MENINO DE 47 SETENTA ANOS DO REIZINHO DE MADUREIRA LUIZ HENRIQUE E VELHA GUARDA SHOW DO IMPÉRIO SERRANO | 2017, Independente

Nem parece que foi há 70 anos que um grupo de jovens sambistas, revoltados com o autoritarismo que reinava na escola de samba de que faziam parte, resolveu criar uma nova escola em bases totalmente diferentes. As decisões passariam a ser tomadas em colegiado, não era mais a cabeça de uma única pessoa que comandaria: um grupo estruturado resolveria, depois de ampla discussão, como as coisas iriam se desenrolar. Era 23 de março de 1947. Nascia o Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano.

De onde esse pessoal tinha tirado uma ideia dessas? Nenhuma escola da época tinha estrutura tão clara e definida… A resposta é simples: os tais sambistas trabalhavam no cais do porto e, mais que isso, tinham ali militância sindical. Isso mudava tudo. O samba do Rio de Janeiro dos anos 1940 nunca tinha visto nada parecido: usando as cores verde e branco e tendo por símbolo uma coroa, a escola que acabara de nascer apresentou em seu primeiro desfile, no carnaval de 1948, muitas novidades. O que chamou a atenção, porém, foi justamente a organização. Todos os componentes fantasiados, tudo planejado e previsto, uma harmonia impecável. Como consequência, a vitória. O tal Reizinho de Madureira, acabado de surgir, conquistaria o tetracampeonato, provando que muitas cabeças pensam melhor do que uma só. Mas não era apenas o resultado que importava: o Menino de 47 conquistava também, a partir dali, o coração de uma imensa e apaixonada torcida.

Ao longo de 70 anos, não foi, no entanto, a organização, nem a inabalável democracia, arranhada por um ou outro déspota de ocasião, que conquistaram a atenção e o respeito do mundo. O que todo mundo louva e aponta como o grande trunfo da escola nascida na Serrinha é a qualidade de seus sambas. Que outra escola de samba tem o privilégio de ver incluídos em todas as listas de melhores de todos os tempos pelo menos três de seus sambas-enredo? Nem mesmo quando, atingida em cheio pelas cruéis mudanças introduzidas em nosso carnaval, desfilou fora da assim chamada elite, seus sambas-enredo deixaram de ser cantados com entusiasmo e premiados.

O Império Serrano é muito mais do que uma escola de samba que desfila no carnaval: ela é um dos mais importantes núcleos de cultura de nossa época. Por isso, não se limita ao samba para desfile. O samba de partido-alto teve entre nós um de seus expoentes, Aniceto do Império, e até hoje é cultivado nas reuniões informais de sambistas, tão comuns entre nós. E o samba de terreiro, mais adiante denominado samba de quadra, que hoje não tem mais espaço nas escolas de samba, jamais perdeu entre os compositores imperianos sua pujança e sua importância cultural.

Muita gente se apaixonou e ainda hoje se apaixona pelo Império Serrano por causa de sua espetacular produção musical. A democracia é atraente, a bateria, conhecida como “Sinfônica do Samba”, tem adoradores, mas são os magníficos sambas de ontem e de hoje que constituem as joias da coroa imperial. Como não queremos que essas joias permaneçam guardadas num cofre trancado a sete chaves, cantá-las e gravá-las é, além de um prazer que se renova, uma missão.

O cantor Luiz Henrique, que reúne a seu talento de intérprete uma alma de pesquisador, já anteriormente empenhado em registrar a produção menos conhecida de sambistas como “Sinhô” e “Noel Rosa”, nos deu em 2015 um excelente trabalho de resgate das composições de Silas de Oliveira, o nosso Viga-Mestre. Com isso conquistou definitivamente a alma imperiana. Desde então, sua parceria com nossa Velha Guarda Show se tornou efetiva e prazerosa.

Foi, portanto, com alegria que o seu convite para gravar um CD conjunto foi recebido. Mas o melhor foi a forma como essa parceria se desenvolveu. Para inaugurar um neologismo indispensável: o trabalho fluiu com império-serranidade. Luiz Henrique, com sensibilidade, parece ter entendido a matriz imperiana, o que significa que não foi a vontade de um só que prevaleceu, mas, ao contrário, cada arranjo, cada faixa, cada acompanhamento, cada coro, era exaustivamente discutido. É, gente, democracia não é fácil não. Mas que bonito é o consenso e seus resultados!

O que aqui vai apresentado é o que há de melhor do cancioneiro imperiano. Luiz Henrique fez questão de incluir apenas um samba de cada compositor, sem privilegiar ninguém. O cantor divide seus solos com imperianos ilustres que os abrilhantam, sempre acompanhados pelo coro de nossa Velha Guarda Show.

Tudo começa lá atrás, com o lendário Exaltação a Tiradentes, a trilha musical de nossa vitória de 1949, conquistando um bicampeonato que se tornaria tetra em 1951. Como o samba, o primeiro do gênero a ser gravado em disco como música de carnaval, é de autoria de Mano Décio, em parceria com Penteado e Estanislau Silva, foi convidado para participar justamente Jorginho do Império, filho de Mano Décio e também ele figura de grande importância para a escola de Madureira.

