CARTOLA “AO VIVO” 1991, RGE

“Cartola não existiu. Foi um sonho que a gente teve.” A frase do compositor mangueirense Nelson Sargento, talvez o maior conhecedor da obra musical do Gênio, desmente a certidão de nascimento 22702 assinada pelo tabelião Darcy Hauschildt no dia 13 de outubro de 1908, atestando que dois dias antes nascera no Rio de Janeiro o filho de Sebastião Joaquim de Oliveira e Aida Gomes de Oliveira. Na burquesa rua Ferreira Viana, no Catete. Ao lavrar a certidão o escrevente acrescentou uma letra “ene” ao nome que lhe fora indicado o Agenor de Oliveira virou Angenor. Para a honra e glória da música popular brasileira. Era um domingo.

“Semente de amor sei que sou, desde nascença”. Os versos deste poeta espontâneo sintetizam uma vida. Sua vida. De altos e baixos mais baixos do que altos, se o enfoque for financeiro, muito mais altos que baixos, se a ótica for a arte, a estética, a beleza – iniciada no asfalto, desenvolvida no morro e terminando novamente no asfalto, um ciclo completo desde a germinação da semente á explosão na – poderia ser outra flor? – mais bela rosa (de verde caule) da música popular brasileira.

 

“Tive sim, outro grande amor antes do teu…” naquela tarde de cerveja gelada no Burraco Quente, eu convidada Cartola para participar da I Bienal do Samba em São Paulo e ele exitava entre três sambas que mostrou. Seguindo nosso gosto, inscreveu “Tive Sim“, e o quinto lugar obtido na voz de Ciro Monteiro, deu á ele na época, dois milhões de cruzeiros, quantia que ele considerava ter sido a maior ganha por sua arte de arrancar belezas, de construir harmonias, abraçado ao violão, o companheiro de minúsculo braço, vestido de cordas de aço, como já fora cantado pelo Poeta.

A Bienal foi o reencontro, a volta, a retomada. Fundador da Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira (a famosa combinação das cores verde/rosa dizem ter sido feita por ele, em homenagem ao Fluminense, seu time de futebol favorito), durante anos seu maior e expressivo nome, acabou por desaparecer sendo mesmo dado por morto. Descoberto anos depois por Sérgio Porto, lavando carros em Copacabana, o caminho volta a subir, retornando ao morro, reencontrando os amigos e – principalmente – compondo novamente. Já não era o rapaz ‘galã’ das mulheres da Mangueira, o frequentador obrigatório da Festa da Penha (“Uma camisa e um terno usado/alguém me empresta/Hoje é domingo e eu preciso ir á festa”), mas o assentado e tranquilo marido de Dona Zica. A aventura maravilhosa do restaurante Zicartola já ficara para trás, um divisor de águas na história da MPB e no último quartel da vida as flores perfeitas brotavam com mais vigor, a semente de amor cumprindo seu fadário. “Alvorada“, “Acontece“, “As Rosas Não Falam“, são algumas das muitas reunidas neste LP, gravado ao vivo no Ópera Cabaré na noite de 30 de dezembro de 1978, a última apresentação do Poeta em São Paulo. Graças ao Pelão, que produziu o primeiro disco de Cartola, este disco existe e ajuda a perpetuar a memória do maior e mais sensível compositor brasileiro de todos os tempos. Dois anos após esse show, 30 de novembro de 1980, o moinho do mundo parou suas pás para ele. Cartola tinha 72 anos. Era um domingo.

Arley Pereira
contracapa

CARTOLA “AO VIVO” – 1991

LADO A

  1. ALVORADA – Cartola, Carlos Cachaça, Hermínio Bello de Carvalho
  2. O MUNDO É UM MOINHO – Cartola
  3. SIM – Cartola e Oswaldo Martins
  4. ACONTECE – Cartola
  5. AMOR PROIBIDO – Cartola

LADO B

  1. AS ROSAS NÃO FALAM – Cartola
  2. VERDE QUE TE QUERO ROSA – Cartola e Dalmo Castelo
  3. PEITO VAZIO – Cartola
  4. ALEGRIA – Cartola
  5. O INVERNO DO MEU TEMPO – Cartola e Roberto Nascimento
  6. O SOL NASCERÁ – Cartola e Élton Medeiros

RGE 320.6126, LP

Produção e Direção: J.C. BOTEZELLI (PELÃO)
Técnico de Gravação Original – CHIQUINHO
Técnico de Montagem e Tratamento Sonoro – JOÃO PAULO e PÉRCIO B. PISANI
Foto: PAULO MÁRCIO BONINI
Texto: ARLEY PEREIRA
Arte: ZÉ MAURY DE BARROS
REGIONAL DO EVANDRO
EVANDRO – Bandolim – PINHEIRO – Violão – LÚCIO – Cavaquinho – ZEQUINHA e SILVIO MODESTO – Ritmos
GRAVADO – dia 30-12-1978 – no Ópera Cabaré em São Paulo

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