MONARCO Uma história do samba 2002, JVC World Sounds

Gente…, difícil descrever o que senti quando ouvi o cd pela primeira vez…, sou a mais suspeita das criaturas para falar qualquer coisa sobre o Monarco já que sou sua “tietaça” desde os anos 70, quando freqüentava as antológicas rodas de samba da casa do Barata, em Ipanema, onde aprendi seus primeiros sambas e conheci com mais profundidade o melhor da produção dos bambas da Portela.

É aula de samba “à vera”…, no seu mais completo sentido. Tem de tudo um pouco, um verdadeiro painel do samba brasileiro, sua origem e sua evolução até dos dias de hoje. Tem lundu, tem maxixe, samba de roda, samba sincopado, samba de terreiro, samba enredo, samba de partido alto…., é ouvir e se deleitar….

O time de músicos não poderia ser melhor selecionado, tem Paulão no violão de 7 cordas, Henrique Cazes no cavaquinho, banjo, violão tenor, viola caipira e violão, Beto Cazes na percussão, Mauro Diniz no cavaquinho, Eliezer Rodrigues na tuba, Nailson Simões nos trompetes, Paulo Sérgio Santos no clarinete, Gordinho no surdo e Maionese da Flauta na flauta, é claro.

O coro de pastoras (es) nem precisa dizer a que veio Cristina Buarque, Teresa Cristina, Doca, Tia Surica, o próprio Monarco, Pedro Miranda e Chico Donadoni. A voz inconfundível da Tia Surica em alguns momentos sobressai no meio dessa rapaziada.

São 18 sambas distribuídos em 13 faixas. Abre o cd uma bela homenagem aos bambas pioneiros do samba Donga, Pixinguinha, Noel e Sinhô, com um samba chamado “Nossos Pioneiros”, de autoria do próprio Monarco, onde se ouve no finalzinho, incidentalmente, uns acordes de “Pelo Telefone” só pra marcar o início da “conversa”.

Em seguida o delicioso lundu de Xisto Bahia “Isto é Bom” que conheci através do cd da Marienne Costa; um trabalho grandioso, lamentavelmente pouco divulgado, que é uma outra aula sobre os primórdios do samba. Senti falta do coro de pastoras quando ele entoa o refrão (isto é bom, isto é bom, isto é bom que dói…), daria um molho a mais, em compensação tem um ponteado de viola caipira bacanérrimo…, sem falar no cavaquinho meio “calangueado” do Henrique Cazes, um luxo!!!

Na seqüência desfilam sambas – verdadeiras pérolas – dos nomes mais importantes da história do gênero tais como Sinhô, Bide, Noel Rosa, Ismael Silva, Francisco Alves, Cartola, Mano Caetano – um dos fundadores da Portela -, Alcides Lopes – o Malandro Histórico da Portela -, Ataulfo Alves, Geraldo Pereira, Silas de Oliveira e sambas de autoria de Monarco com alguns desses parceiros, sendo um deles em parceria com o filho e cavaquinista Mauro Diniz.

A canção “Ora Vejam Só” é cantada como um autêntico maxixe…, do jeitinho como foi concebido por Sinhô, antes que a turma do Estácio de Sá chegasse e desse ao samba uma outra roupagem, como bem assinala Monarco…, nessa faixa tem um solo de trompete que o mínimo que se pode fazer é recuar o tapete e sair bailando pelo meio da sala…, as canções seguintes “Uma Jura que Eu Fiz” de Ismael Silva, Francisco Alves e Noel Rosa e “Rir” de Cartola, Francisco Alves e Noel Rosa seguem no mesmo estilo “samba maxixado”… uma delícia!!!!

E o samba vai rolando… na faixa que tem “A Maré” do Mano Caetano, uma samba que conheço desde a minha adolescência; que já faz um tempinho -, “Já lhe Esqueci” (Monarco e Alcides Lopes), e “O que Tu Queres não Pode Ser” (Monarco e Alcides Lopes) é outro momento antológico do cd…, com um a participação mais que agradável do coro de pastoras.

Depois, uma interpretação maravilhosa para o não menos extraordinário “João Ninguém” de Noel Rosa…, tudo nesse cd é superlativo, sem nenhum exagero…., emocionante.

E os bambas vão desfilando pela nossa frente…, “Sexta-Feira” (Ataulfo Alves), “Escurinho” (Geraldo Pereira) numa versão que nada fica a dever à interpretação do grande Roberto Silva, e “Samba, Velho Amigo” (Monarco) uma homenagem do autor ao próprio samba, muito bonito como tudo que Monarco faz.

