João Nogueira | 1972, Odeon

JOÃO NOGUEIRA

Canta, quem canta, seus males espanta
E de um samba de amor, pode surgir a luz…

Depois:

Eu tenho no peito um tesouro
E o meu coração é de ouro…

Tem mais:
Sou mestre e não sinto cansaço
A minha corrente é de aço
Se quer ser feliz
Cante comigo também.

Esse recado, na voz de Elizeth Cardoso, marcou a chegada de mais um grande nome na música popular brasileira

É mais um JOÃO que veio diferente no cantar samba e fazer verso.

É mais uma reza forte nas quebradas, meu compadre.

Olha ai, gente boa! Pintou umas feras no som deste disco.
Altatniro Carrilho (flauta); Dino (Violão de sete cordas); Sidney da Conceição (pandeiro nos sambas partido-alto); Lula e Juquinha (Bateria); Neco (violão); Dom Salvador (piano e órgão) e os técnicos de som: Nivaldo e Toninho.

ADELZON ALVES
Assistente de Produção.
contracapa

Disco de 12 sambas, o grito do subúrbio com o som da Lapa


Disco de João Nogueira redescobre os valores do subúrbio e levanta a voz da Lapa, mas com características modernas, trazendo uma contribuição muito pessoal na maneira de “disser” samba.

“ALÔ, Madureira!” Reza rezada pela rezadeira, vela que se acende na segunda-feira, sorriso de moça namoradeira, golinho de cana como abrideira, tutu com feijão, couve à mineira. O pessoal do Conjunto Nosso Samba, Frederyko, Netinho, Oberdan. E João Nogueira: depois de “Corrente de Aço”, sucesso cantado por Elizeth Cardoso, e “Das 200 Para Lá”, por Eliana Pittiman do compacto com “Alô Madureira”, e “Mulher Valente”, da apresentação no Festival de Juiz de Fora, ele grava o seu primeiro LP. São 12 sambas, dois: “Maria Sambamba” de (Casquinha) e “Sétimo Dia” de (Garça), com todas as variações de uma corrente que nasceu na Lapa com Jaime Silva, Buci Moreira, Arnô Canegal, Raul Marques e Geraldo Pereira.

UMA saudação ao subúrbio carioca, onde ele viveu, “Alô, Madureira”, é um sambão que procura valorizar “as coisas simples das gentes”. Nascido e criado no Méier, João se volta contra os valores que a tecnologia moderna impôs a uma cidade como o Rio de Janeiro. E é no subúrbio — onde ainda é possível encontrar um botequim como o “Pé na Poça”, o ponto de encontro dos sambistas que descem dos morros — que o samba vai buscar as suas raízes.

Errado

EM JOÃO NOGUEIRA — sambista desde que ouviu uma música do próprio pai, morto quando ele tinha dez anos — essas raízes se complicam. Começa pela maneira pela qual João aprendeu a tocar o violão em acompanhamento. Sua batida — ao contrário da de João Gilberto, que adianta os tempos fortes — se baseia nos tempos fracos, invertendo a marcação da bossa-nova. Como, ao cantar, João Nogueira entra só depois de ouvir o acorde, ele seria um bossa-novista “errado”. E, na tradição do pessoal da Lapa, faria um samba “quebrado”, próximo do telecoteco.

“BLÁ-BLÁ-BLÁ”, outra faixa do disco, é a história de um amor que acaba pela convivência e as dificuldades da vida. Gisa Nogueira, irmã do compositor, já lançada no LP de Clara Nunes com o samba “Opção”, canta em duo com ele. Sambista também, ela tem várias músicas e algumas parcerias com o irmão. D. Vicentina, irmão de Natal, que, há anos, faz a feijoada da Portela, faz o côro de “Alô, Madureira” e, segundo João, “tem a voz da velha partideira, como Clementina, e o timbre das cantoras de jazz americanas”.

