GERALDO PEREIRA – PEDRINHO RODRIGUES BEBEL | 1984, Funarte

Este disco é uma homenagem a Geraldo Pereira, um mineiro de Juiz de Fora criado no morro da Mangueira. Malandro, valentão, mulherengo e principalmente excelente sambista (bastaria citar o conhecidíssimo Falsa Baiana), Geraldo Pereira foi um verdadeiro cronista dos morros, dos subúrbios e da vida boêmia do Rio de Janeiro dos anos 40 e 50. Como diz o pesquisador Jairo Severiano, ele ocupou lugar “de destaque no processo de evolução do samba através da valorização das síncopas e do emprego de determinadas resoluções harmônicas inusitadas nas composições da época”. Nesta linha está Bolinha de Papel, música gravada por João Gilberto nos primórdios da Bossa-nova. Este LP mostra uma síntese da obra do grande sambista. São 23 composições, agrupadas por temas em sete blocos. Para gravá-las, Rildo Hora – arranjador e produtor do disco – escolheu a jovem Bebel Gilberto (filha de Miúcha e João Gilberto) e o veterano Pedrinho Rodrigues, uma dupla dotada de muito senso rítmico, requisito indispensável para uma boa interpretação do repertório do homenageado.

A OBRA EM 23 COMPOSIÇÕES

O meu primeiro contato com a obra de Geraldo Pereira foi ouvindo os Calouros do Ary Barroso, na década de 1950, Rádio Tupi do Rio de Janeiro. Eu morava em Madureira e naquela época o rádio era a distração predileta de todos. Ninguém perdia o programa do Ary quando ia para o ar, quem não estivesse com ele ligado ouvia pelo aparelho do vizinho e ao perceber, pelas gongadas, que estava sendo transmitido, procurava sintonizar a ‘caixa de conversa’ para não perder os comentários quase sempre irônicos do célebre apresentador. Os bons sambistas, calouros, cantavam com frequência sambas do Geraldo, principalmente Escurinho e Falsa baiana. A divisão diferente, maliciosa, me chamava a atenção e uma batucada de leve, em cima da mesa ou do que estivesse por perto acontecia anonimamente naquelas noites suburbanas da infância.

Mais tarde, ao conhecer Ciro Monteiro (produzi um disco com ele em dupla com Jorge Veiga), ficamos amigos. Quem não era amigo do Formigão? Durante as nossas conversas ouvi muitas histórias e músicas do Geraldo. Grande companheiro e intérprete do compositor, Ciro nunca deixava de falar sobre o ‘Neguinho danado’ que tanto admirava. Foram horas e horas de conversa e aprendizado.

Quando João Gilberto gravou Bolinha de Papel acompanhado por Walter Wanderley e seu conjunto, me pareceu uma coisa muito forte, principalmente pelas resoluções harmônicas que apresentava, destacando com veemência o fraseado melódico, rico em acentuações, divisão e molejo. Marca indiscutível de Geraldo Pereira. Para os músicos, eu diria que a agradável gravação valorizou o samba porque João usou com inteligência os acordes do primeiro e quinto grau, agregados com dissonâncias leves evitando os uníssonos e oitavas que empobrecem a harmonia. Para os que tocam violão ‘de ouvido’ poderemos dizer que as ‘primeiras, segundas, terceiras e preparações’ foram levemente enriquecidas, com um dedo a mais ou a menos.

Em 1974, o compositor Nelson Sargento (que conviveu com Geraldo e sabe quase todos os seus sambas) me fez uma visita para mostrar seus recentes trabalhos (sambas e pinturas). Gravei o material e, abusando da nossa amizade, pedi que cantasse para mim alguma coisa de Geraldo Pereira. Nelson me encantou com uns vinte sambas, alguns desconhecidos e outros de sucesso. Esta fita eu guardei e sempre que posso ouço-a com admiração e respeito.

Novembro de 1983. O telefone tocou. Herminio Bello de Carvalho me pedia que produzisse um disco para a Funarte. Recusei alegando stress. O poeta sorriu e disse: “Geraldo Pereira…” Fiquei bom na hora!

