GUILHERME DE BRITO | 1980, Eldorado

Não deve ser fácil produzir música com Nelson Antonio da Silva. Não deve? Muito melhor escrever que não pode. Parece quase impossível porque os talentos imanentes, daqueles que transbordam através da pele embora o mundo, muitas vezes, nem se aperceba disso, os talentos imanentes, eu dizia, são complexos e não comportam parcerias.

Se alguém não sabe, Nelson Antonio da Silva prefere responder pelo nome de Nelson Cavaquinho. Pois com ele, com sua voz de eterno gripado, com seu violão dedilhado apenas com o indicador da mão direita, como se a carne fosse uma palheta, com a sensibilidade maravilhosa de Nelson, um cigano urbano, carioca, 68 anos de idade, outro carioca de estirpe juntou seus trapos musicais.

Filho de violonista, irmão de violonista, funcionário trinta anos da Casa Edison, formidável patrocinadora da música popular brasileira no começo do século, Guilherme de Brito Bolhorst, capricorniano de 1922, encaixou-se ao estro de Nelson com uma perfeição de santo. O que eles fizeram, em três décadas de grande amizade e trabalho comum? Basta um leve passeio por seu repertório para definir sua importância: Quando Eu Me Chamar Saudade (“Sei que amanhã, quando eu morrer/ Os meus amigos vão dizer/ Que eu tinha bom coração”), Amor Perfeito (“O amor é como a flor/Que nasce e morre/ Quando não se espera”), Gotas de Luar (“Se eu pudesse roubar/ As gotas de luar/ Que vi brilhar nos olhos teus/ Guardava aquele encanto/ Pra enfeitar meu pranto/Na hora do adeus”), A Vida (“Se viver é bom/ Como é que a vida diz/ Tens de sofrer/ Prá ser feliz”), Não é só Você (“Escondo a minha dor/ Pois eu não sei o mal que fiz”), Folhas Secas (“Quando eu piso em folhas secas/ Caidas de uma mangueira/ Penso na minha escola/ E nos poetas/ De minha estação primeira”), Mulher Sem Alma (“Fui tão bom prá ela/ Dei meu nome a ela”), A Flor e o Espinho (“Tire o seu sorriso do Caminho/Que eu quero passar com a minha dor”).

Interrompi o trajeto para que o passeio fosse, mesmo, bem leve. Não é justo que minha incontrolável empolgação com a genialidade (enfim, voltei a usar a palavra maldita!) de Nelson e Guilherme seja transmitida, apenas, por meio de um alinhavar de versos sensacionais. Primeiro, debaixo deste papel há um lindo disco a ouvir. Segundo, o lindo disco a ouvir pertence, acima de tudo, ao nobre talento de Guilherme de Brito – o primeiro disco em três décadas de carreira, quem diria. Entre parênteses: Nelson Cavaquinho também padeceu quase toda a sua vida de um anonimato discográfico, do qual só foi resgatado, há seis anos, pelo mesmo obstinado produtor artístico que se responsabilizou pela excelente qualidade deste LP.

Muito bem. Paremos aqui. Eu não pretendia cair nas minúcias – uma contracapa não é a sede ideal para críticas ou comentários. Neste espaço se fazem, creio eu, homenagens públicas a quem merece. Homenagens comovidas, sim, mas rápidas. Pois o brilho da obra de Guilherme de Brito (com ou sem Nelson Cavaquinho), a intensidade de seu canto, a riqueza de suas interpretações, ah, esses precisam ser saboreados sem muitas explicações. E depressa. Para que o prezado ouvinte possa repetir a experiência duas, dez, mil vezes. A sua sensibilidade merece.

Silvio Lancelotti
contracapa

GUILHERME DE BRITO – 1980 Eldorado – 15.79.0341, LP

FACE A:

  1. ME ESQUECE (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito) – 2’43”
  2. MINHA PAZ (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito)- 2’41”
  3. A FLOR E O ESPINHO (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito/Alcides Caminha) – 2’30”
  4. MINHA SOLIDÃO (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito) – 2’16”
  5. MEU DILEMA (Guilherme de Brito) – 3’25”
  6. PRANTO DE POETA (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito) – 2’23”
    Tempo total: 15’58”

FACE B

  1. QUANDO EU ME CHAMAR SAUDADE (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito) – 2’56”
  2. ROSA DO MATO (Guilherme de Brito/Pedro Caetano) – 3’22”
  3. MULHER SEM ALMA (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito) – 2’09”
  4. TRAÇO DE UNIÃO (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito)- 2’07”
  5. FOLHAS SECAS (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito)- 2’20”
  6. O BEM QUERER (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito)- 2’33”
    Tempo total: 15’27”

Eldorado – 15.79.0341, LP

Produtor Fonográfico: Estúdio Eldorado

Coordenação Artística: ALUIZIO FALCÃO
Produção e Direção de Estudio: J.C. BOTEZELI (PELÃO)
Assistente de Produção: SERGIO BOTEZELI VALÉRIO
Arranjos e Regência: MAESTRO HORONDINO JOSE DA SILVA (Dino)
Técnico de Gravação: LUIZ CARLOS BATISTA
Mixagem: LUIZ CARLOS BATISTA E J.C. BOTEZELI (Pelão)

Músicos

Maestro Horondino José da Silva (Divo) – VIOLÃO 7 CORDAS
Jorge José da Silva (Jorginho) – PANDEIRO
Israel – VIOLÃO
Nelson de Freitas (Nelsinho) – CAVAQUINHO
Isaias – BANDOLIM (Faixas “Traço de união”, “Minha paz”, “A flor e o espinho”, “Quando eu me chamar saudade”).
“Bolão” – FLAUTA (Faixas “Rosa do mato” e “Me esquece”).
Edson – FLAUTA (Faixas “A flor e o espinho”, “Minha solidão e Bem querer”)
Felpudo – TROMBONE DE PISTO (Faixas “Pranto de poeta e Mulher sem alma”)
Téo – RITMO (RECO-RECO E TAMBORIM)
Côro – AELOA
Arregimentação – CIBELE E DARCY VALÉRIO
Capa e Direção de Arte; ARIEL SEVERINO
Diagramação e Montagem: FLAVIO MACHADO
Foto: SEVERINO

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