PAULINHO DA VIOLA foi um rio que passou em minha vida 1970, Odeon

São Paulo, maio, setenta.
Candeia,
Sei que você lembra bem o menino que o Oscar Bigode levou aí para a Portela. O que tinha a “primeira” de um samba e a quem Casquinha deu ingresso na Ala de Compositores, “levando a segunda”, nascendo com o samba o compositor Paulinho de Viola. De lá pra cá, muita coisa aconteceu e você, Candeia, ai no seu canto, subúrbio carioca, sabe das coisas melhor que a gente.

Sabe que Paulinho andou fazendo “shows” em teatro. Que o “Rosa de Ouro” mostrou pro povo o que você já sabia, de sua poesia, de sua harmonia, de sua melodia. Sabe que os sambas de terreiro de Paulinho incendiavam sempre os ensaios da Portela. Sabe que ele viu a turma ai de Osvaldo Cruz ser campeã na Avenida, cantando o “MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS“, que ele compôs também. Sabe que o garoto chegou mesmo a presidente da Ala apesar de menino ainda.

Tudo isso você sabe, Candeia, como sabia das coisas, quando Paulinho bolou melodia nos lindos versos de Hermínio Bello de Carvalho pra “SEI LÁ MANGUEIRA“. Na Portela, a turma não gostou mesmo e foi você, Candeia, quem ajeitou o negócio. Sabendo ser o Paulinho tão portelense quanto você ou o Paulo da Portela, ou o resto da turma toda. Quando Paulinho fêz o “FOI UM RIO QUE PASSOU EM MINHA VIDA“, fêz pensando na Portela, Candeia. Visualizando as pastoras cantando o samba, a bateria fazendo o ritmo, a Portela vibrando. E — samba pronto — correu pra você. Que quando ouviu os primeiros versos, já sabia das coisas e sorriu. Ali a verdade. Ali a Portela, sua e de Paulinho. Ali, em música, Paulinho confirmando o que você dizia a cada um.

Paulinho ri o mesmo riso manso e simples de sempre, Candeia. Televisões de São Paulo, Rio, Porto Alegre, Recife querem-no em seus programas. Jornais e revistas o entrevistam. Produtores e empresários o procuram. Todos dizem ser este 1970 o Ano Paulinho da Viola. E ele ri, manso e simples, como sempre, Candeia. Porque, como você, Paulinho sabe das coisas. E muitas destas coisas estão neste LP, onde tudo que Paulinho faz, o maestro Gaya sabe vestir com aquelas orquestrações que só quem — como ele — há tantos anos compõe sobre temas alheios, sabe fazer.

Mas, mais do que a ninguém, este LP é seu, Candeia. Porque, se você não tivesse ensinado as coisas para o menino — que naquele dia fez seu primeiro samba, “O RECADO“, com a segunda do Casquinha — se você não tivesse mostrado a ele as coisas eternas do caminho certo do samba, talvez fosse outra a história de Paulo César Batista de Faria. A Portela e a música brasileira não teriam — talvez — Paulinho da Viola. E eu não estaria aqui escrevendo este bilhete pra você. Obrigado, Candeia.

Arley Pereira
contracapa

PAULINHO DA VIOLA - foi um rio que passou em minha vida – 1970

LADO A

  1. PARA NÃO CONTRARIAR VOCÊ
  2. O MEU PECADO
  3. ESTOU MARCADO
  4. LAMENTAÇÃO
  5. MESMO SEM ALEGRIA
  6. FOI UM RIO QUE PASSOU EM MINHA VIDA

LADO B

  1. TUDO SE TRANSFORMOU
  2. NADA DE NOVO
  3. JURAR COM LÁGRIMAS
  4. PAPO FURADO
  5. NÃO QUERO VOCÊ ASSIM

Odeon – MOFB-3629, LP

PRODUTOR FONOGRAFICO
Indústrias Elétricas e Musicais Fábrica Odeon S.A.

Equipe de produção artístico-fonográfica realizadora deste disco:
DIRETOR DE PRODUÇÃO: MILTON MIRANDA
DIRETOR MUSICAL: LYRIO PANICALI
ORQUESTRADOR E REGENTE: MAESTRO GAYA
DIRETOR TÉCNICO: J. Z. MERKY
TÉCNICO DE GRAVAÇÃO: JORGE TEIXEIRA DA ROCHA
TÉCNICO DE LABORATÓRIO: RENNY L. LIPPI
LAY-OUT: MOACYR ROCHA
FOTO: DA CRUZ

Todas as faixas com autoria de Paulinho da Viola, exceto: O MEU PECADO (Zé Ketti) e LAMENTAÇÃO (Mauro Duarte)

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