CARTOLA ‎– DOCUMENTO INÉDITO | 1982, Eldorado

Este LP contém um depoimento de Cartola e mais oito obras-primas que ele mesmo canta, acompanhando-se ao violão. É a reprodução de um programa com o fundador da Mangueira na Rádio Eldorado de São Paulo, pouco antes de sua morte. Foi a última vez que Cartola entrou num estúdio de gravação. Ele estava feliz com um novo disco mas já era visivel o abatimento provocado pela doença que o mataria meses depois. Quis poupá-lo de uma conversa demasiadamente inquiridora e cansativa. Pedi que ele próprio escolhesse as músicas e as comentasse rapidamente, durante a gravação. Tudo transcorreu como um encontro de boteco. Conversa, violão e conhaque. Mas Cartola falou mais do que a encomenda e, graças a isso, podemos agora apresentar este documento inédito.

O que Angenor de Oliveira diz nessa conversa musicada já é mais ou menos sabido pelos estudiosos da nossa canção popular, porém acho importante que também seja conhecido pelo ouvinte comum. Até brinquei com ele, no começo do papo: “- Vou te fazer uma pergunta originalissima, de onde vem esse apelido de Cartola?” É que todo repórter jovem, ao entrevistá-lo, começava desse jeito. Essa e outras respostas, entretanto, perderam-se em publicações efêmeras de jornal. Agora, registradas por ele mesmo em disco, soam como um registro importante, levam ao grande público alguns traços básicos de sua biografia. São informações prestadas pela fonte mais confiável, o próprio biografado. Só quando fala na idade das suas músicas, Cartola não é muito exato. O samba “Quem me vê sorrindo” nasceu antes de 1940 e neste depoimento, prestado em fins de, 1979, ele calculou “vinte ou trinta anos”.

Este disco é um auto-retrato falado, onde aparecem, dissimulada, rugas que marcaram sua vida. Cartola não era uma pessoa queixosa, ressentida, como tantas que habitam o território da arte. E aqui fala sem amargura das vicissitudes que o obrigaram a vender direitos a intérpretes famosos (Chico Alves, por exemplo). Do tardio aparecimento em disco próprio. Da paciência com que enfrentou a obscuridade até quase o final da existência. E, entre outras revelações, afirma sua curiosa preferência pelo samba-canção.

Participei do lançamento do LP de estréia de Cartola, na “Discos Marcus Pereira”. Eu era o diretor artístico da gravadora e o produtor João Carlos Botezelli (Pelão) procurou-me num bar, certa noite de 1974, para sugerir o trabalho. Fiquei empolgado. Botezelli, com o seu exagero peninsular, implorou dramaticamente a produção imediata do disco. Respondi, lembrando a renúncia do Jânio Quadros, que estávamos bebendo e não era aquele um momento adequado para uma decisão histórica. Adiei a resposta para o dia seguinte, quando falei com Marcus e, juntos, decidimos: lançar aquele famoso primeiro LP. Agora estou escrevendo essa nota de apresentação para o último LP. Um disco sem divisão de faixas, arranjos orquestrais, convenções. Um disco original, simples e bom como o velho Cartola.
São Paulo, junho de 1982.
ALUIZIO FALCAO
contracapa do LP

LP CARTOLA ‎– DOCUMENTO INÉDITO | 1982, Eldorado

LADO A

1) Que sejam benvindos (Cartola)
2) Autonomia (Cartola)
3) Acontece (Cartola)
4) Senões (Cartola – Nuno Veloso)

LADO B

1) O inverno do meu tempo (Cartola – Roberto Nascimento)
2) Que sejas bem feliz (Cartola)
3) Dê-me graças, senhora (Cartola – Cláudio Jorge)
4) Quem me vê sorrindo (Cartola – Carlos Cachaça)


Eldorado ‎– 59.82.0396, LP

Todas as interpretações são de Cartola.

OBSERVAÇAO – O Chico, referido no depoimento de Cartola, é o cantor Chico Alves. O Carlos é o compositor Carlos Cachaça. O Sergio é o jornalista Sergio Porto, conhecido como Stanislaw Ponte Preta.

“Os fonograrnas “Que sejam benvindos”, “Autonomia” e “Senões” encontram-se também publicados em Discos RCA (LP. “Verde e Rosa”), originalmente interpretados, fixados e cedidos que foram pelo autor a esta empresa, na vigência de específicos contratos artísticos.”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *