ismael silva – se você jurar – 1973

A realização do show “Se você Jurar” e as dezenas de vezes que ele foi levado em palco deram-me a gratificação de conviver e conhecer a fundo essa maravilhosa e complexa figura humana que ó Ismael Silva. É certo que minha admiração por Ismael vinha de há muito mais tempo, desde quando pela primeira vez gravou em 1966 seu depoimento para o Museu da Imagem e do Som. E digo “pela primeira vez” porque essa admiração foi crescendo a tal ponto que o convidei a postar no MIS, um ano depois, um segundo depoimento, a pretexto (e verdadeiro) de preencher certas lacunas observadas no primeiro.

Pois bem, esses dois depoimentos e mais a intimidade de longos papos regados a cervejas generosas me dariam a instrumentação ideal para escrever, tempos mais tarde, o espetáculo que contaria pela primeira vez a história da vida do grande compositor. Ao ouvir algumas faixas deste disco ainda me parece estar assistindo-participando do “Se Você Jurar” e me ocorre lembrar alguns dos mais importantes momentos da vida de Ismael. Aquele decisivo, por exemplo, que ocorreu quando o cantor do maior prestígio no Brasil nos últimos anos na década dos 20 procurou numa noite por um compositor popular, jovem e desconhecido, num Bar do Estácio. Naquela hora estava aparecendo para a história do samba um dos seus expoentes mais verdadeiros: o cantor era Francisco Alves, a noite era uma noite quente e enluarada de verão de 1927, o bar era o Bar e Café Apolo do Estácio e o compositor não era senão o nosso Ismael, um jovem bem apessoado de 22 anos que havia vendido, tempos antes, uma música por 100 mil réis, música cuja gravação começava a fazer sucesso: “Não me faz carinho”, comprado e gravado pelo próprio cantor e que naquela noite viera procurá-lo para ofrecer-lhe gravação exclusiva de todas suas composições.

