É preponderante a qualidade de tudo que sua voz expele; literalmente expele. Se esfrega nas palavras, porque o hábito da leitura deu-lhe mais essa qualidade: a de se tornar íntima dos versos que canta.

“Não vai rolar um sambinha?”, perguntam-lhe às vezes, porque afinal a negona está ali para entreter, deve ser eclética, se possível tocar um reco-reco ou puxar um partido alto para a platéia acompanhar e, de lambujem, dar uma reboladinha. Ela, desaforada, responde à provocação, no mais das vezes destituída de maldade, com “Janelas abertas”, de Tom e Vinicius. E aí dá-se o deslumbre.

Foi ao mundo. Trabalhou com a quase totalidade dos instrumentistas brasileiros. Já deu “canja” com Carmen McRae, Toots Thieleman, e uma das fases mais brabas foi quando cantava nas boates da zona sul, com outros operários de calibre: Alcione. Emílio Santiago, Djavan, Dafé. Era preciso garantir o pão de cada dia. Época, também, quando foi descoberta por Elizeth – que saía de casa, coisa rara!, para ouvi-la onde estivesse se apresentando. A biografia da Divina, escrita por Sergio Cabral, não me deixa mentir. Outra admiradora: Zezé Gonzaga, com quem dividiu um espetáculo sobre Lupicínio Rodrigues, mais o piano-e-voz de Zé-Maria Camiloto Rocha, que produziria comigo o seu terceiro disco.

O primeiro, ela o fez com Luizinho Eça, e na companhia do poeta Paulo Mendes Campos. Há uns dois ou três anos, o segundo disco com produção de João de Aquino, e mais recentemente o “Até sangrar”- em 45 anos de carreira, sua discografia registra apenas três títulos.
Quando vejo Áurea Martins sair de sua quase invisibilidade depois daquele primeiro lugar na “Grande chance”, e acompanhar sua subida ao palco para receber, ovacionada, o prêmio de melhor cantora de 2009, fico lamentando que nem Elizeth nem Zezé Gonzaga, suas mais fiéis admiradoras, não estivessem ali.

Senhores: estou falando de Áurea Martins, essa negona de cara enfezada ou de sorriso estonteante, conforme o momento assim o exigir, estou falando de uma das grandes cantoras brasileiras, que não ganha primeiras páginas nos segundos cadernos culturais, mas que cumpre sua trajetória se espelhando naqueles duas magníficas senhoras, que hoje pressinto iluminarem seus passos.”

Hermínio Bello de Carvalho

áurea martins - depontacabeça - 2010

  1. me diz ó deus 5:32
    Moacyr Luz / Hermínio Bello de Carvalho
  2. judiarias 3:56
    Vidal Assis / Hermínio Bello de Carvalho
  3. sete dias 3:56
    Moacyr Luz / Hermínio Bello de Carvalho
  4. acho que é você 3:49
    Paulo Vak / Hermínio Bello de Carvalho
  5. bola no bola 3:09
    Vidal Assis / Hermínio Bello de Carvalho
  6. isso é que é viver 3:49
    Pixinguinha / Hermínio Bello de Carvalho
  7. era o fim 3:44
    Fernando Temporão / Hermínio Bello de Carvalho
  8. quando o amor acaba
    só o amor constrói 5:31
    Moacyr Luz / Hermínio Bello de Carvalho
  9. zoeira 3:23
    Moacyr Luz / Hermínio Bello de Carvalho
  10. cobras e lagartos 3:52
    Sueli Costa / Hermínio Bello de Carvalho
  11. desapreço 2:32
    Cláudio Jorge / Hermínio Bello de Carvalho
  12. via crucis 4:36
    Vidal Assis / Lucas Porto / Hermínio Bello de Carvalho
  13. penúltimo desejo 3:42
    Vidal Assis / Hermínio Bello de Carvalho
  14. pressentimento
    mas quem disse que eu te esqueço 4:02
    Élton Medeiros / Hermínio Bello de Carvalho
    Ivone Lara / Hermínio Bello de Carvalho

Biscoito Fino BF 354, CD

Agradecimentos

Depontacabeça: foi assim que, Áurea Martins mergulhou nas águas deste disco. Abençoada por Elizeth Cardoso e Zezé Gonzaga, suas grandes incentivadoras. É um trabalho feito exclusivamente com letras de Herminio Bello de Carvalho e músicas de diversos parceiros, num arco de tempo que vai de um jovem de 25 anos (Vidal Assis) até Pixinguinha (1897/1973), que teria 113 anos. É homenagem pessoal do letrista à Escola Portátil de Música, representada neste trabalho por alguns de seus professores e alunos, e ao amigo Vicente Maiolino. ausência muito sentida.
Especiais agradecimentos a Hélcio Rodrigues Simões, Luiz Boal, Mário Santos e Eugênio Cabanes pelo fundamental apoio: a Zé Maria Camiloto Rocha, permanente conselheiro, amigo desde sempre: também a Gabriel dos Santos Ferreira, pela gastronomia luxuosa durante as gravações.
À equipe de apoio a este projeto: Marcela Maia, Maiara de Paula, Lidiane Teixeira e Daniel Sili.

Produção artística Lucas Porto e Hermínio Bello de Carvalho
Arranjos Lucas Porto
GRAVADO NO ESTÚDIO DA BISCOITO FINO EM AGOSTO DE 2010.
Assessoria de projeto Olhar Brasileiro Produções Artísticas
Engenheiro do gravação e mixagem Gabriel Pinheiro
Assistente de gravação e mixagem Gustavo Krebs
Projeto gráfico Antonia Ratto Dosign
Fotos da capa, contracapa. selo e encarte Sandra Santos. Iluminação de João Lebrão
Fotos em P&B dos músicos no estúdio Gabriel Pinheiro

UMA REALIZAÇÃO BISCOITO PINO
direção geral KATI ALMEIDA BRAGA
direção artística OLIVIA HIME
gerência de produção MARTINHO FILHO
assistente de produção MARCELA MAIA

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