Procurei o Francisco Duarte, um dos autores da monografia sobre o sambista. Almoçamos juntos uma comida caseira e tomando uma coisinha amiga ele me deu muitas dicas importantes para que eu pudesse escolher com equilíbrio o repertório do disco. Adotei o critério de agrupar sambas afins, da seguinte maneira:
1 Ginga da cabrocha (sambas na linha do ‘Falsa baiana’);
2 Carnaval do Geraldo Pereira;
3 ‘Escurinha’- ‘Escurinho’;
4 Dedicados à Isabel;
5 Sucessos;
6 Baile;
7 Sociais;

Ao escrever as orquestrações, preferi caminhos simples, sempre influenciado pelo som das orquestras de gafieira dos bailes da meninice, optando por escalas melódicas brasileiras. Na parte harmónica, procurei valorizar os baixos, caminhando com eles sempre que possível, evitando a coincidência com o canto, buscando assim obter enriquecimento sem descaracterizar as obras. Os chorões brasileiros, mestres autodidatas, sempre seguiram nesta pisada. Daí o uso freqüente dos intervalos de terças e sextas nos contrapontos populares do nosso cancioneiro.

Pedrinho Rodrigues e Bebel, admiradores de Geraldo Pereira, se entregaram ao trabalho com total dedicação, conseguindo assim interpretações impregnadas de emoção e carioquismo.
Rildo Hora

GENIAL MAS TURBULENTO PAGODEIRO

Geraldo Teodoro Pereira, um “genial mas turbulento pagodeiro”, foi compositor e cantor e sambista, num tempo em que (anos 40 e 50) estas palavras tinham significado mais real. Do artista popular puro que foi, somente a face do compositor genial é mostrada neste disco. O sambista e o cantor de rádio estão no todo da pesquisa (um pacote de disco e livro) que estuda detalhadamente o mito e realidade do negro mineiro (nascido em Juiz de Fora em 23 de abril de 1918) que veio para o Rio de Janeiro (1931) ainda criança e aqui se carioquizou crescendo entre os bambas dos morros de Santo António e da Mangueira.
Seu aprendizado de vida (como operário de fábricas e funcionário público) e música (aprendendo violão e samba com Aluísio do Violão, Alfredo Português e outros) o fizeram sonhar desde cedo com o estrelato fácil do rádio, veículo máximo de comunicação do tempo e estrada de ascensão social que ele buscou, trilhando (desde 1939) os caminhos da música composta e gravada. A realidade dura da vida diária de favelado, ele a enfrentava com sua habilidade nata de fazer sambas, particularmente o chamado samba de morro que ele intuitivamente produzia e no qual viria a ser o marco mais alto do samba sincopado, prenúncio quase da Bossa-nova que alguns anos depois (1958) seria criada na Zona Sul.
Geraldo Pereira (GTP na pesquisa) tinha apenas um curso primário, mas muita vontade de vencer, que unida à vivência intensa e capacidade de observação criativa, fizeram dele o compositor que mais de perto estampou a realidade cotidiana do carioca sem dinheiro e dançador daqueles anos de guerra e paz que marcaram o inicio da ditadura gêtulista e o fim do governo democrático do mesmo Vargas. A partir de 1934 GTP foi componente e compositor da Escola de Samba Unidos da Mangueira, grupamento musical e desfilante que disputava a primazia do morro e do samba com a famosa Estação Primeira, de Cartola. Carlos Cachaça, Pimenta, dos quais GTP era amigo e discípulo. Em 1938 deixou sua escola e foi para a Mangueira, onde permaneceu como sambista participante até sua morte em 1955.
Foram apenas 37 anos de vida tumultuada, em que o machismo mineiro predominou sempre sobre o homem sensível que ele era e que o arrastou para uma vida intima desorganizada. Colecionou mulheres e brigas domésticas por toda a vida. Externamente, em particular no fim da existência, adquiriu fama de valente e brigão, malandro capaz de enfrentar magotes de guardas e bambas, dando pernadas e rodopiando na vida e no samba, pelos bairros de São Cristóvão, Engenho de Dentro, Cruz Vermelha, Centro e Lapa, onde morou. Por causa de mulheres e desavenças amorosas (tema de 67 das músicas que deixou gravadas) ele casou cedo e contra sua vontade com Euliria Salustiano, com a qual nunca viveu, mas com quem teve um filho (seu único filho) em 1945. Viveu, sim, com diversas outras, antes de conhecer Isabel (Isabelinha da Muda, Isabel do Geraldo. Isabel, a Redentora:Pecadora) que foi por seis anos (de 1944 a 1950) o grande amor de sua vida. E também o maior problema, pois o temperamento turbulento de ambos os fez viver uma vida de sentimentos extremados (muito amor e muita pancada), que acabou por destruir a paixão que os unia.
Com altos e baixos e mais algumas ‘irmãzinhas’ (como Nazareth que se seguiu a Isabel) GTP cresceu na música e no rádio (chegou a fazer shows em boites de São Paulo e ser contratado exclusivo da Rádio Club como cantor), ao mesmo tempo em que se desorganizava moral e fisicamente, numa vida boêmia e desregrada, nas noites da Lapa e bares, gafieiras e dancings do Centro, em seqüências intermináveis de brigas com desafetos e bebedeiras acumuladas. Minado em sua resistência orgânica o desfecho trágico veio a 8 de maio de 1955. Conta a lenda que Geraldo Pereira morreu vitimado por um soco (um soco só!) desfechado pelo malandro e homossexual Madame Satã, dentro do Bar A Capela, na Lapa. Na realidade, Geraldo Pereira morreu por outros motivos, o livro conta. Mas, o mito do malandro sambista permanece na cabeça do povo e nas páginas lindas e consagradas como Falsa baiana, Pisei num despacho, Chegou a bonitona, Que samba bom!, Pedro do Pedregulho, Sem compromisso, Abaixo de Deus!, Escurinha, Ministério da Economia ou Escurinho (algumas das quais o disco mostra num esplêndido trabalho de Rildo Hora, orientando Pedrinho Rodrigues e marcando a estreia da cantora Bebel). Nosso trabalho de pesquisa teve o texto sob minha orientação e a colaboração de Alice Duarte de Campos, Dulcinéa Nunes Gomes e do sambista (amigo em vida de GTP) e compositor Nelson Sargento.
Francisco Duarte Silva
Co-autor do livro Um certo Geraldo Pereira, vencedor do Projeto Lúcio Rangel 1981, edição Funarte 1984.

