Cartola 70 anos | 1979, RCA Victor

Embora esteja ligado ao morro da Mangueira desde a sua meninice, convivendo com aquela gente sofrida, mas que, assim mesmo carregando lata d’água na cabeça numa perfeição de equilíbrio capaz de suplantar qualquer artista circense, não se deixa abater, “não chora miséria”. Cartola não é apenas uma sambista de morro. Seus sambas não se restringem a versejar a dureza, a aspereza do cotidiano daqueles “alpinistas” que escalam caminhos ingrimes para chegar aos seus barracos, casebres, quase cai-não-cai, de cobertura esburacada, parecendo que, de propósito, para permitir que a lua possa pontilhar de estrelas o chão de terra batida.

Do mesmo modo sendo ele um dos iniciadores da famosa escola de samba Estação Primeira, tantas vezes vitoriosa, também não se restringia a ser tão somente um compositor de escola de samba. A amplitude de sua veia poética, a versatilidade fácil de ser constatada no rol de sua bagagem musical onde, sem esforço são encontrados verdadeiros louvores de poesia espontânea, surgidos sem rebuscamentos literários, exige que não os condicionemos resumidamente ao morro que o venera ou a escola verde-e-rosa que ele ajudou a nascer e a ela continua por toda a vida. Cartola é, pois, um poeta amplo, versátil, de grande força lírica.

Cartola Quando um conhecedor de nossa música popular, o Lúcio Rangel, o proclamou ‘Divino’, não estava fazendo um gratuito e inconsequente elogio. A qualificação, a divinização era inteiramente de sólida justiça. Para fácil comprovação apanha-se ao acaso esses versos: “Fita os meus olhos/ vê como eles falam/ como eles reparam/ o teu proceder” Ou então este: “Quando ela parou/ acenou com a mão e desapareceu/ Fiquei certo que o nosso amor morreu…”

Muitos outros exemplos colhidos ao acaso e propositadamente não muito recentes são encontrados nas muitas composições de Cartola. Todas provam, sem esforço, a grandiosidade, a força poética de Angenor de Oliveira, do “Divino” Cartola. Há muitos anos, e para documentar perfeitamente na noite de 26 de janeiro de 1937 num concurso realizado na Feira de Amostras que estava em exibição houve por iniciativa do Departamento de Turismo, um concurso que pôs em confronto os compositores das escolas de samba. Cartola foi o vencedor. Ganhou uma bonita medalha de ouro. Dias depois, um dos membros da comissão julgadora, o conhecido cronista Henrique Pongeti, conhecido com o seu pseudônio Jack, escreveu para “O Globo” “De todo aquele desperdício de bossas, dois sambas bonitos adquiriram o direito de viver e morrer nas bocas volúveis da plateia – os de Cartola, compositor da Mangueira, nenhum mais.”

Cartola continua agora, mais de quarenta anos passados, fazendo sambas de muita ternura, cheios de poesia que toda a plateia aplaude e canta, glorificando “o Divino”.

Jota Elegê
contracapa

Cartola 70 Anos – 1979 RCA Victor 103.0278, LP

Lado A

  1. O INVERNO DO MEU TEMPO
    Cartola / Roberto Nascimento
  2. A COR DA ESPERANÇA
    Cartola / Roberto Nascimento
  3. FERIADO NA ROÇA
    Cartola
  4. CIÊNCIA E ARTE *
    Cartola / Carlos Cachaça
  5. SENÕES
    Cartola / Nuno Veloso
  6. MESMA ESTÓRIA
    Cartola / Élton Medeiros

* Samba-enredo feito para a escola de samba Estação Primeira de Mangueira, em 1949, e que não foi aceito pela diretoria da escola.

Lado B

  1. FIM DE ESTRADA
    Cartola
  2. ENQUANTO DEUS CONSENTIR
    Cartola
  3. DÊ-ME GRAÇAS, SENHORA
    Cartola / Cláudio Jorge
  4. EVITE MEU AMOR
    Cartola
  5. SILÊNCIO DE UM CIPRESTE
    Cartola / Carlos Cachaça
  6. BEM FEITO
    Cartola

RCA Victor 103.0278, LP

Coordenação Artística o Direção do Estúdio: Sérgio Cabral
Arranjos: Nelsinho
Sax-Alto e Clarinete: Abel Ferreira
Trombone: Nelsinho
Orgão: Sérgio Carvalho
Violão de 7 Cordas: Waldir
Violão de 6 Cordas e Viola: Naco
Cavaquinho: Alceu
Contrabaixo: Luizáo
Bateria: Wilson das Neves
Ritmo: Marcal, Luna, Eliseu, Gilberto e Cuscus
Coro: Genaro, Stênio, Barbosa, Gordinho, Miriam Goulart e As Gatas
Técnicos de Gravarão: Mário Jorge Bruno e Flávio Senna
Técnico do Mixagem: Flávio Senna
Corte: José Oswaldo Martins
Fotografia: Walter Firmo (Capa), Ivan Klingen (P&B) o N. M. Passos
Capa: Ney Távora
Gravação e Mixagem: RCA Rio de Janeiro, em 24 canais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *