MUITO ELIZETH | 1966, Copacabana

ME LEMBRO COMO SE FÔSSE AGÔRA. Era madrugada, e havia Lua no Céu e no Mar. Por isso mesmo a gente começou a falar de pessoas bem feitas de alma e coração, aquelas iguais a Pixinguinha, Elizeth, Vinícius. E aí então nos desaguamos em louvores à Divina — Tonzinho e Carlos Lyra confessando não existir melhor cantora do que Elizeth.

Já vão oito anos (foi em abril de 1958) daquela tarde em que Vinícius, Tom e João Gilberto se juntaram à enluarada para nos dar aquêle soberbo e insuperável “Canção do Amor Demais”. De lá para cá muita água cristalina correu sob as velhas pontes. A bossa-nova, que nascia com João acompanhando Elizeth, ganhou dimensões inesperadas. Alguns preferiram pesquisar as nossas belezas, criando uma linguagem sem maneirismos. Outros enviesaram os caminhos, buscando uma linguagem de exportação, evidentemente mais fácil e compensadora — porque sempre foi menos difícil copiar do que criar. Cantoras bossa-nova surgiram e continuarão surgindo ainda muitas (e Elizeth nunca foi uma cantora “bossa-nova”…), cantando as coisas efêmeras e simples e passageiras, sem jamais, no entanto, saber a fôrça e a beleza de um puro verso de Vinícius derramado na música de Jobim. Aquêle perfeito entendimento de palavra e som, ainda não surpreendemos em outra cantora senão Elizeth. Porque é pensamento geral que ela nem de longe perdeu sua condição de maior intérprete da música moderna brasileira, moderna num sentido mais amplo e estrutural. Porque existe a música moderna e a modernosa, esta cheia de artifícios e excentricidades, e graças a Deus vocês estão me entendendo.

A cantadeira do amor segue aqui o seu ofício de nos fazer menos sòzinhos. É a cantora mais amada pelo seu povo, talvez porque entenda que a palavra amor continua existindo, e que é preciso proclamá-la sempre. Elizeth é a intérprete dos sentimentos pousados, nascida para o grande entendimento e consôlo, moldada para ser a amiga geral e mais do que perfeita. Tem eternidade, e isso basta. Não conheço compositor moço que não sonhe gravar um dia com a enluarada, porque êsse é um momento precioso na vida de qualquer um.

Êste “Muito Elizeth” nos traz a cantadeira do amor num recital que vai de Pixinguinha (bênção, meu Santo!) a Chico Buarque de Hollanda. O “Lamento”, do velho santificado, é coisa assim de papaventos girando, pandorga no Céu — eu mesmo sei que Baden, ao escutá-lo, vai agüentar não. Incorpora ainda a este disco o “Prá Machucar meu Coração”, do inesquecível Ary Barroso, e as últimas composições de Francis Hime e Baden (com os versos graças a Deus sempre muito lindos de Vinícius de Moraes), Gilberto Gil (de quem muito se ouvirá ainda falar), Paulo Valdez e Maurício Tapajós. Há também uma seleção de sambas, concluída lindamente com o “Sonho de um Carnaval” de Chico Buarque de Hollanda.

A enluarada faz-se acompanhar pelo SOM-3 (César, piano; Toninho, bateria e Sabá, contrabaixo) e pelo Quinteto de Luiz Loy (Luiz, piano; Mazzola, saxofone e flauta; Papudinho, pistons; Bandeira, contrabaixo e Zinho, bateria), havendo ainda a intervenção do conjunto-regional de Caçulinha na faixa do “Lamento”. As diversas tendências dos conjuntos acompanhantes, deram a Elizeth a oportunidade de exibir a multiplicidade de seus recursos de intérprete plenamente identificada com os muitos caminhos de nossa música popular contemporânea.

Ela cantará tudo como sempre fêz, com aquele sentido de eternidade que confere a tudo que diz, com seu destino de enluarada e divina, de magnífica e amiga.
HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO
contracapa

LP MUITO ELIZETH | 1966, Copacabana

LADO 1

  1. MUNDO MELHOR – Samba (*)
    (Pixinguinha – Vinicius de Moraes)
  2. GINGA MUXIQUE – Samba-afro (**)
    (Maurício Tapajós – Herminio Bello de Carvalho)
  3. SEM MAIS ADEUS – Samba (**)
    (Francis Hime – Vinicius de Moraes)
  4. MEIGA PRESENCA – Samba (*)
    (Paulo Valdez – Otávio)
  5. LAMENTO – Samba-chôro (** e ***)
    (Pixinguinha – Vinicius de Moraes)
  6. AMOR DE CARNAVAL – Samba (*)
    (Gilberto Gil)

LADO 2

  1. CIDADE VAZIA – Samba (*)
    (Baden Powell – Luiz Fernando Freire)
  2. APÊLO – Samba (*)
    (Baden Powell – Vinicius de Moraes)
  3. SAUDADE DE AMAR (*)
    (Francis Hime – Vinicius de Moraes)
  4. PRÁ MACHUCAR MEU CORAÇÃO (**)
    (Ary Barroso)
  5. ACHO QUE É VOCÊ – Samba (*)
    (Herminio Bello de Carvalho – Paulo Valdez)
  6. SELEÇÃO (**)
    TRISTEZA – Samba
    (Niltinho – Haroldo Lôbo)
    EU NÃO TENHO NINGUÉM – Samba
    (Francisco Neto – Carvalinho)
    FECHEI A PORTA – Samba
    (Sebastião Motta – Ferreira dos Santos)
    VEM CHEGANDO A MADRUGADA – Samba
    (Noel Rosa de Oliveira – Adil de Paula)
    QUEM SAMBA FICA – Samba
    (José Bispo – Tião Motorista)
    SONHO DE UM CARNAVAL
    (Chico Buarque de Hollanda)

Copacabana – CLP 11.483, LP

PARTICIPARAM DESTA GRAVAÇÃO:
SOM 3 (*)
QUINTETO DE LUIZ LOY (**)
REGIONAL DE CAÇULINHA (***)

Produção: MOACYR SILVA
Técnico de Som: ESTELIO
Estúdios: RGE
Capa: LUIZ CANABRAVA
Gravação: de abril a setembro de 1966

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