NIRA GONGO CONJUNTO BALUARTES | 1976, Okeh-CBS

Transitória como a vida, a música é sobretudo evolução. Assume formas, sofre influências, transforma-se e ganha novas conotações, na busca incessante dos caminhos descobertos pelas gerações que passam. O jazz primitivo cedeu vez ao jazz experimental dos nossos dias, hoje quase tão rudimentar quanto o som dos tambores do homem da caverna. O rock – reflexo de uma geração agitada – explodiu nos descaminhos da década de 60, adquirindo ( em nossos dias ) uma coloração difusa, projetada nas múltiplas ramificações em que se dividiu. Fonte rica de experimentações, o samba viria também a sofrer as suas influências. A “bossa-nova” – consequência de um movimento de origens jazzísticas – levou a música brasileira ao conhecimento do mundo. O samba se expandiu. Correu terras. E solidificou a sua força rítmica.

Hoje, o Brasil consome a sua própria música e a exporta como matéria prima para o resto do mundo. “Nira Gongo” é um LP de exportação. Seu produtor, Hélcio Milito, se propõe a “realizar um trabalho intrinsecamente diferente daquilo que se tem feito, ultimamente, no terreno da música brasileira”. Nos dois anos de permanência nos Estados Unidos, como músico e percusionista ( ex-Trio Tamba, Milito analisou as necessidades de nossa música. E sentiu “um certo desgaste decorrente dos muitos movimentos que acabaram por despersonalizar o samba. “Para ele, o ritmo, a cadência, a envolvente marcação do surdo, dos tamborins, da cuíca, dos agogôs, representam o que há de melhor e de mais autêntico em nossa música. Desta idéia central partiu para concretizar “Nira Gongo”.

O nome surgiu das próprias raízes Nira Gongo é um vulcão africano. Geograficamente localizado no continente negro, simboliza “a explosão rítmica de uma raça pre-destinada para o som”.

O grupo Baluartes nada mais é que a junção de alguns dos mais experimentados ritmistas do Brasil. Gente que samba e batuca. Gente que canta e vive o dia-a-dia dos estúdios: Eliseu, Luna, Marçal, Dotô, Armando e Toninho.

ELISEU, pandeirista de 1952 a 1954 viajou com a Orquestra de Ary Barroso, fixando-se, posteriormente, na Boate Oasis em São Paulo, onde ficou por muito tempo. Participou de todos os shows de Carlos Machado. Apresentou-se por seis meses, nos Estados Unidos e seis na Europa, integrando o grupo de Humberto Teixeira. Conhece o Egito, Dakar e vários países sul-americanos. Foi o primeiro ritmista a fazer um show de pandeiro, na Inglaterra, para a Rainha Elizabeth. Devido a sua versatilidade ganhou de presente uma bateria de Ataulfo Alves. Além, do pandeiro, toca tamborim, reco-reco e bateria.

LUNA, tamborinista. Integrou o regional de Claudionor Cruz, na antiga Rádio Transmissora ( Rio ), passando-se, depois para as rádios Ipanema e Tupy ( Orquestra Marajoara, de Raymundo Mendonça ), transferindo-se, em 1953 para São Paulo, levado por Ataulfo Alves. Retornou ao Rio, em 1956, contratado pela Rádio Nacional onde esteve até 1973. Luna gosta de referir-se aos dois anos – 1957 e 1958 – em que participou do grupo de ritmistas da Gafieira Elite, época em que o carioca ainda curtia suas noitadas boêmias ao som de samba, na Lapa e nos subúrbios. Bom em todos os instrumentos de ritmo, Luna faz questão de se dizer “um cobrão na tumbadora”. Sua primeira gravação data de 1944, fazendo “cozinha” para Chico Alves.