UM NOVO GERALDO

1. Conta Roberto Paiva que, por ocasião da gravação do samba Se você sair chorando. em 1939, o orquestrador Pixinguinha se declarou surpreso com a originalidade da melodia.
Se você sair chorando era a primeira composição gravada de Geraldo Teodoro Pereira, um crioulo nascido em Juiz de Fora e criado no morro carioca de Mangueira. Nela já apareciam bem definidas as características que levariam seu autor a ocupar um lugar de destaque no processo de evolução do samba: a valorização das sincopas e o emprego de determinadas resoluções harmônicas, inusitadas nas composições da época.
Mas o talento de Geraldo Pereira não se restringia à criação musical. Ele era também um excelente letrista, um cronista do meio onde viveu, os subúrbios e morros do Rio de Janeiro.
A reunião desses fatores resultaria na construção de uma obra de estilo personalíssimo, o ‘estilo Geraldo Pereira’, de fácil identificação, mesmo numa pequena amostragem de seu repertório.
Geraldo morreu aos 37 anos e deixou 77 composições, das quais cerca de 90% são sambas sincopados. Elas foram lançadas em disco no período de 1939 a 1955 (exceto o samba Vai, gravado em 1961) e tiveram como intérpretes mais assíduos o próprio autor e Ciro Monteiro.
Este elepê mostra uma síntese da obra do grande sambista. São 23 composições, agrupadas por temas em sete blocos. Para gravá-las, Rildo Hora — arranjador e produtor do disco — escolheu a jovem Bebel (filha de Miúcha e João Gilberto) e o veterano Pedrinho Rodrigues, uma dupla dotada de muito senso rítmico, requisito indispensável para uma boa interpretação do repertório do homenageado.

2. No bloco 1, a ginga da cabrocha é focalizada em três sambas bem sacudidos:
— em Quando ela passa a moça rodopia com sua saia verde e amarela. deixando todo mundo louco para sambar com ela. As cores da saia da dançarina e os versos “quando a vejo sambando, me sinto mais brasileiro” dão ênfase ao caráter de brasilidade da cena:
— já com a Falsa baiana acontece o contrário, porque “ela só fica parada. não canta e nem samba”, enfim, não tem competência para fazer como a autêntica” que mexe, remexe e deixa a moçada com água na boca…” Este samba, protótipo do ‘estilo Geraldo Pereira’, é seu maior sucesso e possui dezenas de gravações (Ciro Monteiro, Gal Costa, Nora Ney, Clementina de Jesus, Risadinha. Jair Rodrigues, Roberto Silva, João Gilberto, o saxofonista Stan Getz etc.):
— em Mais um milagre, o compositor conta o reencontro com a mulher amada, que já não sambava mais para ele. Sendo a musa uma baiana, o milagre da volta é, muito justamente, atribuído ao Senhor do Bonfim.
Quando ela samba e Falsa baiana foram lançados por Ciro Monteiro em 1941 e 1944, e Mais um milagre, pelo autor em 1945. A interpretação de Bebel, bem à vontade num repertório composto muitos anos antes de ela nascer, mostra a intemporalidade da obra de Geraldo Pereira.