Não poderia faltar o imortal Aquarela brasileira, samba de um só autor, Silas de Oliveira, cantado pela escola em duas ocasiões, em 1964 e em 2004. 0 intervalo de quarenta anos não fez envelhecer essa obra atemporal. Feita por um só, aqui é cantada por todos: os convidados se sucedem nos versos inspirados, acrescidos da fala emocionada de uma imperiana verdadeira, Myrian Persia, que estreou no Império no carnaval de 1912, a convite de Fernando Pinto, e ficou para sempre.

Outro samba reeditado pela escola foi Lenda das sereias, rainha do mar, cantado em 1916 e depois em 2009, um dos mais queridos da família imperiana. De autoria de Vicente Matos, Dinoel e Arlindo Veloso, recebe no disco a interpretação do convidado Alex Ribeiro, filho do inesquecível imperiano Roberto Ribeiro.

Da mesma década, de 1977, foi aqui registrado o Brasil, berço dos imigrantes, um dos sambas da escola que se tornaram mais populares, de Roberto Ribeiro e Jorge Lucas, que aqui o interpreta com personalidade.

O Alô! Alô! Taí Carmen Miranda, dos compositores Wilson Diabo, Maneco e Heitor, que deu ao Império o campeonato em 1912, teve inúmeras regravações, mas o registro de Reinaldo Muzza, uma das belas vozes da Velha Guarda Show, certamente entrará para o rol de obrigatoriedades do cancioneiro imperiano.

Outra composição que rendeu um campeonato ao Império, em 1982, foi Bum bum paticumbum prugurundum, samba mitológico da dupla Aluísio Machado e Beto Sem Braço, aqui contando com a interpretação expressiva e singular de Aluísio.

Um samba-enredo bèm mais recente, já deste século, O rio corre pro mar, de 2001, composto por Arlindo Cruz com Maurição, Carlos Sena e Elmo Caetano, tem no CD a participação de Arlindo, que lhe dá uma interpretação emocionada ao lembrar as origens de sua escola de samba.

O Império Serrano se permite ter obras-primas, mesmo entre os sambas-enredo que não chegaram a ser cantados na Avenida. É o caso de Estrela de Madureira, de Acyr Pimentel e Ubirajara Cardoso, que, derrotado em 1975, veio a ter gravação que o celebrizou na voz de Roberto Ribeiro e aqui é interpretado por Luis Carlos do Cavaco, um dos astros de nossa Velha Guarda Show.

Do magnífico rol de sambas de terreiro do Império Serrano aqui se destaca o samba-exaltação Menino de 47, de Sebastião Molequinho e Nilton Campolino, um clássico da escola, aqui contando com a participação de Ivan Milanez, baluarte do Império e de nossa Velha Guarda Show. E na linhagem do partido-alto, temos Tempo ê, de Nelson Rufino e Zé Luiz do Império, com a participação deste último.

Não poderia faltar no disco a composição de Mestre Fuleiro, nosso grande diretor de harmonia e talentoso compositor, Tantas primaveras. Para interpretá-la, ninguém melhor do que Wilson das Neves, imperiano de raiz, cujos dotes de cantor vão sendo mais e mais reconhecidos. Também Hélio dos Santos, o Tio Hélio, irmão de Fuleiro, tem um samba gravado no disco. A parceira é sua prima, compositora talentosa que custou a aparecer fora dos muros do Império Serrano, devido ao preconceito que a mulher compositora sofria (ou sofre?) no meio do samba: uma certa Ivone, que só no final da década de 1970 começa a fazer sucesso som o nome artístico de Dona Ivone Lara. Trata-se do belíssimo Resignação, aqui gravado com a participação de Nilson Rangel, um dos brilhantes intérpretes de nossa Velha Guarda Show.

Todas essas maravilhas receberam arranjos inspirados de Ricardo Calafate, o verdadeiro herói que conviveu com a tal império-serranidade que presidiu a elaboração do CD: “vítima” da nossa democracia em ação, teve de presenciar intermináveis discussões. Sem sua serenidade admirável, jamais se chegaria a esse lindo resultado. Uma olhada na ficha técnica vai ajudar a entender por que, com a participação de tantas feras, músicos de primeira, a coisa tinha tudo para dar certo. E deu. Ouça e comprove. Salve o glorioso Império Serrano, nos seus 70 anos de democracia e de cultura!

