clementina, cadê você? 1970, Museu da Imagem e do Som MIS

Clementina de Jesus não é somente um documento vivo do nosso folclore: em suas raízes primitivistas, Quelé tornou-se a repositório de um tipo de música que estava se extinguindo, porque não documentada em disco: as batucadas e partidos cantados nas rodas de samba e candomblés, nas casas das famosas “tias” baianas do início do século; as modas de viola que ela ouviu de sua mãe, que por sua vez as recebeu de herança de seus antepassados escravos; e todo um acervo que é, em parte, registrado nesta gravação.

Também o que nos interessa em Clementina, além de seu valor patrimonial, é a força dramática de seu canto, que tem raízes fundas e inconscientes no processo que fornece as células mais vivas e imperecíveis que caracterizam a identidade de nossa linguagem musical. Clementina é a primeira grande cantora negra que, pertencendo à escala menos procurada pelo disco e pelas rádios, tem acesso a esses meios de divulgação, mantendo-se íntegra em toda sua pureza. Ela ajuda, indiretamente, naquilo que se poderia classificar de “reabrasileiramento” do brasileiro. Porque não se pode negar que é típico das culturas subdesenvolvidas (como é a brasileira), a adoção indiscriminada e “despoliciada” de vícios de processos alheios à nossa gênese, o que vem desordenar o seu próprio processo evolutivo e promover a desnacionalização da única forma artística que distingue um povo: a sua música.

Os meios de comunicação, por sua vez condicionados a um comercialismo desenfreado, dão pouca margem à matéria representada por Clementina. Teorias sofisticadas de movimentos que criticam nossa cultura sem apresentar alternativas ou proposições, se esqueceram de perceber – a exemplo do que acontece com o Jazz – o manancial que representa a música “negróide” brasileira. Essa matéria-prima, observada por um Edu e por um Mílton Nascimento (falando apenas da mais nova geração), deveria, no entanto, servir como base para uma formulação mais profunda de uma música mais nacional e menos calcada no que é imposto pelo mercado. Enfim: música totalmente aberta à invenção, mas desvinculada dos jargões que facilitam a venda – porque a linguagem do verdadeiro artista deve diferir da dos mercadores da música. Nacionalizar para internacionalizar, se bem explico. É a partir daí que os subsídios fornecidos por Clementina se tornam preciosos: os sambas de roda, as cantigas de reisado, incelenças, os jongos e caxambús que aprendeu, e tudo mais que canta com emoção e encanto irresistíveis – são bem mais do que um retrato vivo da música brasileira: são uma inesgotável fonte de conhecimentos para aqueles que abordam a matéria popular como fonte de estudos. Lembro-me da confiança que me deram Turíbio dos Santos e Oscar Cáceres, quando descobri a grande partideira, numa tarde gloriosa na Taberna da Glória. Seu primeiro concerto realizado com Turíbio dos Santos no Teatro Jovem em dezembro de 1964, foi acontecimento inigualável. O “Rosa De Ouro” (que marcou o retorno de Aracy Côrtes e revelou Paulinho da Viola e um punhado de bons sambistas), haveria de consagrá-la definitivamente.
HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO
contracapa

clementina, cadê você? (1970)

  1. << Vai, saudade >> (samba) … 3’57
    (Candeia/David do Pandeiro)
  2. << Deus vos salve a casa santa >> (moda) … 1’40
    (folclore)
  3. Três corimas:
    << Ogum megê >>
    << Bendito louvado, ó Ganga >>
    << Lá no mato tem ganga >> … 2’36
    (folclore)
  4. << A Maria começa a beber >> (batucada) … 1’42
    (folclore)
  5. << Tomé >> (batucada) … 1’26
    (folclore)
  6. << Sei lá, Mangueira >> (samba) … 3’38
    (Paulinho da Viola/Hermínio Bello de Carvalho)
  1. << Beira-mar >> (corima) … 2’03
    (folclore)
  2. Duas modas:
    << Trancelin >>
    << A velha do acarajé >> … 3’21
    (folclore)
  3. << Sereia >> (corima) … 2’02
    (folclore)
  4. << Cercar paca >> (jongo) … 2’10
    (folclore)
  5. << A coruja comeu meu curió >> (batucada) … 1’25
    (folclore)
  6. << A Mangueira é lá no céu >> (samba) … 3’29
    (Maurício Tapajós/Hermínio Bello de Carvalho)

Museu da Imagem e do Som MIS 013, LP

FICHA TÉCNICA — PRODUÇÃO: Hermínio Bello de Carvalho / DIREÇÃO MUSICAL: Maestro Nelsinho / MÚSICOS: Maestro Neisinho (trombone); Marçal, Luna, Juquinha, Jair e Elias (ritmo); Indío (viola caipira e cavaquinho); Nilton (violão); Zézinho, Pedrinho, Copacabana, Margarida, Cida e Lila (côro) / ENGENHEIRO DE SOM: Paulo Lavrador / ESTÚDIOS: Museu da Imagem e do Som / GRAVAÇÃO: Dias 29 e 30 de Janeiro e 2 de fevereiro de 1970 / FOTOGRAFIA: J. Fernando Azevedo / LAY-OUT: Ney Távora

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