JORGE ARAGÃO e aí? 2006, Indie Records

Assim como seu samba “Coisinha do Pai”, usado em 1997 para acordar robô da NASA, Jorge Aragão quase viu sua carreira ir para o espaço por conta de sucessivos e redundantes CDs ao vivo. Mas sua dilapidada obra ganha novo fôlego com o disco de inéditas “e aí?”, que, espera-se, não seja atropelado por outro álbum ao vivo como aconteceu com o anterior “Da Noite Pro Dia” (2004).

A renovação está, sobretudo, no tom do disco. Há, sim, os sambas dolentes e melancólicos que costumar dominar os trabalhos de Aragão e fazem saltar a veia poética do artista. “A Vida é Rápida”, “Emoção Sincera” (de autoria de Sombra) e “Ninguém é Perfeito” são alguns deles. Mas “e aí?” é CD alegre, jovial.

Sem sair de seu quintal, Aragão transita pela diversidade rítmica do samba. Se “Á Sombra da Amendoeira” tem cadência baiana próxima da chula, inaugurando a parceria do compositor com Jorge Portugal e Roberto Mendes, “Não é Segredo” é um delicioso samba de quadra composto por Aragão com Flávio Cardoso. Já “Adepto do Samba Sincopado” exibe, como o título já anuncia, uma melodia toda balançada, á moda dos sambas popularizados por Cyro Monteiro nos anos 40.

A maior surpresa é a adesão de Aragão ao samba-rock. Ele tirou do baú joia pouco lapidada do gênero – e a preciosidade vem do repertório de Roberto e Erasmo Carlos! “Mané João” teve sua primeira gravação em 1972, em LP magistral do Tremendão. A leitura de Erasmo continua imbatível, mas Aragão não derrapa no suingue do tema. A outra regravação, menos surpreendente, é “Partido Alto”. O clássico de Chico Buarque, também de 1972, ressurge em tom suave, sem o rancor (necessário nos anos de chumbo) do registro do autor.

Aragão, aliás, soube colher frutos em árvores alheias. “Retrato da Desilusão” é obra-prima da parceria bissexta de Monarco com seu filho Mauro Diniz. A dor expressa na letra contrasta com a pulsação vibrante do samba. “Malaco” (Alcino Correia e Márcio Vanderlei) é bela ode aos bambas do Império Serrano. E “Disciplina” (Serginho Meriti e Frank Daiello) é samba de boa estirpe.

Em disco produzido com arranjos calcados em percussões e metais, sem os teclados que por vezes pasterizam o samba, “Sem Dúvida, Nem Dívida” abre o trabalho em clima suburbano e reafirma a inspiração autoral de Jorge Aragão, que se renova quando o deixam ir para o estúdio.
Mauro Ferreira

JORGE ARAGÃO e aí? (2006)

  1. Sem Dívida nem Dúvida
    Jorge Aragão
  2. Disciplina
    Serginho Meriti / Frank Daiello
  3. À Sombra da Amendoeira
    Jorge Aragão / Jorge Portugal / Roberto Mendes
  4. Adepto do Samba Sincopado
    Jorge Aragão
  5. Agitar Geral
    Sombrinha / Jorge Cardoso
  6. E a Vida Mudou
    Jorge Aragão / Xande de Pilares / Mauro Júnior
  7. Ninguém é Perfeito
    André Renato / Luiz Cláudio Picolé
  8. Partido Alto
    Chico Buarque
  9. Malaco
    Alcino Correia / Márcio Vanderley
  10. Emoção Sincera
    Sombra
  11. Retrato da Desilusão
    Monarco / Mauro Diniz
  12. A Vida é Rápida
    Jorge Aragão
  13. Não é Segredo
    Jorge Aragão / Flávio Cardoso
  14. Mané João
    Roberto Carlos / Erasmo Carlos

Indie Records – 789842012612, CD

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