CARTOLA ENTRE AMIGOS | 1984, Funarte

Cartola entre amigos: os lindos sambas do Mestre da Mangueira lembrados aqui por Dona Neuma, Nélson Sargento, seu Aluísio Dias, Padeirinho, Nuno Veloso, Creusa, Cláudia Savaget. Nadinho da Ilha, Monarco, Doca da Portela, Paulo Marqués – vozes nem sempre mangueirenses, mas todas cantando como se estivessem reunidas no quintal da casa do Divino (como o apelidou Lúcio Rangel) e de sua querida Zica, ela com as trempes e panelas fumegando a carne-seca e o feijão-preto incomparáveis, a Mangueira engalanada em verde-e-rosa para escutar “os lindos sambas do Cartola”. E todos – a exceção de Festa da Penha – absolutamente inéditos, o que da a esta produção um caráter absolutamente original.
contracapa do LP

Essas gravações constituem a fase ‘rica’ da discografia, em que predomina o registro da produção final do autor, pródiga em sucessos como ‘Acontece’, ‘Alvorada no Morro’ (com Carlos Cachaça-Hermínio Ballo de Carvalho), ‘O Sol Nascera’ (com Elton Medeiros), ‘As Rosas Não Falam’ etc. Também a essa fase pertencem os Lps que revelaram outra faceta do artista, o cantor Cartola, sem dúvida um dos melhores intérpretes de suas canções. Este disco, produzido pela Divisão de Música Popular do INM da Funarte, contribui de modo importante para o conhecimento e preservação da obra de Cartola, acrescentando á sua discografia 11 peças nunca antes editadas em gravações comerciais.

Para interpreta-las, o produtor e arranjador João de Aquino escolheu artistas perfeitamente integrados ao espirito do repertório. Em sua maiona são amigos do poeta que viram nascer algumas das composições aqui apresentadas.

A faixa de abertura mostra dois antigos sambas de estilos bem diferentes: ‘Brasil, Terra Adorada’ (parceria de Carlos Cachaça-Arturzinho) e, como sugere o título, um samba-exaltação, cantado pela Mangueira no Carnaval de 1935, antecipou em vários anos o gênero que proliferaria no Estado Novo. No prólogo, a cantora Neuma narra um pitoresco episódio a propósito da composição; já ‘Não’, cujo estribilho tem uma bonita melodia, trata do desfecho de um caso de amor. O intérprete é o veterano violonista Aluisio Dias, seu co-autor. Apoia os solistas uma roda de samba, formada pelo pessoal presente á gravação, que leva para o estúdio o clima de um autêntico pagode de terreiro.

Embora não gostando da chamada música de protesto, Cartola é um dos autores do ‘Samba do Operário’, cantado por Nelson Sargento na faixa A 2. Sua colaboração, entretanto, limita-se à melodia da primeira parte, sendo de Alfredo Português a letra da primeira e de Nelson letra e música da segunda.

Rolam Nos Meus Olhos’ (faixa A 3) é um samba denso, amargo, sombrio. Reflete o estado de espirito do poeta por ocasião da morte de Deolinda, sua primeira mulher. Composto em 1947. Sai do ineditismo na voz de Creuza, filha adotiva do casal.

Nuno Linhares Veloso, co-autor e intérprete do samba-canção ‘Se Outro Amor Tentasse’ (faixa A 4) é um dos jovens de classe média e formação universitária que se tornaram parceiros de Cartola. “Juntos, fizemos mais de duzentas musicas. A maior parte se perdeu”, afirma Nuno em depoimento a Marilia e Arthur. Convivendo com o compositor durante quase trinta anos, Nuno Veloso dele recebeu forte influência que se manifesta até em sua maneira de cantar.

Cartola sempre preferiu se expressar musicalmente em ritmo de samba. Assim, canções como ‘Juca Malvado’ são raridades em seu repertório. Salva do esquecimento graças à memória privilegiada de Nélson Sargento (um verdadeiro arquivo vivo das composições dos amigos), a peça é aqui ressuscitada na interpretação de Paulo Marquês (faixa 5). Em se tratando de uma criação de Cartola, a canção possui ainda outro aspecto singular: conta uma estória rural, a tragédia de um violeiro vitima da malvadeza de Juca que, por questões de amor, deixou o rival aleijado e “para completar o crime, não consentiu que a cabocla” — pivô do caso — “visse mais a luz do dia”.

