EU VOU P’RA MARACANGALHA DORIVAL Caymmi 1957, Odeon

A poesia e a música de Dorival Caymmi, ou melhor poderemos dizer a arte de Dorival Caymmi, já é um fato consagrado em nosso país. Quando Caymmi faz um sucesso, ele atinge diretamente a alma do povo brasileiro. Ao escrever “MARCANGALHA“, o baiano, na simplicidade de seus versos e sua música consegue transmitir a filosofia de um James Hilton quando imaginou o famoso Shangri-La de “Horizontes Perdidos” e de outros locais fictícios mas cobiçados por todos.

“SE ANÁLIA NÃO QUISER IR
EU VOU SÓ”

Nem a companheira imaginária impede a ansiedade pelo seu recanto de felicidade.

Neste disco, a ODEON. além de oferecer “MARCANGALHA” aos adeptos de L.P., reuniu outras seleções não menos interessantes, todas elas escritas e interpretadas por Caymmi:

SAMBA DA MINHA TERRA
SAUDADE DA BAIA
ACONTECE QUE EU SOU BAIANO
FIZ UMA VIAGEM
VATAPÁ
RODA PIÃO
365 IGREJAS

Aloysio de Oliveira
contracapa

Disquinho de oito músicas com pouco mais de vinte minutos de duração. Quase nada. E mais não era necessário para fazer um dos discos mais perfeitos e incontornáveis da história da MPB. Caymmi consegue encapsular diversas facetas de suas música como quem não faz quase nada. Escondida na narração de coisas simples, quase comezinhas, ele constrói a mais pitoresca e ressonante representação da Bahia de sua juventude, elevada ao patamar da mais fina ficção. Pode-se quase dizer que Caymmi inventou uma certa baianidade à qual a realidade apenas fez o favor de se ajustar. Isso de modo muito mais sutil que outro famoso criador de arquétipos baianos, Jorge Amado, que em boa parte das ocasiões apelou para o grotesco e o exagero, como se a simples observação não pudesse encontrar recepção. Caymmi não cairia nesta armadilha; seu jeito galante esconde a revolução que perpetrava.

Caymmi foi um dos principais artífices da transição, à partir da década de 40, de um certo modo de cantar e abordar a canção, que viria a ser aprofundado nas décadas seguintes e faria o esteio da música brasileira. Sua voz forte e de grande alcance transmitia doçura não muito comum para a época, com suas vozes empostadas (dizem que por culpa dos microfones que não captavam tão bem os sons e faziam necessárias as notas altas para a melhor audição). Caymmi sempre foi o trovador que se equilibrou tranqüilamente em águas turbulentas, daquelas que levaram muitos de seus pescadores e seu modo de cantar, transição que foi apenas um de seus exemplos. Cantou a Bahia, o mar e os pescadores, mas alcançou beleza universal. Sempre pregou a simplicidade e a economia musical, mas suas melodias e harmonias estão entre as mais ricas da música brasileira e não é por menos que João Gilberto sempre que pode anuncia que aprendeu tudo com Caymmi e não deixa de sublinhar, como se fosse segredo, o apelo ímpar de suas composições.

Eu Vou p’ra Maracangalha começa logo com três músicas que estão entre suas mais famosas e apresentam repertório distinto das canções praieiras dos primeiros discos. Não havia nada mais “de vanguarda” que suas composições para o violão, como o andamento absurdo de “Samba da Minha Terra”; aliás, poderíamos dizer que aqui nasce João Gilberto. Bebendo de sambas, choros, modinhas e todo o repertório da época, Caymmi esculpe melodias e arranjos que oscilam entre a boemia e a melancolia da saudade, mas que são sempre concisos e complexos na construção. Aqui não temos apenas o violão de Caymmi, mas ricos arranjos para orquestra que ressaltam o espírito celebratório do álbum através de soluções inovadoras. “Acontece que eu sou baiano” dá uma dica para a música de Caymmi: “Acontece que eu sou baiano / Acontece que ela não é/ Mas tem um requebrado pro lado/ Minha Nossa Senhora /E ninguém sabe o que é”. Pois então, a música de Caymmi tem tal requebrado pro lado, de leve, que ninguém sabia o que era. Caymmi não legou discografia, deixou monumento daquele que ainda está longe de esgotar sua capacidade de encantar e fornecer inspiração, se é que isso será possível. Se ele já nos abandonou e foi lá prá Maracangalha, agora na companhia de Stella Maris; que festa danada não deve acontecer. (Marcus Martins)

EU VOU P'RA MARACANGALHA - DORIVAL Caymmi - 1957

MARACANGALHA, Samba
Dorival Caymmi
Acomp.: Orquestra – Arr. e Dir.: A.GNATALLI

SAMBA DA MINHA TERRA, Samba
Dorival Caymmi

SAUDADE DA BAHIA, Samba
Dorival Caymmi
Acomp.: LÉO PERRACHI e sua Orquestra

ACONTECE QUE EU SOU BAIANO, Samba
Dorival Caymmi

FIZ UMA VIAGEM, Toada
Dorival Caymmi
Acomp.: Orquestra – Arr. e Dir.: A.GNATALLI

VATAPÁ, Samba
Dorival Caymmi
Acomp.: LÉO PERRACHI e sua Orquestra

RODA PIÃO
Dorival Caymmi
Acomp.: LÉO PERRACHI e sua Orquestra

365 IGREJAS, Samba
Dorival Caymmi


Odeon – MOEB-3.000, LP

Dorival Caymmi : Violão – faixas: 2,4,8
Alexandre Gnattali e sua Orquestra / Arranjador: Alexandre Gnattali – faixas: 1,5
Léo Peracchi e sua Orquestra / Arranjador: Léo Peracchi – faixas: 3,6,7

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