Os Partideiros Sambas do Partido Alto | 1970, Beverley

Partido alto e o samba de roda, improvisado e levado em tempo médio.

Com o requebrar das cabrochas vai até o sol raiar.

É acompanhado de pandeiro, agogô, reco-reco, prato de louça etc…

Neste LP atuam os maiores partideiros das escolas de samba tais como:

DA MANGUEIRA:

Xangô e Preto Rico

DO SALGUEIRO:

Geraldo Babão e Roberto Ribeiro

DO IMPÉRIO SERRANO:

Silas de Oliveira, Edgard e Jorginho

DA PORTELA:

Cabana e Casquinha

Álbum sólido e incessantemente propulsor do partido-alto, de cantores e compositores de quatro das mais prestigiadas escolas de samba do Rio: Portela, Império Serrano, Salgueiro e Mangueira. De destacar que o álbum conta com vários cantores que teriam sucesso em gravações nos anos 70, mas ainda não tinham gravado LPs sob seu próprio nome – Xangô da Mangueira, Jorginho do Império, e especialmente Roberto Ribeiro. No álbum, algumas excelentes contribuições de Casquinha, Geraldo Babão e Silas de Oliveira. Um fato interessante sobre Silas – ele estava no exército brasileiro, e no navio de passageiros “Itagiba” viajando do Rio para Olinda (onde ele estava estacionado) quando foi torpedeado por um submarino alemão, um incidente que levou diretamente ao Brasil entrar na Segunda Guerra Mundial. Muitas pessoas morreram; Obviamente Silas de Oliveira sobreviveu.

Com cada uma das escolas de samba só oferecendo até três composições de sua escolha, você pode imaginar que elas não decepcionam. A poderosa Portela começa com “A Paz de Coração”, cantada por Cabana no que poderia servir como uma lição didática sobre como conduzir um partido alto perfeito. O “Iaiá Sambou” de Casquinha é um clássico, com a história de sapatos de salto alto quebrados e danças, assim como um grito a Clementina de Jesus, que “apesar de sua idade, ainda parece uma moça”. As letras também dão uma narrativa instantânea do partido alto saindo das colinas, do morro (hoje simplesmente chamado de favela, depois do histórico Morro da Favela), ao centro da cidade, refletindo a trajetória histórica do samba de “marginal” para ubiquidade e aceitação pela elite. A idéia confirma algo que Donga uma vez famoso disse, mas também acrescenta um sombreamento diferente para ele. Donga havia dito (e eu estou parafraseando, porque sou essencialmente preguiçoso) que a noção de que o samba era algo criado unicamente ou que se originava nas colinas era um mito: onde quer que houvesse uma festa com um grupo de pessoas tocando música de samba, ele (o samba) estará lá, não importa se no morro ou no asfalto.

Gosto particularmente das músicas do Império Serrano. Eles começam com “Águas do Rio”, que apresenta Silas em vocal, mais conhecido como um compositor de samba-enredos famoso, em particular, por parceria com Mano Décio da Viola – que foi, aliás, o pai de Jorginho que assume os vocais na próxima música. “Que Samba é Esse” é maravilhoso e de fato bate a versão gravada por Xangô da Mangueira em seu álbum “O REI DE PARTIDO ALTO” alguns anos depois. Eu gosto muito da maneira como ele arrasta certas palavras em frases, insere pausas e enfatiza a sílaba acentuada de certas palavras para dar o efeito de cair ligeiramente atrás da batida.

Tendo viola afinada
Um surdo na marcação
Aí a mulata levanta poeira do chão
Fica bom, fica bom!

O Império continua chutando poeira e agitando a pista de dança, levantando poeira em sua melodia final “Canela Fina”, preparando um partido alto, mais lento, escrito e cantado por Edgard Cardoso Barbosa, sobre quem eu não sei nada.

O doce da voz de Geraldo Babão começa a seleção do Salgueiro com “Lola Crioula”. Como Silas de Oliveira, Babão também compôs alguns famosos samba-enredos como “Chico Rei” e “A História do Carnaval Carioca nos Anos 60”. Como muitos partidos altos, as letras são uma variação de um único verso, desta vez mais uma vez ecoando o tema de “do morro à cidade”, desta vez para o carnaval: “Lola crioula na passarela (vem ver, vem ver) / Sacudindo com tudo que é dela / Todo o ano desfila / Representando a favela / A moçada compra ingresso / Pra ver o gingado dela “tem dendê, tem dendê / As cadeiras da nega tem dendê”.

A canção “Te Dou Pancada” é cativante de misoginia repreensível que é melhor deixar descomentado, se verdade seja dita. Acho irônico que seja a única faixa aqui que não credita a nenhum indivíduo pelo vocal (deixando-o apenas como “Os Partideiros”) quase como se ninguém quisesse seu nome nele. Salgueiro resgatou-se, no entanto, com o adorável “Velhos Tempos”, escrito por Aurinho da Ilha e interpretados por Roberto Ribeiro que consegue arfar com a saudade, lembrando os velhos tempos da Praça Onze, um local que foi uma espécie de marco zero para o samba carioca.

As canções da Mangueira são excelentes, mas esse tipo de coisa é óbvio. O primeiro é de Rico Rico, Diretor de Harmonia e compositor dos sambas como “Velha Baiana” e “Mangueira em Tempos de Folclore”. Seguem-se duas canções de Xangô da Mangueira que seguiram a Rico Rico como Diretor em Mangueira. “Recordação de um Batuqueiro” é um de seus famosos sambas, tocada aqui um pouco mais rápido do que seria em seu primeiro LP. “Partido de Remandiola” não aparece em nenhum dos álbuns de Xangô que eu tenha e isso pode ser que aqui seja sua única aparição em disco. Ambas as faixas são excelentes, embora o vocal Xangô é um pouco abafado, ou uma questão técnica com a gravação ou talvez ele simplesmente não era tão confortável em um estúdio ainda como ele seria em poucos anos.

Os Partideiros - Sambas do Partido Alto (1970 - Beverley BLP 80382, LP)

LADO 1

PORTELA

  1. A PAZ DO CORAÇÃO
    (Candeia) Canta CABANA
  2. BARRACÃO NÚMERO SEIS
    (Cabana) Canta CABANA
  3. IAIÁ SAMBOU
    (Casquinha) Canta CASQUINHA

IMPÉRIO SERRANO

  1. NA ÁGUA DO RIO
    (Manoel Ferreira – Silas de Oliveira) Canta SILAS
  2. QUE SAMBA É ESSE
    (Jorginho – J. Gomes) Canta JORGINHO
  3. CANELA FINA
    (Edgard Cardoso Barbosa) Canta EDGARD

LADO 2

SALGUEIRO

  1. LOLA CRIOULA
    (Geraldo Babão) Canta GERALDO BABÃO
  2. TE DOU PANCADA
    (Tininho – Deuza) Canta OS PARTIDEIROS
  3. VELHOS TEMPOS
    (Aurinho da Ilha) Canta ROBERTO RIBEIRO

MANGUEIRA

  1. EU VI QUEM FOI
    (Preto Rico – Dico) Canta PRETO RICO
  2. RECORDAÇÃO DE UM BATUQUEIRO
    (Xangô – J. Gomes) Canta XANGÔ
  3. PARTIDO DA REMANDIOLA
    (Xangô da Mangueira – Waldomiro do Candomblé) Canta XANGÔ

Beverley BLP 80382, LP

Coordenador: Moacyr Silva • Assistente de Produção: Waldomiro João de Oliveira • Técnico: Norival Reis • Estúdio: Continental Rio

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