3. O bloco 2 apresenta músicas de Carnaval:
Que samba bom, único grande sucesso carnavalesco do compositor, é um convite à participação em um certo “samba” (no caso baile) onda há “muita bebida” e até “mulher sobrando” pros “trouxas se arrumarem”:
— em Até quarta-feira o protagonista despede-se da companheira para brincar o Carnaval, pedindo sua compreensão: “tenha paciência. sou eu que marco a cadência, se eu faltar, fico mal com o pessoal”:
Boca rica repete a situação de Que samba bom, só que agora, além de bebida, há “comida pra noite inteira” e “mulheres fantasiadas de baiana” (uma fixação de Geraldo) “com barriguinhas de fora’:
— encerra o agrupamento Vai, que depois eu vou, cujo titulo é uma ordem do folião à sua parceira (talvez aquela falsa baiana…) “que não brinca. nem deixa a gente brincar”. Geraldo não compunha muito para o Carnaval, preferindo dedicar a melhor parte de sua produção à chamada música de meio-de-ano.
Que samba bom (1949), Até quarta-feira (1943), Boca rica (1950) e Vai, que depois eu vou (1946) foram lançados, respectivamente, por Blecaute, Ciro Monteiro, Emilinha Borba e Anjos do Inferno.

4. O bloco 3 é formado por Escurinha e Escurinho. dois dos melhores sambas de Geraldo Pereira:
— no primeiro, um apaixonado da Escurinha faz-lhe uma tentadora proposta, dentro dos padrões das classes mais pobres do Rio de Janeiro. Em troca de seu amor ele oferece: “um boteco, um barraco no morro de Mangueira”, com telhado de zinco e assoalho no chão” e, de quebra, a honraria de “rainha da escola de samba”. Realmente, por tudo isso e mais uma ameaça veada (“tu tens que ser minha de qualquer maneira”, a Escurinha não deve ter oferecido maior resistência, a exemplo das próprias conquistas do compositor, galã de muitas aventuras:
— provavelmente autobiográfica é também a saga do Escurinho. Valente, brigão (sempre), provocador (às vezes), Geraldo costumava se envolver em situações idênticas às retratadas neste samba. Sua estrutura, cheia de sincopas, é muito adequada para descrever o sobe e desce do protagonista nos morros da cidade, “derrubando o tabuleiro da baiana, batendo num bamba e carregando a mulher do Zé Pretinho”.
Escurinha foi lançado pelo autor em 1952 e Escurinho, seu segundo maior sucesso, por Ciro Monteiro, em 1955, tendo ainda gravações de Dolores Duran, Dilermando Pinheiro, Clementina de Jesus, Roberto Paiva, Roberto Silva, Elza Soares, Nora Ney, Chico Buarque e outros.

5. No bloco 4 estão dois sambas dedicados a Isabel, grande paixão do compositor:
Minha companheira homenageia uma “mulher fiel” que “não mente, não é fingida” e ainda alerta o companheiro ao pressentir possíveis traições: “meu benzinho, fulano vive contigo, mas abre o olho que ele não é teu amigo”:
— ao contrário. Liberta meu coração pinta uma Isabel completamente diferente. Aqui ela é “a pecadora” que escravizou o sambista e a quem, numa analogia à Redentora, ele implora: “liberta meu coração, Isabel!”
Composto antes de Liberta meu coração, gravado em 1948 por Abílio Lessa, Minha companheira seria lançado somente em 1949 por Roberto Silva.

