Nelson Sargento – Flores em Vida – 2001

Nelson Sargento nem desconfia do quanto fez minhas pernas tremerem quando – no intervalo de um feérico musical sobre Carmen Miranda – me convidou para escrever estas linhas. É que, em brevíssimos segundos, o convite me fez voltar no tempo uns quarenta anos. Isso mesmo: quarenta anos! Foi no fim de tarde de uma terça-feira de carnaval. Eu, Antônio Gordo, o saudoso compadre Télio, meu primo quase irmão Hélio (filho do “seu” Eurico que Martinho cantou num lindo samba) e acho que também o Luís, amigo de infância que sumiu no tempo, todos enfim meninos de Vila Isabel, entramos no Capelinha do Ponto para alguns antepenúltimos chopes. E eis que Manuel dos Santos, nosso velho chapa Osso (sambista do bairro cuja posteridade se deve apenas ao meio esquecido “Amei como um louco”), nos falou, cheio de cerimônia, sobre os compositores da Mangueira que já se espremiam no corredor do botequim para discutir o desfile de véspera. Mais que de cerimônia, Osso carregava-se de reverência. Que prestássemos atenção, que tirássemos o chapéu, que ouvíssemos para aprender, porque ali, naquele grupo, só havia bamba. Um deles, claro, Nelson Sargento.

Sempre foi grande a afinidade de Vila Isabel com a Mangueira. Mais do que à proximidade geográfica, ela se deve a uma instintiva afeição que vem dos tempos de Noel Rosa e que se prolongou pelos anos que antecederam a ascenção da Vila à escola de primeiro escalão (a Vila de quarenta anos atrás era pouco mais que um grande bloco). Nenhum daqueles meninos torcia pela Mangueira. Éramos Salgueiro, porque, naquela ocasião, a “vermelho e branco” lutava para deixar de ser o América das escolas para disputar, cheia de inovações, os títulos de campeã). Mas o respeito pela “verde e rosa” era imenso. E aqueles bambas? Saber que um deles, justamente o Nelson, tinha feito a Mangueira cantar “Oh, primavera idolatrada, inspiradora de amores, oh primavera adorada, sublime estação das flores…”, era mesmo de tirar o chapéu. O respeito era tanto que nenhum de nós, eu, Antônio, Hélio, Télio ou Luís, teve coragem de puxar conversa com qualquer daqueles bambas.

Nelson Sargento - Flores em Vida - 2001
Nelson Sargento – Flores em Vida – 2001 (Encarte do CD)

Conversa com Nelson Sargento fui puxar décadas depois, ao entrevistá-lo em sua casa. Ouvi-o falar de samba, de poesia, de vida, com aquela inteligência que Sérgio Cabral já proclamou, em público, como das maiores do Brasil. Inteligência e sensibilidade. Nelson surpreendeu-me com a beleza singela de seus quadros, um dos que comprei na hora. Surpreendeu-me também como brasileiro vivido e bem informado. E surpreendeu-me como compositor que não se esgota nem se limita. De surpresa em surpresa, fez-me prometer (promessa que tardo a cumprir, só para que ele continue a cobrar), a gravação doméstica de um CD com canções de… Errou quem disse Cartola, até porque, do mestre, Nelson Sargento sabe tudo. As canções são de Hoagy Carmichael, o de “Stardust”, que ele se lembra de ter visto, com o cigarro no canto da boca, cantando e tocando piano enquanto Humphrey Bogart e Lauren Bacali se apaixonavam em “Uma aventura na Martinica”. Surpreendeu-me, enfim, que aquele homem miúdo, inquieto, bom de papo e de idéias, tenha se tornado, com o passar dos anos, um bamba ainda mais bamba.

Se as pernas tremeram em clima de Carmen Miranda, imaginem depois de ouvir este seu novo CD. Podia resumir tudo numa frase meio preguiçosa, mas nem por isso falsa: dos compositores de samba em atividade em todo o Brasil, apenas três, quatro, no máximo cinco, são capazes de um repertório tão irretocável, tão carregado de pedras preciosas como este. Não pedras brutas, mas já lapidadas, pois os sambas de Nelson Sargento são claramente elaborados, nota por nota, verso por verso, contornando com classe os clichês e os caminhos fáceis. Reparem, por exemplo, na dolência de A noite se repete, à altura de um Cartola. Jamais pensei (com João de Aquino) tem o jeito dos melhores sambas de quadra, dos que falam, com altivez, de um amor fracassado. Já se vê que nem sempre o sambista prefere a lágrima ao sorriso. O remorso vai atrás entra na contramão: desta vez é o sambista que, por ter magoado a amada, clama por castigo. Labirinto de dor é uma jóia, um samba-canção tipicamente anos 50, daqueles que os bossanovistas se vangloriam de terem sepultado. A participação de Emílio Santiago é irresistivelmente perfeita. Fé em Deus tem poesia de quem aposta na vida, como o próprio Nelson. Fundo azul fala de primavera, como tantos de seus sambas, ele que é amante das flores e do que elas simbolizam. Mas os versos soltos, dispostos sem ordem, são viagens, digamos, filosóficas de quem sabe das coisas. Quando eu te vejo passar, outro samba-canção, tem algo de visual, memórias de um amor convertidas em filme imaginário e fugaz. Menti (com o talentoso bandolinista Pedro Amorim) é ritmado, alegre, quase carnavalesco, apesar da letra: “Hoje eu vivo amargurado, não esqueço aquele adeus…” Conserva aquele jeito carioca, em que Noel era mestre, de cantar com bom humor a mentira e o azar. Seguem dois sambas (com Marília Trindade Barbosa), de uma parceria que, de certa forma, é mais uma surpresa: quando dois mangueirenses se juntam, é fogo! A mesma fantasia transcorre em atmosfera de marcha-rancho, embora tratada como samba. É o folião Nelson Sargento me levando de volta àquele carnaval de quarenta anos atrás. Por fim, Conversando com o Brasil, um fim de festa embalado por samba- panfleto—patriótico no melhor sentido — que bem poderia servir de modelo, na originalidade da melodia e na economia da letra, a todo samba-enredo que focalize este país de incontáveis carteiras batidas.

