ELIZETE SOBE o MORRO | 1965, Copacabana

Vou levar, pela vida afora, a satisfação de dizer que`êste disco nasceu na estréia do “Rosa de Ouro”, espetáculo de música popular que dirigi para o lindo Teatro Jovem, de Kleber Santos. Estava eu abraçado ao meu divinal Pixinguinha, quando Elizete me segreda o desejo de gravar as músicas do “Rosa”. Não preciso contar minha emoção. Porque faço parte dessa gente comum que ama, acarinha, pensa e vive Elizete.

Agora, nêste estúdio: ninguém mais simples e modesta que ela, ninguém com mais vontade de realizar o melhor. Daí explico essa onda de carinho e respeito que todo mundo aqui dentro lhe devota. E um afeto coletivo quase religioso, e isso comove, comove. Bem, Elizete voltou muitas vêzes à salinha cheia de “afiches” do Teatrinho. Lápis na mão, ia anotando êste ou aquêle samba, a lista ultrapassando de muito as doze faixas convencionais. O titulo que sugeri de “Elizete Sobe o Morro” não foi ao acaso. Vamos encontrar na ficha dêste elepê alguns dos mais representativos compositores dos morros e das escolas de samba cariocas: o divino Cartola, Nelson Sargento e Nelson Cavaquinho, da Mangueira; Elton Medeiros, da Aprendizes de Lucas; Zé Keti, Jair do Cavaquinho, Candeia e Paulinho da Viola, da Portela; e Nescarzinho, do Salgueiro.

E porque não desejava realizar nada parecido com os seriais que vem gravando para sua fábrica, foi que a Divina convidou excelentes instrumentistas populares para darem a esta gravação a atmosfera verdadeira para os sambas selecionados. Vamos encontrar o prato-e-faca e a irrequieta caixa-de-fósforos de Elton; o tamborim do velho Bucy Moreira, neto da legendária Tia Ciata, dos famosos candomblés do princípio do século, na Visconde de Itaúna; o pandeiro de Geraldo; a caixa de Jair Alves; o tamborim do grande Arnaud Carnegal; o afochê de Aléio; o agogô de Oscar; o surdo de Raul Marques; o cavaco de Jair; o tamborim de Anescarzinho; os violões de Nelson Sargento, José Soares de Freitas (êste com solenes baixarias) e de Paulinho. Participando especialmente desta gravação, o iluminado Nelson Cavaquinho, alternando sua voz espessa com os cantares tão belos da Divina. È também a primeira vez que se perpetua, em disco, a famosa batida “galope” do poeta de Mangueira. Algumas fórmulas foram utilizadas para mostrar o samba carioca em suas múltiplas gamas: alterou-se e reduziu-se o instrumental rítmico: Elizete, em algumas faixas, aparece acompanhada alternadamente pelos violões de Paulo, e de Nelson, tendo ao fundo a caixa-de-fósforos de Elton, e tão à vontade como se estivesse numa das mesas do Zicartola. Um côro misto (Othoniel. Valéria, Cosme, Noemi, Jair, Vera e Glória) intervém em algumas faixas. Desnecessário dizer que foi tudo no improviso, sem um arranjo escrito sequer.

Aqui, a Senhora Sambista (nunca esquecer o seu passado glorioso de porta-estandarte do “Turunas de Monte Alegre”; de crooner do dancing Avenida; de campeã de Charleston do Kananga do Japão) se contrapõe à intérprete daquele importante e inesquecível “Canção do Amor Demais”, de Tonzinho e Vinícius, de ambiência sofisticada e, por vêzes, semi-camerística. Lembremos: se registrava naquele disco a primeira manifestação bossa-nova, com João Gilberto ao violão acompanhando Elizete. Aqui é o regresso às fontes, aos banzos, às raízes. No trajeto de sua carreira, em que se consagrou a maior cantora moderna brasileira, Elizete não teme, agora, êsse nôvo estágio — o de enfrentar uma gravação despojada de qualquer sofisticação, a antítese, enfim, de um estilo que ela mesmo consagrou, e do qual se afasta temporariamente. Poderia este elepê, de tão simples que é, ter sido gravado na birosca da Efigênia do Balbino, lá no Buraco Quente, ou num pagode de partido-alto no quintal da Menina e do Carlos Cachaça, poeta abençoado de Mangueira. Em quatro sessões (31 de maio; 7, 14 e 15 de junho de 1965) perpetuou-se êste disco, sob a direção musical extremamente carinhosa de Moacyr Silva.