6. O bloco 5 abre o lado B do elepê com quatro sucessos:
— em Você está sumindo o sambista procura convencer a amada a voltar, chamando-lhe a atenção para a decadência que lhe provoca seu abandono. Sozinho, desprezado, ele ainda tem que suportar a gozação dos amigos: “você está acabado, chi! você está sumindo…”
Bolinha de papel é um samba buliçoso, leve como a imagem que lhe serve de título. De certa maneira, antecipa algumas características adotadas pelo movimento bossa-nova. Não por acaso, seria redescoberto por João Gilberto em 1961, transformando-se num dos clássicos do movimento:
— segundo Francisco Duarte — biógrafo do compositor — Pisei num despacho também é baseado em fato real: Geraldo surrara um malandro, conhecido como Cabo Verde, numa briga por causa de Isabel: em represália, fizeram-lhe um despacho que ele gloza na composição e até promete neutralizar com “um banho de erva em Caxias”:
— mesmo depois de reconhecido como autor de sucesso, Geraldo cedeu parceria a diversos, digamos, ‘financiadores’, que nada tinham de compositores. Com Acertei no milhar, porém, aconteceu diferente. O samba é quase todo de Wilson Batista, tendo Geraldo entrado na co-autoria por sugestão de Moreira da Silva, para ‘trabalhar’ a composição, ou seja. divulga-la.
Acertei no milhar (1940), Você está sumindo (1943), Bolinha de papel (1945) e Pisei num despacho (1947) foram lançados. respectivamente, por Moreira da Silva, Ciro Monteiro, Anjos do Inferno e, outra vez, Ciro Monteiro.

7. O bloco 6 mostra situações ligadas a danca, gafieiras etc.:
Sem compromisso reproduz uma cena de ciúme. O cavalheiro, vendo sua dama fazer par constante com um rival adverte-a: é bom acabar com isso para não haver bate-boca dentro do salão”. Os amores sofridos servem de tema a muitas letras de Geraldo. A professora Dulcinea Gomes realizou para a sua biografia um minucioso levantamento desses temas, o qual revela uma preponderância dos itens separação, abandono, tristeza, solidão etc. Paradoxalmente, eles são cantados com certa dose de humor e em melodias alegres, quase todas no modo maior:
Acabou a sopa é mais um samba autobiográfico. Associada por alguns á Isabel, a personagem despachada na tetra com um seco “pode arrumar sua roupa” é, na verdade, inspirada na figura de uma outra mulher do compositor:
— em Chegou a bonitona o sambista incita os companheiros de folia a se animarem ante a entrada em cena de um “pedaço de mulher” que se requebra em todas as direções… Nos versos finais, pronto para agir, ele indaga: “cadê o moço dono dessa dona? se num tá, eu vou me atraca”:
Até hoje não voltou conta a estória de um cidadão que havia escolhido para companheira “uma mulher da roça”, aparentemente imune às tentações da cidade. Em uma semana, entretanto, a roceira “mandou esticar os cabelos, pintou as unhas dos pés” e, muito mal-agradecida, “foi dançar na gafieira e até hoje não voltou”, deixando indignado seu ‘benfeitor:
Resignação é uma das raras composições criadas por Geraldo para interpretes femininas. A heroína deste samba, tal como a fujona do anterior, é uma vitima do machismo da época (década de 1940). Comporta-se, porém, de maneira diferente pois, ao descobrir o lenço do companheiro “manchado de carmim”, contenta-se em esboçar um tímido protesto: “é preciso mudar de pensar porque a minha paciência pode se esgotar”.
Sem compromisso (1944), Chegou a bonitona (1948), e Resignação (1943) foram lançados, respectivamente, pelos Anjos do Inferno, Blecaute e Odete Amaral: Acabou a sopa (1940) e Até hoje não voltou (1944). por Ciro Monteiro.

8. Encerra o disco o bloco 7, com sambas de caráter: social:
— Algumas letras de Geraldo fornecem indicações dos lugares por onde passou. Um exemplo é o samba Bonde da Piedade, uma referência ao antigo 77 no qual viajava diariamente nos tempos em que morou para os lados de Piedade:
— por causa de um atraso de pagamento, Geraldo deixou de comprar uma fantasia de baiana desejada por Isabel. Em compensação, aproveitou o assunto para compor O pagamento ainda não saiu. “O seu Manoel citado na composição existiu realmente”, explica Francisco Duarte. “Era proprietário de uma leiteria na rua Saião Lobato em Mangueira, e socorreu por várias vezes o autor em suas dificuldades financeiras”.
— Geraldo Pereira não se interessava pelos acontecimentos políticos. Em 1951, porém, entusiasmou-se com o recém-empossado governo Vargas e resolveu extremar em um samba suas esperanças no ministério que seria criado pra conter o custo de vida. O Ministério da economia não se concretizou (foi substituído pela Cofap), mas seu nome ficou registrado no título dessa composição, cuja letra descreve as agruras e esperanças de um favelado.
O pagamento ainda não saiu (1946) foi lançado por Jorge Veiga: Ministério da economia (1951) e Bonde da Piedade (1945) foram gravados pelo autor. Esta seleção é uma oportuna revisita à obra de Geraldo Pereira, que, talvez pelo seu caráter inovador, não foi suficientemente compreendida e valorizada na época em que apareceu.
Jairo Severiano

