ELTON MEDEIROS 1973, Odeon

Imagine-se um respeitável orixá – um Xangô maduro – sabedor da vida que um dia se recusou a vestir suas cores para dançar. Um orixá que, ao som dos atabaques, baixou em seu cavalo apenas para um desabafo: “Neste candomblé só da turista. Me desculpem mas esta não é a minha. Procurem outra.”

No quadro do que seria a cultura popular carioca – samba, carnaval, essas coisas – esse orixá se chama Élton Medeiros. Élton Antônio Medeiros, conforme a identidade. Nascido na Glória bairro de tradições populares (a festa de Nossa Senhora da Glória). Filho de funcionário do Arsenal da Marinha, participante da fundação de duas Escolas de Samba (Tupi de Brás de Pina e Unidos de Lucas) e da primeira ala de compositores realmente organizada (Aprendizes de Lucas – e isto deu o que falar), padrinho da famosa ala de compositores da Portela Élton, certo dia, levantou os olhos para a arquibancada e só viu turistas olhou em volta e só viu crioula malabarista, crioula de passo marcado e grã-fina vestida de dama imperial – o povo que vive samba, estava lá fora sem poder entrar. Ao que disse Élton: “Não sou bandeja de borboleta para ser vendido a gringo”. Desvestiu as cores da escola e nunca mais ouvidos turísticos ouviram seu samba.

O trabalho de Élton, para os que sabem compreendê-lo em toda extensão, é um reflexo desta atitude crítica diante das pessoas, diante do samba e da música. Compositor de vasta carreira, registrada em vozes como a de Jamelão, Elizeth Cardoso, Paulinho da Viola, Dalva de Oliveira, Elza Soares, Élton é o popular que se refina. Sua pureza é a do sambista que, da mesa de botequim, que contempla a vida, ou a do ‘falso malandro’. Faz questão de saber para aonde vai. E analisa, depara, seleciona a partir daí, inspiração para ele é a apenas a base, para ele atingir o produto final que assim, o coloca entre os melhores de nossa música popular.

Este é o primeiro disco individual de Élton (em 1966 dividiu com Paulinho da Viola as faixas do excelente LP Na Madrugada. É uma síntese de seu trabalho, um mapa de sua caminhada desde um “Mascarada“, por exemplo, até inéditos como “Avenida Fechada” e “Sebastiana“. É uma síntese, na qual ele homenageia seus parceiros principais, deixando claro, outra característica de Élton, conservando sua identidade, ele funciona como denominador comum entre épocas e sensibilidades, entre sambistas como Joacyr, Zé Ketti, Mauro Bolacha, um veterano como Ciro de Souza (autor de “Tenha Pena de Mim“), ou o novíssimo Cristóvão Bastos (pianista e arranjador) e o poeta-pedreiro Angenor de Oliveira, o Cartola.

Pureza, espontaneidade esse disco tem. Mas ninguém espere ouvir um daqueles discos de samba “gravados ao vivo”, em “clima de feijoada” ou outras expressões usadas para encobrir deslizes da produção. Este disco foi tratado com carinho profissional, com sentido criativo, sem firulas repetidas e uma autenticidade tão levianamente invocada e explorada por aí.

Dos grandes parceiros de Élton, um ficou de fora (ou mais dentro que os outros): Paulinho da Viola, produtor do disco – Élton fez questão disso – esmerou-se na arrumação da casa, comprou o vinho, organizou o cardápio, atendo aos menores detalhes para o êxito da recepção. E como um mordomo digno, esta agora, recebendo os convidados para essa noite de gala de seu irmão musical. Festa que é sua, parabéns.
JUAREZ BARROSO
outubro de 1973

ELTON MEDEIROS 1973

LADO UM

AVENIDA FECHADA (2:51)
(Élton Medeiros-Cristóvão Bastos-Antônio Valente)
PRA BATER MINHA VIOLA (2:04)
(Élton Medeiros)
PRESSENTIMENTO (2:37)
(Élton Medeiros-Hermínio Bello de Carvalho)
MEU CARNAVAL (1:52)
(Élton Medeiros-Cacaso)
FOTOS E FATOS (2:26)
(Élton Medeiros-Otávio de Morais)
MASCARADA/O SOL NASCERÁ (2:37)
(Zé Keti-Élton Medeiros/Cartola-Élton Medeiros)

LADO DOIS

VEM MAIS DEVAGAR (2:26)
(Élton Medeiros-Joacyr Sant’Anna)
SEBASTIANA (3:38)
(Élton Medeiros-Ciro de Souza)
SANDÁLIA DOURADA (2:11)
(Élton Medeiros-Austeclinio)
VAZIO (2:23)
(Élton Medeiros-Mauro Duarte)
HORA “H” (2:13)
(Élton Medeiros-Antônio Valente)
SEI CHORAR (2:40)
(Cartola)


Odeon – SMOFB 3820, LP

FICHA TÉCNICA

Diretor de Produção: Milton Miranda
Diretor Musical: Maestro Gaya
Assistente de Produção: Paulinho da Viola
Arranjos e Regência: Orlando Silveira

Copinha : Flauta
Cristóvão Bastos : Teclados, Violão (6,8,11), Arranjos (1,11)
Dazinho : Ritmo
Dininho : Contrabaixo
Dino 7 Cordas : Violão 7 Cordas
Elizeu Felix : Ritmo
Elton Medeiros : Caixa de Fósforos
Geraldo Sabino : Ritmo
Jonas Pereira da Silva : Cavaquinho
Juquinha : Bateria
Marçal : Ritmo

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