Êste poeta agradece, comovido, a lembrança de Elizete de solicitar-lhe esta contracapa. E, rosa de ouro na mão, vem ofertá-la ternamente à enluarada amiga.

Herminio Bello de Carvalho
contracapa


a linda música dos morros e das escolas de samba na voz de
ELIZETE CARDOSO


Houve um tempo não muito distante em que o Brasil vivia um momento de ambigüidade, era a época das contradições, o mundo girava em torno da era de aquário, as mudanças estavam por toda a parte, caminhávamos para uma redescoberta de valores rumo a uma identificação conceitual e a um modo livre de ver e ouvir tudo o que estava em nossa volta pois buscava-se a todo instante a revolução/transformação daquilo que era tradicional, deveria-se, portanto, modernizar os pensamentos, a maneira de agir e demonstrar essas mudanças de diversas formas, sendo que foi através da arte que ela se tornou visível e duradoura. Era um mundo de sonhos? Talvez! Porém muitos ainda estavam irremediavelmente ligados as suas tradições, não queriam que elas desaparecessem, mas sabiam também da necessidade de adequá-las aos novos tempos.

Brasil, inicio de 1965, incertezas, frustrações, progresso, música popular, eis ai a nossa contradição, ou o nosso crescimento/retrocesso, saudades de alguns, raiva e desprezo por outros, sentimentos que se cruzam, qual deles o mais verdadeiro? Se o ideal ainda não existe, pelo menos fiquemos na relatividade, esqueçamos as amarguras e lembremos dos sons suaves de um violão, um cavaquinho, um coro bem afinado, uma frase inesquecível, uma voz divina, essa é a melhor parte, pois mesmo que bombas de gás lacrimogêneo estourem os nossos ouvidos e nos causem angustia e desespero, elas em tempo algum irão superar a saudade de um verso perfeito e uma melodia inesquecível, é a constatação dos contrários e que embora não queiramos resulta sempre numa afirmação, num sentimento inequívoco, dito de maneiras diferentes mas que pode ser resumido como um, ah! que saudade daqueles tempos, o mundo já não é o mesmo! Eu era feliz e não sabia! E assim sem se querer a melancolia chega, a musica se aproxima e cada vez mais se faz presente, obscurecendo todas as bombas, é a arte vibrando com sua vitória inquestionável diante dos erros humanos.

Foi então que nos dias 31 de maio, 7, 14 e 15 de junho daquele ano de 1965 uma das maiores cantoras brasileiras, Elizete Cardoso entrou nos estúdios da Copacabana Discos no Rio de Janeiro e gravou um LP em que sintetizava o tradicional modernizando-o com categoria e demonstrando que se podia manter uma raiz cultural numa época de grandes transformações na estética musical . Ela não se intimidou e fez como ninguém havia feito ainda dando um novo rumo ao samba realizando um trabalho atemporal e eterno.

Depois de ter assistido ao show Rosa de Ouro produzido por Hermínio Belo de Carvalho, resolveu que deveria gravar um disco com o repertório do espetáculo e também com músicas dos compositores que dele fizeram parte. E assim surgiu um disco fenomenal intitulado de Elizete Sobe o Morro onde aparecem pela vez composições de um rapaz chamado Paulo César Faria que o Brasil iria respeitar com o nome de Paulinho da Viola e que participaria ainda com seu instrumento de todas as faixas do LP, outro bamba Nelson Cavaquinho estreava também em disco como cantor e violonista e ao seu lado estavam os calouros de estúdio, Nelson Sargento tocando violão, Jair Costa, cavaquinho e Elton Medeiros na caixa de fósforos. Entre os compositores figuravam com destaque Cartola, Candeia e Zé Keti.

O estúdio da Copacabana transformou-se numa verdadeira roda de samba e sem o saber perenizou um dos momentos mágicos da música popular brasileira reunindo artistas de um talento excepcional e revelando outros na mesma proporção. Elizete Cardoso num dos grandes momentos de sua carreira reafirmava a cada faixa o porque de ser considerada como “Divina”, sua estrela brilhou intensamente naqueles dias de gravação e contagiou a todos que estavam ao seu lado e que brilharam juntos. Unindo o tradicional e o moderno o disco traz na capa um trabalho do pintor Walter Wendhausen numa colagem perfeita que simboliza a imagem estilizada de um barraco e seus componentes básicos decorativos. Uma bela obra de arte e renovadora como conceito gráfico das capas de nossos LPs.

Elizete Sobe o Morro é uma das obras máximas de nossa discografia e representa a maturidade de nosso samba de raiz numa época em que o repique de um tamborim, a batida de um violão, o som de uma cuíca, de um agogô e de um pandeiro, aliados a mais pura poesia e uma voz maravilhosa fizessem o contraponto das contradições permitindo que o belo sobressaísse e se perenizasse na história conseguindo o que parecia impossível, que tivéssemos saudades de um tempo difícil.

Luiz Américo Lisboa Junior

ELIZETE SOBE o MORRO - 1965

LADO 1
  1. VOU PARTIR
    (Nelson Cavaquinho – Jair Costa)
  2. MALVADEZA DURÃO
    (Zé Keti)
  3. FÔLHAS NO AR
    (Elton Medeiros – Hermínio Bello de Carvalho)
  4. PECADORA
    (Jair Costa – Joãozinho)
  5. ROSA DE OURO
    (Hermínio Bello de Carvalho – Elton Medeiros – Paulinho da Viola)
  6. A FLOR E O ESPINHO
    (Nelson Cavaquinho Alcides Caminha – Guilherme de Brito)
LADO 2
  1. MINHAS MADRUGADAS
    (Paulinho da Viola – Candeia)
  2. ÁGUA DO RIO (Só Resta Saudade)
    (Noel Rosa de Oliveira – Anescar Pereira Filho)
  3. SIM
    (Cartola – Oswaldo Martins)
  4. MEU VIVER
    (Elton Medeiros – Jair Costa – Kleber Santos)
  5. ÊLE DEIXOU
    (Nelson Mattos – Jair Costa)
  6. LUZ NEGRA
    (Nelson Cavaquinho – Amâncio Cardoso)

Copacabana – CLP 11434, LP

Produção e direção musical: MOACYR SILVA
Técnico de som: PAULO ROBERTO DO NASCIMENTO
Capa: WALTER WENDHAUSEN

INFORMAÇÕES TÉCNICAS

A perfeita qualidade de som obtida para esta gravação, foi conseguida com o melhor equipamento existente na atualidade, e dentro dos preceitos mais avançados da técnica moderna. Foi usado um gravador de fita AMPEX modêlo 350. Foram utilizados microfones “TELEFUNKEN” modêlos KM 56, KM 52 e A 49. Os “acetatos-master” AUDIODISC profissionais foram cortados numa máquina “TELEFUNKEN” automática de passo constantemente variável e conjugada com uma cabeça de gravação da mesma marca. Foram utilizadas prensas automáticas “WATSON STILLMAN” das mais modernas.

O desvio máximo permitido é de – 1 DB de 30 C. P. S. a 15.000 C. P. S. e para obter-se a correta resposta de frequência deste LP, aconselhamos que se equipamento reprodutor seja equalizado na curva R. I. A. A. (gráfico al lado).

A capa dêste disco é impresa em cartolina especialmente fabricada para sua proteção, evitando-se, assim, os inconvenientes apresentados pelo uso de plásticos internos.

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