Padeirinho inicia o lado B cantando ‘Festa da Penha’, um samba (parceria de Asobert) cuja letra espirituosa descreve o procedimento de um devoto que se veste com terno e camisa de amigos para ir à Penha pedir proteção à padroeira. Zeloso para com o patrimônio alheio, ele promete não “subir a escadaria ajoelhado”.

Deus Te Ouça’ foi composto em 1940 para A voz do Morro, um programa que Cartola e Paulo da Portela fizeram durante três meses na Rádio Cruzeiro do Sul. Uma das atrações do programa era o lançamento de sambas novos da dupla que os ouvintes batizavam através de um concurso. O samba dialogado, revivido na faixa B 2 por Monarco e Doca da Portela, foi um dos que receberam título dessa maneira.

Interroguei uma Rosa’, também conhecido como ‘Palco de Grande Tragédia’, é uma das criações de Cartola em que ressalta em toda plenitude seu talento de letrista e melodista. Sob o ponto de vista poético, pode-se afirmar que a obra-prima ‘As Rosas Não Falam’ (nascida vinte anos depois) seria uma ‘descendente direta’ dessa composição. A propósito, escrevem seus biógrafos: “Não parece forçado admitir que algo no inconsciente de Cartola se projetava em símbolos como jardim, rosa e mutismo das flores. Essas mesmas imagens se repetiram em obras compostas com um intervalo de duas décadas”. ‘Interroguei uma Rosa’ é interpretada por Cláudia Savaget na faixa B 3.

Tu Vais ao Samba’ é bem representativo do estilo de samba batucado que imperou nos anos 30 e 40. Cartola compôs muito nesse estilo, principalmente para Creuza na época em que ela se apresentava em programas de rádio. Nadinho da Ilha é o seu intérprete (faixa B 4).

O cantor Cartola não poderia ficar ausente de um disco em que se homenageia o artista em sua dimensão total. Assim, é a voz do poeta que encerra o lado A interpretando — à sua maneira simples e ex-pressiva — o samba ‘Partiu’, cuja melodia mereceu o aplauso ilustre de Heitor Villa-Lobos. A gravação foi realizada por Rildo Hora na residência de Cartola. quando escolhia o repertório de seu terceiro elepê. ‘Partiu’, premiado num concurso em 1937, teve de esperar 47 anos para ser registrado em disco! Infelizmente, boa parte da obra de Cartola permanece ainda no ineditismo. Que a edição deste álbum induza ao aparecimento de outros para que essas canções (ao contrário do samba ‘Partiu’) cheguem logo ao conhecimento do povo.
Jairo Severiano, abril 1984

LP CARTOLA ENTRE AMIGOS | 1984, Funarte

lado A

  1. Brasil, terra adorada Dona Neuma
    Não Aluísio Dias (5´40)
  2. Samba do operário Nélson Sargento (2’52)
  3. Rolam nos meus olhos Creusa (3’40)
  4. Se outro amor tentasse Nuno Veloso (3’20)
  5. Partiu Cartola (210)
    (17´42)

lado B

  1. Festa da Penha Padeirinho (2’06)
  2. Deus te ouça Monarco e Doca da Portela (3’40)
  3. Interroguei uma rosa Cláudia Savaget (3’55)
  4. Tu vais ao samba Nadinho da Ilha (2’52)
  5. Juca Malvado Paulo Marqués (3’37)
    (17’10)

Funarte ‎– 358.404.007, LP

FICHA TÉCNICA

produção fonográfica FUNARTE Divisão de Música Popular
produção artística João de Aquino
assistente de produção artística Marília T. Barbosa da Silva
produção executiva Júlia Peregrino
pesquisa musical Marília T. Barbosa da Silva e Arthur L. de Oliveira Filho
arranjos João de Aquino
técnico de som e mixagem Harley
auxiliar de estúdio Celso
gravação e montagem 31 de outubro, 1, 3, 4 e 5 de novembro de 1983
estúdio Rancho Estúdio (Rio de Janeiro, Brasil) equipamento Studer A-80 (16 canais)
corte Américo
prensagem Gravações Elétricas S/A
ilustração Lan
projeto gráfico Paula Nogueira
produção gráfica Departamento de Editoração da Funarte

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