clara CANTO DAS TRÊS RAÇAS 1976, Odeon

Quando o Brasil ainda era um país desconhecido do resto do mundo, a nossa música era apenas sons dispersos na boca do índio habitante. Porque fazer som e ritmo é próprio do instinto humano. Mas nada havia de definido em termos musicais. Até que aqui chegou o português colonizador e a história da MPB começa. A Terra foi tomada em nome do rei. E o índio guerreiro foi vencido e escravizado ao trabalho da lavoura, em favor da civilização. E, do cativeiro, ecoaram os primeiros cantos tristes que começaram a definir o nosso canto brasileiro.

Dado ao gigantismo da nova nação descoberta, precisavam os conquistadores de muitos e muitos braços para o trabalho, que se prenunciava tão grande quanto o próprio território. E importaram de suas colônias africanas a raça nascida escrava: a raça negra.

E o canto do índio cativo juntou-se ao lamento do preto sofrido das senzalas e dos quilombos. E a música passou a tomar novas formas, proporções e grandeza às quais o mundo inteiro ainda viria se curvar.

Para a nova Terra partia toda espécie de gente: desde os homens de confiança da coroa portuguesa até aventureiros buscando riquezas. E aqui, saudosos de seus lugares de origem passaram também a criar seus cantos.

A colônia crescia e os próprios brancos já sentiam a necessidade da quebro das correntes que uniam Brasil e Portugal. Até que se deu a Independência. E o expressão “música popular brasileira”, desde aí, passou a ter a sua definitiva validade.

Esta é a sua história. A história da música de um país feita pela união das três raças que o construíram. E, tendo sido feita pelo povo, só o próprio povo tem o direito de julgar e consagrar a música popular, porque somente ele sabe os que melhor interpretam seus sentimentos. Os grandes mestres saíram sempre do povo. O bom intérprete sente um estranho afeto pela composição que interpreta. E, nesse instante, letra e melodia são suas. O autor é ele.

Por isso Clara Nunes tem o quilate de uma grande intérprete. Porque, quando canta, se une ao povo num sentimento comum. E o povo sente e gosta e canta com ela, Porque também do povo é o compositor que ainda está por surgir, o mestre que ainda não apareceu.

O povo é simples nas suas origens. E entende melhor as coisas simples. Por isso Clara, porque também veio do povo e tem a mesma simplicidade, porque traz dentro de si a força do talento, porque dedicou-se completamente á música de sua Terra e ao canto de seu povo que ela tanto ama, pode ser chamada por nós de Cantora das Três Raças.

A brasileira Clara Nunes.
Mineira carinhosamente.
Ou somente CLARA.

Paulo César Pinheiro
contracapa

CANTO DAS TRÊS RAÇAS - clara nunes - 1976

Lado A

  1. CANTO DAS TRÊS RAÇAS – 4’25
    (Mauro Duarte – Paulo Cesar Pinheiro)
  2. LAMA – 3’30
    (Mauro Duarte)
  3. ALVOROÇO NO SERTÃO – 3’00
    (Aldair Soares – Raymundo Evangelista)
  4. TENHA PACIÊNCIA – 3’15
    (Nelson Cavaquinho – Guilherme de Brito)
  5. AI, QUEM ME DERA – 3’07
    (Vinicius de Moraes)

Lado B

  1. RISOS E LÁGRIMAS – 3’35
    (Nelson Cavaquinho – Rubens Brandão – José Ribeiro)
  2. BASTA UM DIA – 3’00
    (Chico Buarque de Holanda)
  3. FUZUÊ – 3’55
    (Romildo – Toninho)
  4. MEU SOFRER -3´20
    (Bide – Marçal)
  5. RETRATO FALADO – 3’05
    (Eduardo Gudin – Paulo César Pinheiro)

Odeon – XSMOFB 3915, LP

DIREÇÃO ARTÍSTICA Milton Miranda – DIRETOR MUSICAL Maestro Gaya – DIREÇÃO DE PRODUÇÃO Renato Corrêa – PRODUÇÃO ARTÍSTICA Paulo Cesar Pinheiro – OROUESTRAÇÕES E REGÊNCIAS Maestros / Gaya / Nelsinho / Francis Hime – TÉCNICOS DE GRAVAÇÃO Dacy/Toninho/Robedo – ASSISTENTE DE ESTÚDIO Guaracy (Secreta) – TÉCNICO DE REMIXAGEM Nivaldo Duarte – CORTE Osmar Furtado – ARTE Bosco

MÚSICOS

Aldo Vale: Contrabaixo
Alfredo Bessa: Berimbau
Cabelinho: Agogô
Carlinhos: Cavaquinho
Celso Woltzenlogel: Flauta em AI, QUEM ME DERA
Copinha: Flauta em MEU SOFRER
Dino: Violão em TENHA PACIÊNCIA
Eduardo Gudin: Violão em RETRATO FALADO / CANTO DAS TRÊS RAÇAS
Francis Hime: Piano em AI, QUEM ME DERA / BASTA UM DIA
Guinga: Violão em AI, QUEM ME DERA
João Donato: Piano em RETRATO FALADO
Joel Nascimento: Bandolim
Luna: Atabaque
Paulinho Braga: Bateria em BASTA UM DIA
Paulinho da Viola: Violão em LAMA
Severo: Acordeon
Tião Marinho: Contrabaixo em BASTA UM DIA
Valdir Silva: Violão em MEU SOFRER
Valtinho: Bateria em LAMA / ALVOROÇO NO SERTÃO / TENHA PACIÊNCIA / RISOS E LÁGRIMAS
Wilson das Neves: Bateria em CANTO DAS TRÊS RAÇAS / RISOS E LÁGRIMAS / FUZUÊ / MEU SOFRER / RETRATO FALADO
Zé Menezes: Violão em RISOS E LÁGRIMAS
Ritmo: Conjunto Nosso Samba, Elizeu Felix, Marçal, Pedro Sorongo, Doutor, Elizeu Felix, Luna
Coro: As Gatas, Conjunto Nosso Samba, Evinha, Golden Boys, Marizinha, Regina Corrêa, Marizinha

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