É isso. Tenho que confessar que ainda guardo certa cerimônia — ou reverência — em relação a Nelson Sargento, vestígios do menino de Vila Isabel que fui um dia (de Vila Isabel serei sempre, mas menino… deixa pra lá: estou mais para Nelson Sargento do que para o mais jovem pagodeiro da Móca). Mas a cerimônia não me impede de admirara vitalidade desse brasileiro de 77 anos, que compõe, canta, faz shows, excursiona, atua como ator, pinta, agita, vive, tudo isso mais e melhor que um menino. A gente chega a acreditar mais no Brasil quando vê que a Nelson Sargento foi concedida a graça de colher suas flores em vida.
João Máximo

Este disco estava na cabeça e no coração da Evonete há muito tempo, e finalmente se concretizou, pois a Rádio MEC, na pessoa da Sra. Gerente Maristela Rangel Pinto, abraçou o projeto apresentado por ela, que escolheu o repertório, chamou o maestro João de Aquino para fazer os arranjos, a direção de estúdio e a arregimentação dos músicos. Assim se formou um trio: Evonete Belizário, João de Aquino e a assistente de produção Eliana Múrcia.
Sem o apoio da FUNARJ, na pessoa da Sra. Presidente Bete Mendes, da Secretaria das Culturas do Rio de Janeiro, na pessoa do Sr. Secretário Arthur da Távola, de Leonardo Brandão, de Pedro Luiz e a Parede e a participação valiosa do nosso grande Emílio Santiago, este projeto não seria possível.
Foram vários dias de trabalho, porém bem sucedidos.
Agradeço, comovido e feliz, a todos que participaram direta ou indiretamente na feitura desta belíssima obra. Obrigado de todo coração.
Nelson Sargento

Nelson Sargento - Flores em Vida - 2001

  1. A noite se repete (Nelson Sargento) – 04:28:11
  2. Jamais pensei (Nelson Sargento e João de Aquino) – 03:48:02
  3. O remorso vai atrás (Nelson Sargento) – 04:39:08
  4. Labirinto de dor (Nelson Sargento) – 03:40:14
  5. Fé em Deus (Nelson Sargento) – 02:36:08
  6. Fundo azul (Nelson Sargento) – 04:26:00
  7. Quando eu te vejo passar (Nelson Sargento) – 04:42:26
  8. Mentia (Nelson Sargento e Pedro Amorim) – 02:51:02
  9. Energia da vida (Nelson Sargento e Marília Trindade Barbosa) – 05:02:17
  10. Tempo de desejo (Nelson Sargento e Marília Barbosa) – 04:19:27
  11. A mesma fantasia (Nelson Sargento) – 03:13:16
  12. Conversando com o Brasil (Nelson Sargento) – 03:33:18

Selo Rádio MEC – RM 006, CD

Voz : Nelson Sargento.
Participação Especial : Emílio Santiago
Artista gentilmente cedido por Sony Music.
(Faixa Labirinto de Dor)
Piano e Teclado : Fernando Merlindo e Kiko Furtado
Baixo Elétrico : Flávio Pereira
Bateria : Fernando Pereira
Cavaquinho : Márcio de Almeida
Bandolim : Pedro Amorim
Violão de 7 cordas : Josimar Monteiro e Paulão Sete Cordas.
Sax : Guaucus Xavier
Flauta : Dirceu Leite
Trompete : Jessé
Percussão : Gordinho, Marcos Esguleba, Duarte e Ronaldo Mattos.
Violão de 6 cordas : João de Aquino
Coro: Analimar, Martinália, Jurema Lourenço, Jurema de Cândia, Áurea Martins, Evonete Belizario, Rita de Cássia, Ernesto Pires e Didu Nogueira
Produção e Arranjos: João de Aquino
Assistente de Produção e Arregimentação: Eliana Murcia
Projeto do disco e Supervisão Geral: Evonete Belizário
Assistente de Projeto : Ronaldo Mattos
Engenheiro de Som : Julinho
Mixagem: Julinho e João de Aquino
Selo RÁDIO MEC
DIREÇÃO GERAL – Maristela Rangel Pinto
Produção Executiva – Sonia Pinto e Soraya Nunes
Programação Visual – Fátima Gomes, Marcelo Vianna e Reinaldo Leitão
Fotos : Marco Antônio Rezende
Supervisão de Estúdio : Betinho
Assistente de Estúdio : Carlos Sobral
Masterização : PMCD (CD Master)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *