os sambistas conjunto a voz do morro | 1966, RGE

O conjunto A VOZ DO MORRO nasceu da imperiosa necessidade de cantar que caracteriza os sambistas cariocas.

Na casa de Cartola, o velho Carlota Agenor de Oliveira – fundador do Escola de Samba Estação Primeira do Mangueira, uma extraordinária figura do samba autêntico – costumavam se reunir alguns sambistas, “para cantar uns sambinhas”, “mostrar as novidades” – como êle mesmo costuma dizer. Já nessa época Cartola não morava mais no morro, mas no asfalto da cidade, num sobradão antigo, na Rua dos Andradas. Ali iam sambistas velhos e novos mangueirenses ou portelenses, porque Cartola recebia bem a todos, fossem de que Escola de Samba fossem que o importante era ser sambista. Isto foi por volta de 1962.

Os oito componentes do futuro conjunto eram todos grandes compositores em suas respectivas escolas e também frequentadores da casa de Cartola: Paulinho da Viola, Zé Keti, José Cruz, Jair do Cavaquinho, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Anescar e Oscar Bigode começaram a cantar juntos, a apresentar de uma forma especial, acompanhando-se nos violões e instrumentos de ritmo, os sambas que compunham ora entre si, ora com um parceiro alheio ao grupo, ora sozinhos. Não importava também de quem era o samba. Se fôsse bom, cantava-se. A idéia de lançarem-se profissionalmente surgiu depois, quando os oito sambistas citados se apresentaram no Zicarlola, o restaurante da Rua da Carioca dirigido pela mesmo Cartola e sua mulher, a Zica – uma cozinheira de mão cheia. Os aplausos eram incentivadores e Zé Keti, sempre um entusiasta da difusão do samba, tratou de convencer os companheiros de se lançarem em conjunto. “Ofereci um feijão de rico lá em casa” – conta o Zé – “Não chegava a ser uma feijoada completa. Era um feijão melhorzinho, dêsses que tem todo dia em casa de rico”. Comido o feijão os outros toparam e arranjaram até lugar paira ensaiar. Um casal de Copacabana – o “seu” Gerson e a dona Liliam, que iam muito ao Zicartola e gostavam de vê-los cantar, ofereceu sua casa. Foi assim que uma turma de humildes compositores, da Mangueira, da Portela, Salgueiro, Aprendizes de Lucas se viu de repente numa casa granfina de Copacabana ensaiando os números que iriam apresentar mais tarde nos mais variados palcos. A estréia demorou um pouco e quase desfaz o conjunto. Zé Keti tinha ido parar num teatro de Arena, ao lado de Nara Leão e João do Vale num espetáculo que marcou época na história do Teatro Brasileiro “Opinião”. Outros cinco elementos do grupo foram fazer uma experiência no Teatro Jovem, em Botafogo. Ao lado de Aracy Côrtes que voltava ao cartaz e de Clementina de Jesus, que estreiava aos 60 anos. Elton Medeiros, Nelson Sargento, Jair do Cavaquinho, Anescar e Paulinho da Viola, contribuíram decididamente para que um espetáculo despretencioso, imaginado por Hermínio Bello de Carvalho se tornasse um grande êxito de bilheteria, com o pública prestigiando de tal forma “Rosa de Ouro” que eles foram obrigados a transferir diversas vezes o término da temporada de sucesso. Mas, veio o momento de lançar o conjunto A VOZ 00 MORRO e três anos depois daquela noite em que cantaram juntos pela primeira vez na casa do velho Cartola, os oito sambistas se reuniram outra vez para gravar seus sambas em fita, numa fábrica de discos. A fita serviria de amostra para os cantores que desejassem incluir um ou outro samba em seu repertório. A interpretação, no entanto, saiu tão boa, tão autêntica, tão eminentemente “voz do morro”, que o diretor artítico resolveu lançar um disco com eles. A estréia para o público do conjunto A VOZ DO MORRO deu-se na célebre gafieira “Estudantina”. Foi no começo de 65. Cantaram até de manhã e depois ficaram por ali mesmo, fazendo hora para ir pro estúdio de gravação. Á tarde o disco foi lançado. Para encurtar a história, os dois primeiros discos de oito sambista que o público praticamente não conhecia, figuraram na lista dos Dez Melhores do Ano, selecionados pela critica.

Cuidado é um samba de Nelson Sargento e Marreta, uma espécie de apresentação do conjunto, no qual solam, pela ordem, Nelson, Paulinho, Zé Keti e Elton. Êste último, por sinal é quem, toca o surdo nesta gravação, numa prova de que todos se revessam nos instrumentos, embora, normalmente, o surdo esteja a cargo de Oscar Bigode, os violões com Nelson Sargento e Paulinho da Viola, o cavaquinho com Jair o chapéu de palha com José Cruz, Anescar com o tamborim. Para a gravação dêste disco foram anexados ao conjunto quatro ritmistas: Alédio Clemente, Oswaldo Pereira, Jorge de Oliveira e Jorge Sacramento, êste último excelente cuíca da Escola de Samba de Tuiuti. Os outros se revessam com os componentes do grupo tocando diversos instrumentos, pois são todos exímios integrantes de bateria de várias escolas. A voz do morro, samba que inspirou o nome do conjunto, foi o primeiro grande sucesso de Zé Keti e foi feito especialmente para o filme de Nelson Pereira dos Santos – “Rio, 40 graus”. O autor é o solista. Tiradentes, de Estanislau Silva, Arnaldo Ferrar e Décio Carlos, não tem solista. Trata-se do famoso samba de enrêdo que ajudou a Escola de Sambe Império Serrano a se tornar tri-campeã do Carnaval. Seu grande mérito é incluir duas vezes na melodia, de formas diferentes, o longo nome de Joaquim José da Silva Xavier. 400 anos de favela, um inédito de Zé Keti, solado pelo autor. Notem que aqui Zé Keti defende a tese inversa à que defendeu no samba Opinião e que provocou tanta discussão até nos meios políticos. Exaltação à Mangueira venceu um carnaval na voz de um mangueirense fanático: Jamelão. Os autores são o veterano compositor da Estação Primeira, Eneias Silva e seu parceiro A. A. da Costa. Paulinho canta em ritmo lento, depois vem a segunda parte solada por Nelson Sargento para Paulinho encerrar da mesma maneira. Tanta tristeza é de Elton Medeiros e êle mesmo é o solista. A letra é de Kleber Santos. Quem repete o refrão em solo é Zé Keti. Meu barracão de zinco de Jair Costa e José Bispo foi sucesso na voz do segundo que não é outro senão o popular Jamelão. Desta vez quem o sola é Jair Costa, que não é outro senão Jair do Cavaquinho. O número encerra a face “A” do disco. No lado “B’ um partido-alto abre a série. Este tipo de samba é uma das especialidades do grupo, que acompanha com palmas. Sinhá não disse é solado pelo autor – Paulinho da Viola. Carnaval que passou é de Anescar, o autor de Chica da Silva. Um lindo samba no qual êle conta suas emoções quando viu o Salgueiro vencer o desfile com êste mesmo Chica da Silva. Oscar Bigode é o diretor de bateria da Portela e compôs Exaltação à Madureira de parceria com Colombo. Reparem a beleza deste samba, cantado por Paulinho. Aventureira de José Cruz, Noca e Poliba, é cantado pelo primeiro, um mestre do chapéu-de-palha, Seu instrumento é que complementa sempre as batidas do tamborim, enriquecendo o ritmo. Os breques cheios de humor são de Zé Keti. Só eu sei melodia típica de escola, é o segundo samba da dupla Nelson Sargento e Marreta, aqui apresentado por Nelson. A bateria, nesta gravação, está perfeita. Os sambas seguintes (Tarde demais, de Jairzinho e Alcides Lopes, cantado pelo primeiro, e Noite linda, de Jairzinho, cantado por Paulinho da Viola) são da mesma linha e lembram os grandes sambas da fase áurea da Música Popular Brasileira, quando na década de 40, eram cantadas por Patrício Teixeira e J.B. de Carvalho, entre outros. Encerrando essa coletânea de 15 sambas exemplares, numa época em que o bom exemplo é valiosíssimo, temos Anescar com seu samba Meus dias são de sol. Na repetição da primeira parte, quem ‘resposteia’ (o verbo é da linguagem dos sambistas) é Paulinho da Viola.

SÉRGIO PÔRTO
contracapa

os sambistas - conjunto a voz do morro - 1966

Lado A

  1. CUIDADO
    (Nelson Sargento-Marreta)
  2. A VOZ DO MORRO
    (Zé Keti)
  3. TIRADENTES
    (Estanislau Silva-Arnaldo Ferraz-Décio Carlos)
  4. 400 ANOS DE FAVELA
    (Zé Keti)
  5. EXALTAÇÃO Á MANGUEIRA
    (Eneias Silva-A. A. da Costa)
  6. TANTA TRISTEZA
    (Elton Medeiros-Kleber Santos)
  7. MEU BARRACÃO DE ZINCO
    (Jair Costa-José Bispo)

Lado B

  1. SINHÁ NÃO DISSE
    (Paulinho da Viola)
  2. CARNAVAL QUE PASSOU
    (Anescar)
  3. EXALTAÇÃO À MADUREIRA
    (Oscar Bigode-Colombo)
  4. AVENTUREIRA
    (José Cruz-Noca-Poliba)
  5. SÓ EU SEI
    (Nelson Sargento-Marreta)
  6. TARDE DEMAIS
    (Jair Costa-Alcides Lopes)
  7. NOITE LINDA
    (Jair Costa)
  8. MEUS DIAS SÃO DE SOL
    (Anescar)

RGE – XRLP-5.290, LP

Direção de gravação: Luis Antônio e Benil Santos
Som: Alberto Soluri
Foto: Estúdio Mafra
Lay-out: Joselito e Nicolau
Direção artística: Júlio Nagib

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