CASQUINHA, da Velha Guarda da Portela, que entrou na formação de Paulinho da Viola, é homenageado nesse disco com a inclusão de seu samba “Maria Sambamba”. E João interpreta “Pr´um Samba”, de Egberto Gismonti, não por uma questão de ecletismo, que, no caso, “seria falso: é talvez a música mais velha guarda que incluímos nesse disco”.

Malandro

A CONVIVÊNCIA com sambistas e o côntato com o jazz e a música moderna americana fizeram de João Nogueira um homem de samba que valoriza a interpretação. Embora não procure reforçar qualquer um dos seus atributos vocais, o samba “quebrado” e a voz roufenha — que se aproxima dos elementos defendidos por Gismonti na sua música (o cavaquinho rouco, á flautinha e o violão) — estão mais próximos da escola de Wilson Batista e Geraldo Pereira, o que seria um retorno ao chamado “samba malandro”.

É O TOM coloquial de “Sétimo Dia”, samba do ex-guarda de presídio Garça, e de “Heróis da Liberdade”, de Mano Décio e Silas de Oliveira, que morreu como zelador de uma escola em Madureira. “Beto Navalha”, de João, também conta uma história: a do homem que tiranizava o morro da Matriz. Intransigente e cruel, dono dos atos e das palavras de todas as pessoas: esse homem, ao ser desafiado por um dos que ele humilhava, demonstra que a sua maior arma era o medo.

EX-FUNCIONÀRIO da Caixa Econômica e o Natal de um pequeno bloco carnavalesco no Méier, João Nogueira escolheu o samba por ter tido a rua como escola: “Quem aprende na rua não pode dividir, não há tempo´para ter duas coisas, o negócio é procurar ser bom numa só.”
SER compositor é ter uma vida dura, como todo mundo. Mas essa vida, feita de alegrias e tristezas, é um pouco menos dura para quem sabe cantar. Mas ser sambista não é só viver de música: é preciso assumir o que a música diz. Uma questão de responsabilidade.

Carlos Jurandir
O GLOBO 25-9-72
* A capa do disco replica a matéria do jornal O Globo, onde o escritor e jornalista Carlos Jurandir nos apresenta o artista e seu disco de estréia.

João Nogueira (1972 - Odeon – SMOFB 3749, LP)

LADO UM

  1. • MORRENDO VERSO EM VERSO (João Nogueira)
  2. MARIA SAMBAMBA (Casquinha)
  3. BETO NAVALHA (João Nogueira)
  4. MÃE SOLTEIRA (Wilson Batista-Jorge de Castro)
  5. ALÔ MADUREIRA (João Nogueira)
  6. 7° DIA (Garça)

LADO DOIS

  1. HERÓIS DA LIBERDADE (Mano Décio da Viola-Silas de Oliveira-Manoel Ferreira)
  2. MARIANA DA GENTE (João Nogueira)
  3. PR’UM SAMBA (Egberto Gismonti)
  4. • MEU CAMINHO (João Nogueira)
  5. DAS 200 PARA LÁ (João Nogueira)
  6. BLÁ, BLÁ, BLÁ – com participação de Gisa Nogueira (João Nogueira)

• ORQUESTRAÇÕES DO MAESTRO GAYA


Odeon – SMOFB 3749, LP

PRODUTOR FONOGRÁFICO: Ind. Elétricas e Musicais Fábrica Odeon S.A.
Equipe de produção artistico-fonográfica realizadora deste disco:

DIRETOR DE PRODUÇÃO: MILTON MIRANDA
DIRETOR MUSICAL: MAESTRO GAYA
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO: ADELZON ALVES
ORQUESTRADOR E REGENTE: MAESTRO GAYA
DIRETOR TÉCNICA: Z. J. MERKY
TÉCNICO DE GRAVAÇÃO: NIVALDO DUARTE, ZILMAR ARAÚJO E TONINHO
TÉCNICO DE LABORATÓRIO: WILLY PAIVA MOREIRA
REMIXAGEM: JORGE TEIXEIRA
LAY-OUT: JOEL COCCHIARARO
FOTO: CALBERT

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