DOTÔ tem uma história curiosa. Çomeçou aos 16 anos aprendendo clarinete com Benedito do Pistão. “Benedito era um cara conhecido nas rodas de samba. Tentou lhe ensinar tudo o que sabia, mas aos poucos fui verificando que o meu negócio era ritmo. Couro e madeira. “Passou a tocar bateria no Conjunto Said, em Coelho Neto, subúrbio do Grande Rio. Seu tamperamento instável levou-o a vender o instrumento “para pagar umas contas”, voltando meses depois a participar do Conjunto dos Cubanos de Niterói. Nessa fase, Dotô varava as noites “fazendo bailes nos lugares mais escusos do mundo… “Deixando as baquetas, Dotô passou a se especializar num agogô de duas bocas. E acabou por “inventar” um agogô de cinco bocas – “com possibilidades muito mais amplas para as criações dos ritmistas”. Já conhecido nos meios do samba, foi convidado a integrar o Bloco Acadêmicos de Colégio ( do subúrbio do mesmo nome ).

Foi aí que o Rei do Prato, sambista do Império Serrano, o convidou para fazer parte da bateria da escola. Sua fama se consolidaria e Dotô passaria à história do samba como um “monstro” no repique, tocando com as duas mãos ( coisa rara até mesmo entre os maiores especialistas das escolas cariocas ).

ARMANDO. É o mais jovem do grupo. Filho e neto de sambistas. O pai, Nilton Marçal ( também do grupo Os Baluartes ). O avô, o velho Marçal, compositor de “Agora é Cinza”, parceiro de Bide. Começou no conjunto Os Naturais do Samba, da Portela. Toca surdo e agogô e participa como vocalista. Armando é portelense e respeitado nas noitadas da azul e branco de Madureira.

TONINHO. É o único apoio harmônico do grupo e tem – segundo o produtor Hélcio Milito – “uma batida totalmente diferente no cavaquinho”. Toninho começou em 1962 no grupo de Russo do Pandeiro. Durante 10 anos foi o líder do Regional da Rádio Mauá. Afastado por problemas pessoais, voltou à vida artística a convite de dois amigos: Paulinho da Viola e Adelzon Alves, da Rádio Globo. Além do “cavaco:” Toninho é exímio violonista e contrabaixista.

MARÇAL ( Nilton Delfino Marçal ) é célebre na cuíca. Sua fama projetou-o internacionalmente, levando-o a figurar no rol dos maiores ritmistas latino-americanos. Engajou-se na profissão desde pequeno e toca com a mesma habilidade cuica, ganzá, caxeta, tamborim e surdo. Por isso mesmo é talvez o ritmista mais requisitado pelas gravadoras do país. Já perdeu o número de discos de que participou. Praticamente começou sua carreira na Rádio Nacional ( Rio ), onde permaneceu durante a fase áurea do rádio, aí pelas décadas de 40 e 50. Portelense convicto, foi o idealizador do desfile da escola com tímpanos na bateria, o que abriu uma nova dimensão ritmica para os batuqueiros portelenses. Apesar do seu amor pela Portela, depois de longos anos de problemas internos na escola, acabou transferindo se para a Beija Flor ( campeoníssima do Carnaval de 1976 ) levando para lá os tímpanos que encheram a Presidente Vargas de som e alegria. Infelizmente, Marçal não pôde desfilar no ano do campeonato. Meses antes voltara à sua Portela para amargar um quarto lugar obscuro no desfile das 14 Mais. Marçal costuma dizer que tem os pés no chão “e as mãos sempre batendo”. O ritmo tem sido a sua própria razão de viver.
Manoel Tavares
Assessor de Imprensa – CBS

LP NIRA GONGO CONJUNTO BALUARTES, 1976

POR FAVOR
( J.Ananias – José Bispo )

SAI ENCOSTO
( J.Canseira – Marimbondo )

NIRA GONGO
( Os Baluartes )

QUANDO EU ME LEMBRO
( Hélio Nascimento )

ANDARILHO
( Padeirinho )

NÃO É…NÃO É
( W.Rosa – Redvaldo )

 

AUSÊNCIA DE PAZ
( Pequeno Tony – Gugú )

TIRADENTES
( Mano Décio da Viola – Penteado – Estanislau Silva )

SAMBA DO TRABALHADOR
( Darcy da Mangueira )
CHEGOU MAIS UM
( Darcy da Mangueira )

CONFLITO
( Pedro Santos )

A NOVA MANGUEIRA
( Padeirinho )


Okeh-CBS 112311, LP

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