NELSON CAVAQUINHO QUANDO EU ME CHAMAR SAUDADE | 1990, EMI

Nélson Cavaquinho era um gênio, um dos maiores nomes que a nossa música popular já produziu, mas, sem dúvida, tinha o seu lado polêmico. Começava pelo fato de ser famoso pelo nome de Nélson Cavaquinho, mas o seu instrumento era o violão (o inverso de Paulinho da Viola que, apesar da Viola, toca cavaquinho). Era um poeta, mas a letra de “Luz Negra”, uma de suas obras-primas, é do maestro – maestro mesmo – Amâncio Cardoso. A melodia é que é dele. Aliás, as letras de sua parceria com Guilherme de Brito são todas de Guilherme, inclusive os famosos versos “tira o teu sorriso do caminho/que eu quero passar com a minha dor”.

Agora, a gente está comemorando os 80 anos do seu nascimento. Lembro-me, porém, que o entrevistei para a contracapa de um disco que ele gravou para a Odeon, em 1973, e, á certa altura da entrevista (tendo-a gravada), perguntei:

– Você vai fazer 62 anos, não é?
NÉLSON – Não, 63
– Que é isso Nélson? 62 anos.
NÉLSON – É 63 mesmo.
– Em que ano você nasceu?
NÉLSON – Em 1911.
– Então. 62 anos.
NÉLSON – Que bom, rapaz, ganhei mais um ano de vida: Meu velho morreu com 72 anos. Não sei se chegarei lá ou não. Eu espero chegar lá, se Deus quiser.

Nélson Cavaquinho morreu no dia 17 de fevereiro de 1986, com 74 ou 75 anos (nasceu no dia 28 de outubro). Um dia, ele me explicou que seu pai valeu-se de uma certidão falsa que lhe aumentava a idade, para poder ingressar na Polícia Militar, isntituição a que não pertenceu muito tempo, por sinal, por absoluta incompatibilidade entre o seu temperamento boêmio e os rigores do quartel. Então vocês não sabem que, tirando serviço, certa vez, no Morro da Mangueira, roubaram o seu cavalo e teve que voltar a pé para o Regimento Caetano de Farias? O grande Cartola, seu companheiro de farras mangueirenses, contava que o cavalo entendia perfeitamente o comportamento de Nélson. Tanto que, naquele dia, quando o compositor chegou ao quartel, o cavalo estava lá, “olhando-o com deboche”, segundo depoimento do próprio Nélson. Cartola dizia ainda que, pela manhã, Nélson montava o cavalo e dormia lá em cima. E o animal seguia pacientemente para o quartel, com aquele soldado dormindo em seu lombo. Na porta do regimento, fazia um movimento com o corpo para acordar Nélson Cavaquinho.

Esse era Nélson Cavaquinho. Um boêmio que saía de casa para comprar cigarro e voltava quatro dias depois. Um instrumentista que tinha uma técnica única de tocar violão. Um compositor que surpreendia os seus admiradores com achados melódicos e poéticos magnificos. Um ser humano que temia abertamente a morte. Certa vez, sonhou que iria morrer na madrugada seguinte, ás três horas. Foi para casa, deitou e atrasou o relógio. Quando finalmente, os ponteiros iam marcar três horas, ele atrasou novamente. E assim ficou até de manhã. Não queria morrer. Mas a morte esteve presente em inúmeros sambas que compôs (“Quando eu passo/Perto das flores/Quase elas dizem assim/Vai que amanhã/Enfeitaremos o seu fim”).

Um cantor que revelava na voz a sua boêmia, com aquela rouquidão das noites indormidas, bebidas e cigarro. A propósito, valho-me da entrevista que fiz com ele em 1973, quando falou da sua atividade de cantor:
– A minha voz, você sabe, é rouca mesmo. Mas o… como é mesmo o nome daquele homem lá da América do Norte? Ah! O Armstrong. Ele também era rouco. Há pessoas que gostam mais da minha voz do que a de muitos cantores por aí. Não sei por quê, acho que é porque eu sinto. Eu tenho sentimento quando canto.

Grande Nélson Cavaquinho!
Sérgio Cabral
contracapa

lp NELSON CAVAQUINHO QUANDO EU ME CHAMAR SAUDADE | 1990, EMI

A

*FOLHAS SECAS (1973)
(Nélson Cavaquinho – Guilherme de Brito)
*REI VAGABUNDO (1968)
(Nélson Cavaquinho – José Ribeiro – Noel Silva)
*A MANGUEIRA ME CHAMA (1968)
(Nélson Cavaquinho – Bernardo de Almeida Soares – José Ribeiro)
*SEMPRE MANGUEIRA (1968)
(Nélson Cavaquinho – Geraldo Queiroz)
**FOLHAS CAÍDAS (1968)
(Nélson Cavaquinho – César Brasil)
*EU E AS FLORES (1968)
(Nélson Cavaquinho – Jair do Cavaquinho)
*O BEM E O MAL (1973)
(Nélson Cavaquinho – Guilherme de Brito)
*PODE SORRIR (1973)
(Nélson Cavaquinho – Guilherme de Brito)
*RUGAS (1973)
(Nélson Silva – Ary Monteiro – Garcez)
*JUÍZO FINAL (1973)
(Nélson Cavaquinho – Élcio Soares)
***A FLOR E O ESPINHO (1973)
(Nélson Cavaquinho – Guilherme de Brito – Alcides Caminha)
***SE EU SORRIR (1973)
(Nélson Cavaquinho – Guilherme de Brito)
***QUANDO EU ME CHAMAR SAUDADE (1973)
(Nélson Cavaquinho – Guilherme de Brito)
***PRANTO DE POETA (1973)
(Nélson Cavaquinho – Guilherme de Brito)

Intérpretes: *NÉLSON CAVAQUINHO, **ODETE AMARAL ***NÉLSON CAVAQUINHO E GUILHERME DE BRITO

B

MINHA FESTA – CLARA NUNES (1973)
(Nélson Cavaquinho – Guilherme de Brito)
DUAS HORAS DA MANHÃ – PAULINHO DA VIOLA (1972)
(Nélson Cavaquinho – Ary Monteiro)
PRANTO DE POETA – ELZA SOARES (1973)
(Nélson Cavaquinho – Guilherme de Brito)
DEGRAUS DA VIDA – CONJUNTO ROSA DE OURO (1963)
.(Nélson Cavaquinho – César Brasil – Antônio Braga)
PALHAÇO – DALVA DE OLIVEIRA (1951)
(Oswaldo Martins – Nélson Cavaquinho – Washington)
TENHA PACIÊNCIA – CLARA NUNES (1976)
(Nélson Cavaquinho – Guilherme de Brito)
CAMINHANDO (Instrumental) – NÉLSON CAVAQUINHO  (1973)
(Nélson Cavaquinho – Nourival Bahia)


EMI – 795351 1, LP

Seleção de Repertório: FRANCISCO RODRIGUES
Capa: JORGE VIANNA
Ilustração: LUIZ TRIMANO
Coordenação Gráfica: EGEU LAUS

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