Outro momento de tirar o fôlego do cd é a faixa “Partido Alto da Antiga”, uma seleção de sambas onde alguns tem só a primeira parte aliás, como costumava se fazer naquele tempo, com as segundas baseadas no improviso…. (olha a saia dela Imberê, como o vento leva no ar…), (…. Idegar (?) meu bem, mataram o “Mano” Delfim, eu quero morrer também…), (eu vou-me embora…, eh eh meu amor, já içou bandeira, a lancha no cais chegou…), sambas esses sem autoria definida…, o que se sabe é que é proveniente lá das bandas do Estácio – segundo Alcides Lopes “O Malandro Histórico” -, de bambas como Mano Otávio, Mano Rúbio., Mano Bide, Ismael, Aurélio, Brancura (deve ser aquele que Nelson Cavaquinho cita no samba “História de Um Valente” (quem diz não mente, na mão de um fraco sempre morre um valente …, eu sou daquele tempo do Brancura, em que os fracos mandavam os fortes para a sepultura…)….

Já chegando no finalzinho de desse passeio maravilhoso pelos mais autênticos criadores do gênero e suas diversas variações Monarco escolhe um samba enredo prá homenagear um dos maiores de Madureira só que de outra escola, o grande Silas de Oliveira se faz presente com “Aquarela Brasileira”, nesse samba o trabalho de percussão de Beto Cazes é de uma delicadeza absoluta.

Quase terminando, Monarco canta três sambas de sua própria lavra, dois em parceria com Alcides Lopes e um outro com Mauro Diniz… “O Passado da Portela” uma homenagem tocante à sua escola de samba – essa é pra Carmem ouvir e chorar – e aos bambas que fazem da azul e branco de Madureira sua vida e devoção…., como ele Paulo da Portela de quem, na minha modestíssima opinião, é o mais legítimo herdeiro.

Fechando essa maravilha de trabalho que tanto me emocionou, “Amor de Malandro“; samba que me acompanha desde que comecei a freqüentar as primeiras rodas de samba no Rio de Janeiro; lá pelos meus 14 anos; e “O Samba não Pode Acabar”, outra pungente homenagem ao samba e a seus antecessores…, mais uma aula de generosidade de mestre Monarco.

É um cd pra não se tirar do toca-discos …, tem me acompanhado todos os dias, desde que recebi, quando vou e volto do trabalho…, Há muito tempo não escutava um cd de samba que me surpreendesse tanto…:-):-):-)

Não tive aqui a pretensão de fazer um crítica ao cd, longe de mim, não é a minha seara e nem me sinto apta a isso, queria apenas falar da minha emoção…, e ísso!!!

Esse disco fez com que eu me sentisse um pouquinho mais feliz…!!!!”

Beijins. Sonia Palhares

Monarco, 2002 – Uma História do Samba (JVC World Sounds - VICG-60458, CD)

  1. Nossos pioneiros (Monarco)
  2. Isto é bom (Xisto Bahia)
  3. Ora vejam só (Sinhô)
    ~ A malandragem (Bide)
  4. Uma jura que eu fiz (Ismael Silva – Francisco Alves – Noel Rosa)
    ~ Rir (Cartola – Francisco Alves – Noel Rosa)
  5. A maré (Caetano)
    ~ Já lhe esqueci (Alcides Lopes – Monarco)
    ~ O que tu queres não pode ser (Alcides Lopes – Monarco)
  6. João ninguém (Noel Rosa)
  7. Sexta-feira (Ataulfo Alves)
  8. Escurinho (Geraldo Pereira)
  9. Samba, velho amigo (Monarco)
  10. Partido alto da antiga (D.R.)
  11. Aquarela brasileira (Silas de Oliveira)
  12. O passado da Portela (Retumbante vitória) (Monarco)
    ~ Amor de malandro (Alcides Lopes – Monarco)
  13. O samba não pode acabar (Mauro Diniz – Monarco)

JVC World Sounds – VICG-60458, CD

produzido por Katsunori Tanaka
co-produzido por Henrique Cazes
gravado em abrilk e maio 2001
no Estúdio Musidisc, Rio de Janeiro
licenciado por Victor Entertainment Inc, Japan
todos os Diretos Reservados
um lançamento Rob Digital

Alexandre Maionese: Flauta (8, 13) / Beto Cazes : Percussão (todas) / Chico Donadoni : Coro (1, 5, 7, 10, 11, 12) / Cristina Buarque : Coro (1, 5, 7, 10, 11, 12) / Dona Doca da Portela: Coro (5, 10, 12) / Dona Surica: Coro (5, 10, 12) / Eliezer Rodrigues : Tuba (3, 4) / Gordinho: Surdo (1, 5, 9, 10, 11, 12, 13) / Henrique Cazes : Banjo (5) Cavaquinho (todas) Viola (2) Violão (1, 3, 4, 6, 7, 8, 9, 11, 12, 13) Violão Tenor (2) / Mariana Bernardes : Coro (1, 5, 7, 10, 11, 12) / Mauro Diniz : Cavaquinho (1, 5, 6, 9, 10, 11, 12) / Monarco: Coro (1, 5, 7, 10, 11, 12) / Nailson Simões : Trompete (3, 4) / Paulão 7 Cordas : Violão 7 Cordas (todas) / Paulo Sérgio Santos : Clarineta (4, 9) / Pedro Miranda : Coro (1, 5, 7, 10, 11, 12) / Teresa Cristina : Coro (1, 5, 7, 10, 11, 12)

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