Foi a partir de então que começou a existir para a história da cultura popular dêste pais um dos três maiores sambistas de todos os tempos, justamente aquele que foi o estruturador da malícia e do ritmo do samba urbano carioca. A verdade ó que – com ou sem Chico Alves – o aparecimento de Ismael no cenário artístico não poderia deixar mesmo de acontecer: seu talento era de tal ordem que, já pelos 18 anos de idade, fazia sambas que empolgavam seus amigos de rodas de bar e de boemia, a maioria deles também compositores, alguns grandes, como Alcebíades Barcelos, Armando Marçal, Baiaco, Brancura e Nilton Bastos. Este último foi seu primeiro grande parceiro, e de dupla (da qual ainda constava obrigatoriamente o nome do cantos Francisco Alves) nasceram grandes sambas, 2 dos quais estão nesse elepê “Se Você Jurar” e “Nem é bom falar”. A parceria com Nilton Bastos, no entanto, seria breve. Nilton morreria vitimado por tuberculose galopante em fins de 31. E, logo depois, no final deste mesmo ano, Ismael teria um outro grande parceiro: Noel de Medeiros Rosa o genial poeta da Vila. Desse encontro de gigantes não poderia senão nascer obras-primas. E – num total de nove – as obras-primas se sucediam: “Pra me livrar do mal”, “Boa Viagem”, “Adeus” (essas três primeiras incluídas nesse disco), “Ando cismado”, “Uma jura que fiz”, “A razão dá-se a quem tem”, etc. A partir da parceria com Noel Rosa, Ismael vai-se libertando da tutela de Chico Alves e vários outros intérpretes começam a gravar seus sambas alguns dessa época incluídos também nesse disco como “Tristezas não pagam dívidas”, “Ao romper da Aurora” (com Lamartine Babo), “Choro sim”, “Diga teu nome” e “Novo Amor”. E ainda nessa época – os anos trinta – que Ismael registra em disco sua voz pela primeira vez (e logo ao lado de Noel, nos sambas “Quem não dança”, “Seu Jacintho” e “Vejo Amanhecer”). Mas a verdade é que se anos da década de trinta marcaram a fase de ouro de Ismael, que deu a lume dezenas de sambas inesquecíveis que se convertiam, logo que lançados, em sucessos que varriam o país de ponta a ponta. Não bastasse a coleção de sambas antológicos lançados desde 1927, Ismael contava ainda a seu crédito o de haver sido o fundador da primeira Escola de Samba: a “Deixa Falar” criada em 12 de agosto de 1926 e que sairia pela primeira vez no carnaval de 29 e ainda nos anos de 1930 e 1931. Pois bem: mesmo com tantos e tão esplêndidos créditos a seu favor, Ismael Silva desapareceria virtualmente da cena artística nos anos 40, para voltar somente em 1950 com um samba belíssimo e que, em verdade, fugia a sua tadicional linha, pela amargura doida de seus versos e por seu andamento lento e quase dramático: era o “Antonico” (também neste elepê), a meu ver o samba “melhor caráter” da história da música popular brasileira. Quatro anos depois, em 1954, Ismael voltaria num “show” de grande sucesso “O samba nasce no Coração”, ao lado de Ataulpho Alves, Pixinguinha e toda a velha guarda. Era a época da revalorização das figuras proeminentes da MPB. Logo depois, Ismael gravou seus dois primeiros elepês como intérprete de suas músicas: “O samba na voz do sambista” (da Sinter, 1955) e “Ismael canta Ismael” (da Mocambo, 1956). Depois, mais um período de injusto e absurdo esquecimento, que duraria até 1964, quando a revalorização definitiva de sua obra e de sua importância passou a fazer-se cristalina e irreversível, começando pelo Zicartola e continuando em seguida com o show “O samba pede passagem” do qual seria gravado seu 3° elepê, (Phillips, 1965), com as homenagens da Bienal do Samba e ainda os programas especiais de TV, de rádio, de teatros e casas noturnas. Finalmente, a volta aos palcos ao lado de Carmen Costa em “Se Você Jurar”, espetáculo que escrevi especialmente para contar sua vida (junto com a de Carmen) e que estreou nacionalmente a convite da Prefeitura de Curitiba no Teatro Paiol, dois dias antes do carnaval de 73. E logo depois do show, Ismael gravou, nos dias 13, 14 e 15 de junho deste ano de 1973, este seu elepê, o primeiro a dar uma visão geral de sua obra: no lado A estão os grandes sucessos do passado (já focalizados ao longo destas notas), dispostos em bloco de duas músicas em cada faixa. No lado B estão as músicas inéditas, de sua produção mais recente. Sem nenhuma dúvida, esse disco da RCA dá-nos um Ismael por inteiro, e que nos mostra, nas novas músicas, que continuam o mesmo compositor de sempre, o mesmo filósofo e poeta do povo, que causou o encanto de várias gerações desde Mario de Andrade, Prudente de Moraes Netto, Lucio Rangel, Sergio Buarque de Hollanda, Vinicius de Moraes, até os dias atuais, quando um dos curtidores maiores do compositor é Chico Buarque de Holanda, que sempre proclamou aos quatro ventos a importância da influência de Ismael na sua própria obra como compositor. Uma coisa é certa: este disco reconfirma os momentos de revelação que cada pessoa já terá sentido ao ouvir Ismael silva.

Ricardo Cravo Albin
contracapa

ismael silva – se você jurar – 1973

LADO A

  1. ANTONICO – Ismael Silva
  2. NEM É BOM FALAR – Ismael Silva, Francisco Alvos e Nilton Bastos
    ADEUS – Ismael Silva e Noel Rosa
  3. ME DIGA TEU NOME – Ismael Silva e Noel Rosa
    BOA VIAGEM – Ismael Silva e Noel Rosa
  4. SE VOCÊ JURAR – Ismael Silva, Francisco Alvos e Nilton Bastos
    PRÁ ME LIVRAR DO MAL – Ismael Silva e Noel Rosa
  5. AO ROMPER DA AURORA – Ismael Silva, Francisco Alvos e Lamartine Babo
    CHORO SIM – Ismael Silva
  6. TRISTEZAS NÃO PAGAM DÍVIDAS – Ismael Silva
    NOVO AMOR – Ismael Silva

LADO B

  1. CONTRASTES – Ismael Silva
  2. ALEGRIA – Ismael Silva
  3. ALIÁS – Ismael Silva
  4. RECEIO – Ismael Silva
  5. ENTRADA FRANCA – Ismael Silva
  6. AFINA A VIOLA – Ismael Silva

RCA – 103.0071, LP

FICHA TÉCNICA
COORDENAÇÃO GERAL:
Osmar Zandomenigui
COORDENAÇÃO ARTISTICA E DIREÇÃO DE ESTÚDIO:
Waldyr Santos
ARRANJOS E REGÉNCIA:
Messias Santos Jr.
TÉCNICO DE SOM:
Paulo Frazão (Garrincha)
FOTOS: Oswaldo Micheioni
ARTE: Tebaldo
GRAVAÇÃO E MIXAGEM:
Estúdio A da RCA em São Paulo, em 10 canais

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