PROJETO ALMIRANTE

O Projeto Almirante, nome com que se presta homenagem a memória do grande radialista, cantor e compositor Henrique Foréis Domingues, vem complementar a série de ações que a Funarte, dentro do espírito do documento da Secretaria da Cultura Diretrizes para operacionalização da política cultural do MEC, está desenvolvendo no sentido de promover, divulgar, apoiar e preservar as manifestações culturais do povo brasileiro no domínio da música.
Com o Projeto Almirante, amplia-se esse ciclo harmonioso, que objetiva atender ao escoamento de uma produção artística que dificilmente seria absorvida pelo circuito discográfico comercial, pelos aspectos menos convencionais de sua proposta. O Projeto pretende documentar não só essa produção, como também editar e fazer difundir aquele tipo de bem cultural que jamais chegou ao disco, ou que nele teve vida efêmera, objetivando dessa forma reeditar títulos essenciais ao entendimento de nosso processo de criação. Pretende ainda, à feição do Projeto Airton Barbosa, recuperar acervos de música popular confinados em arquivos de particulares, resgatando-os para o domínio público e fixar em disco os resíduos decorrentes da própria ação da Funarte, na sua qualidade de produtora de bens culturais. Propõe-se o Projeto Almirante abranger, em sua coleção de títulos no âmbito da música popular, a criatividade nacional na extensa multiplicidade de suas formas.

GERALDO PEREIRA (PEDRINHO RODRIGUES / BEBEL) - 1984

lado A

  1. Quando ela samba J. Portela/Geraldo Pereira
    Falsa baiana Geraldo Pereira
    Mais um milagre Geraldo Pereira
  2. Que samba bom Arnaldo Passos/Geraldo Pereira
    Até quarta-feira Jorge de Castro/Geraldo Pereira
    Boca rica Arnaldo Passos/Geraldo Pereira
    Vai, que depois eu vou Geraldo Pereira
  3. Escurinha Arnaldo Passos/Geraldo Pereira
    Escurinho Geraldo Pereira
  4. Minha companheira Geraldo Pereira
    Liberta meu coração José Batista/Geraldo Pereira

lado B

  1. Você está sumindo Jorge de Castro/Geraldo Pereira
    Bolinha de papel Geraldo Pereira
    Pisei num despacho Elpidio Viana/Geraldo Pereira
    Acertei no milhar Wilson Batista/Geraldo Pereira
  2. Sem compromisso Nelson Trigueiro/Geraldo Pereira
    Acabou a sopa Augusto Garcez/Geraldo Pereira
    Chegou a bonitona José Batista/Geraldo Pereira
    Até hoje não voltou J. Portela/Geraldo Pereira
    Resignação Arnô Provenzano/Geraldo Pereira
  3. Bonde da Piedade Ary Monteiro/Geraldo Pereira
    O pagamento ainda não saiu Ariel Nogueira/Geraldo Pereira
    Ministério da Economia Arnaldo Passos/Geraldo Pereira

Funarte – 3.58.404.005, LP

Produção Fonográfica: Funarte INM Divisão de Música Popular
Produção Artística, orquestrações e regência: Rildo Hora
Produção Executiva: Julia Peregrino
Pesquisa Musical: Francisco Duarte Silva e Ayrton Pisco
Técnico de som e mixagem: Harley
Auxiliar de Estúdio: Celso
Gravação e Montagem: 19 a 23 de dezembro de 1983
Estúdio: Rancho Studio (Rio de Janeiro, Brasil)
Equipamento: Studer A-80 (16 canais)
Corte: Américo
Prensagem: Gravações Elétricas AS
Projeto Gráfico: Departamento de Editoração da Funarte

Músicos:

Pedrinho Rodrigues: voz
Bebel Gilberto: voz
Teclados e piano acústico: Helvius Vilela
Contrabaixo: Luizão
Violão: Arthur Verocai
Realejo: Rildo Hora
Flauta: Franklin
Trombone: Zeca do Trombone
Bateria: João Cortez
Pandeiro, tamborim, caixeta, cuíca e tan-tan: Ovívio
Caixinha de agulhas de disco 78 rpm: Ubirany do Nascimento

*P.S. textos.: contracapa e encarte dos LP

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