Rachel Valença
Autora do livro Serra Serrinha Serrano: o Império do samba, em segunda edição

CD MENINO DE 47 SETENTA ANOS DO REIZINHO DE MADUREIRA LUIZ HENRIQUE E VELHA GUARDA SHOW DO IMPÉRIO SERRANO | 2017, Independente

  1. AQUARELA BRASILEIRA
    Silas de Oliveira
    Participação especial: Myrian Pérsia, Arlindo Cruz, Jorginho do Império, Zé Luiz do Império, Wilson das Neves, Jorge Lucas, Aluisio Machado e Alex Ribeiro
  2. EXALTAÇÃO A TIRADENTES
    Estanislau Silva / Mano Décio da Viola / Penteado
    Participação especial: Jorginho do Império
  3. O RIO CORRE PRO MAR
    Arlindo Cruz / Maurição / Carlos Sena / Elmo Caetano
    Participação especial: Arlindo Cruz
  4. TANTAS PRIMAVERAS
    Mestre Fuleiro
    Participação especial: Wilson das Neves
  5. MENINO DE 47
    Nilton Campolino / Molequinho
    solista da VG: Ivan Milanez
  6. BRASIL, BERÇO DOS IMIGRANTES
    Jorge Lucas / Roberto Ribeiro
    Participação especial: Jorge Lucas
  7. LENDA DAS SEREIAS, RAINHA DO MAR
    Vicente Mattos / Dinoel / Arlindo Velloso
    Participação especial: Alex Ribeiro
  8. TEMPO Ê
    Zé Luiz / Nelson Rufino
    Participação especial: Zé Luiz do Império
  9. RESIGNAÇÃO
    Hélio dos Santos / Yvonne Lara
    solista da VG: Nilson Rangel
  10. ESTRELA DE MADUREIRA
    Acyr Pimentel / Cardoso
    solista da VG: Luis Carlos do Cavaco
  11. ALÔ! ALÔ! TAÍ CARMEM MIRANDA
    Maneco / Heitor / Wilson Diabo
    solista da VG: Reinaldo Muzza
  12. BUM, BUM PATICUMBUM PRUGURUNDUM
    Beto Sem Braço / Aluísio Machado
    Participação especial: Aluisio Machado

Independente MD472017, CD

Ficha Técnica:
Produção musical: Ricardo Calafate
Gravação e mixagem: Estúdio Umuarama por Ricardo Cidade e Ricardo Calafate
Masterização: Estúdio Magic Master por Ricardo Garcia
Fotos artísticas (Luiz Henrique e Velha Guarda Show): Jeanine Gall / Fotos dos convidados: Jeanine Gall e Ricardo Calafate
Projeto gráfico: www.alexmendes.com
Composição da Velha Guarda Show do Império Serrano: Silvio Manoel, Capoeira, Cizinho, Ivan Milanez, Luis Carlos do Cavaco, Nilson Rangel, Reinaldo Muzza, Tia Nina, Lindomar Fraga, Tia Vilma e Rachel Valença.

Músicos:
arranjos Ricardo Calafate – agogô Capoeira 3,5,7,12 / Silvio Manoel 6 – baixo-elétrico Ricardo Calafeta – bandolim Ricardo Calafate – caixas Rodrigo Jesus – cavaco Alceu Maia 1,5,7 / Ricardo Calafate 2,4 / Wanderson Martins 6,8,10,12 – clarinete Dirceu Leite – conga Rodrigo Jesus – cuíca Capoeira – flautas Dirceu Leite – ganzá Rodrigo Jesus – pandeiro Rodrigo Jesus – repique de mão Rodrigo Jesus – repique de anel Silvio Manoel – surdo Rodrigo Jesus – tamborim Rodrigo Jesus – tantã Rodrigo Jesus – trombones Everson Moraes – violão 7 cordas Rafael Mallmith 1,3,5,7 / Toni violão 2,9,11 / Patrick Angelo 6,8,10,12 – violão Ricardo Calafate

Gravações realizadas no período de agosto a novembro de 2016.
As fotos artísticas de Luiz Henrique e da Velha Guarda Show foram clicadas na Praça Paris, Glória – RJ, e na Cidade do Samba, Gamboa — 111; as fotos com os convidados, no estúdio Umuarama, durante o período de gravação.

Contatos Luiz Henrique: (21) 98329-5887 / cantorluizhenrique@uolcom.br
Contatos Velha Guarda Show: (21) 99813-1149 / capoeiramachado@hotmail.com
Agradecimentos especiais e dedicatória:

A Deus, por ter nos conduzido até aqui. Aos ilustres imperianos que aceitaram o convite para participar desta produção: Myrian Persia, Jorginho do Império, Arlindo Cruz, Wilson das Neves, Jorge Lucas, Zé Luiz do Império, Aluisio Machado e Alex Ribeiro; à presidente do GRES Império Serrano Vera Lúcia Corrêa e toda a sua equipe, em especial ao casal imperiano Paula Maria e Leonardo Oliveira; ao produtor musical Ricardo Calafate, à fotógrafa oficial da Velha Guarda Show Jeanine Gall, ao professor e escritor Guilherme Vasconcellos Almeida, ao jornalista Keila Brasil, a Vânia Ribeiro Lombardi, madrinha da Velha Guarda Show, à imperiana de fé Maristani Fernandes, aos brilhantes músicos participantes, bem como a todos os demais profissionais que, direta ou indiretamente, contribuíram para a elaboração, realização ou execução do projeto. E a todos os amigos que torceram para que ele se tornasse realidade. Dedicamos este trabalho à memória de Aniceto do Império e Jovelina Pérola Negra.
“O Carnaval é para quem tem dentro de si a Felicidade!”
Capoeira

 

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