PIXINGUINHA E SUA BANDA | 1959, RCA-Victor

O apelido vem de longe. Consta que sua avó, D. Eduviges, de origem africana, ao vê-lo, novinho, no berço, chamou-o afetuosamente de “pixinguinha”, que em sua língua nativa significava “menino bom”. A expressão transformou-se em nome próprio e com o tempo se tornou uma lenda da música popular brasileira. “Pixinguinha”, por seu turno, é, ás vezes, trocado por “Pixinga”, pelos mais íntimos.

Pixinguinha e Velha Guarda são sinônimos. A enunciação dêste nome logo evoca figuras de um passado musical – conhecidos e festejados “chorões” das primeiras décadas do século. È com saudade que Pixinguinha hoje volta o olhar retrospectivo para a paisagem do tempo. E é com certa tristeza que desperta de seus devaneios e constata a realidade musical do presente. Pixinguinha é, e sempre foi, um “verdadeiro chorão”, isto é, o músico “que toca no boteco ou no palácio por simples amor á arte, sem pagamento”. Naturalmente os anos já lhe tiraram um pouco daquele febril e irreprimível entusiasmo de outrora, quando Pixinguinha, quer com a flauta quer com o saxofone, não escolhia local para dar vazão ao seu temperamento de artista – bastavam apenas alguns amigos á sua volta.

Pixinguinha domina não somente a flauta e o saxofone – instrumentos que lhe deram a fama de um dos ágeis virtuoses da música popular brasileira – mas também o piano e o cavaquinho. Aliás, foi como tocador de cavaquinho que iniciou sua carreira de músico popular, acompanhando o pai, o flautista Alfredo da Rocha Viana, de quem Pixinguinha, além do nome completo, herdou a pujante inspiração musical.

Na antiga Rua da Floresta (hoje Padre Miguelino), em Catumbi, havia um casarão (8 quartos, 4 salas e porão habitável), no qual moravam o funcionário público Viana e sua família (mulher e dezoito filhos), e que, de tão grande movimentado, ganho o epíteto de “Pensão Viana”: além da família que ali residia, o “colosso” abrigava músicos sem trabalho ou que estavam ao aguardo do momento de entrar em ação.

Os serões musicais e os bailes da “Pensão Viana” marcaram época no Rio Antigo. Antonio Reis, Irineu de Almeida, Pinguça, Luiz de Souza, Salgado (“Cara Queimada”), Mario Alves, Quincas Laranjeiras e Neco – são alguns nomes que ocorreram a Pixinguinha ao se referir aos grupos, chefiados por seu pai, que animavam aquelas noitadas.

O menino Pixinguinha a tudo contemplava e ouvia maravilhado, e tôda aquela música lhe ia plasmando o espírito. Assim é que, já aos 9 anos (nasceu em 23 de abril de 1898, naquele casarão) compunha o seu primeiro chorinho, “Lata de Leite”, que tocava numa flauta de brinquedo. Aos 14 estreava como profissional, na qualidade de flautista, integrando o conjunto do pianista Padua Machado, numa casa de chôpe da Lapa, “A Concha”. Ulteriormente passou a se apresentar em outros estabelecimentos congêneres, em cinemas, teatros e circos. Por essa época, que Pixinguinha não sabe precisar (1912? 13? 14?), organizou-se o Grupo de Caxangá, cujos integrantes (em número de quinze) se vestiam a caráter, de cangaceiros. Do Grupo de Caxangá, após o Carnaval de 1919, surgiu um conjunto regional de chôro, que veio a se chamar “Os 8 Batutas” e que em 1922 foi difundir a música brasileira em Paris. Antes dessa excursão – que se deveu ao empenho de um bailarino brasileiro de formação européia (Duque) e do Sr. Arnaldo Guinle – “Os 8 Batutas” haviam conquistado enorme sucesso na Sala de Espera do Cine Palais (Rui Barbosa era um dos “habitués” daquela casa e sempre pedia ao conjunto para tocar o “Bentevi” de Catulo); haviam animado os chás do igualmente desaparecido “Assírio” (no andar térreo do Teatro Municipal) e os bailes do Country Club. A estréia daquele conjunto em Paris, conjunto integrado por Pixinguinha (flauta), Donga (violão), Otavio (irmão de Pixinguinha cantor), Raul Palmieri (violão), Jacob Palmieri (pandeiro), Nelson Alves (cavaquinho), José Alves Lima (ganzá) e Luiz de Oliveira (bandolim) – verificou-se no cabaré “Schéhérazade”, no bairro de Montmarire.

De volta á pátria, continuou Pixinguinha a triunfar, quer como solista de flauta e saxofone, quer como orquestrador. Começou a gravar; escreveu uma das mais interessantes páginas da história da música popular brasileira ao formar dupla com o saudoso Benedito Lacerda – êste na flauta, Pixinguinha no saxofone. Poder-se-ia dizer que Pixinguinha é hoje o comandante do grupo de músicos e compositores a que se convencionou chamar de “Velha Guarda”, composto por Almirante, Lamartine Babo, João da Baiana, Alfredinho do Flautim, Patrício Teixeira, Getúlio Marinho (Amor), e tantos outros talentos.

Mais de 200 composições de Pixinguinha foram até hoje gravadas, sendo que uma delas tornou-se “vedette” internacional – “Carinhoso”, que, escrito em 1923, ainda lhe rende bons direitos.

Como orquestrador, começou em 1915, tendo orquestrado para cinemas, teatros, circos e gracações. Algumas de seuas músicas (que vão a mmais de 500), marcaram época: “Páginas de Dor”, “Rosa”, “Sentimento Oculto”, “Querendo Bem”, “Fonte Abandonada”, “Sofres Porque Queres”, “Naquele Tempo”, “Subindo a Serra”, “1 x 0”, “Cinco Companheiros”, “Carinhoso”, etc.

Embora começasse a gravar com o Grupo da Casa Falhauber, “em 1915 e 1916 mais ou menos”, foi na RCA Victor que Pixinguinha editou seus maiores sucessos. E Pixinguinha agora relembra seus velhos tempos de RCA Victor de maneira original: com a gravação de um LP, êste disco. Nestas doze faixas, Pixinguinha – autor, naturalmente, das orquestrações – deixa transparecer, nos bem marcados acordes da banda por êle comandada, a característica inconfundível do seu estilo interpretativo – a exata noção de equilíbrio das massas sonoras a seu alcance. Os instrumentos por êle “orientados” se congregam maravilhosamente para edificar um tecido musical harmoniosamente uniforme.

Os títulos dos números que compõem esta gravação logo indicam haver o célebre compositor-orquestrador-flautista-saxofonista desejado pretar especial homenagem a São João, concorrendo para um maior brilho de suas Festas. Porém música orquestrada e regida por Pixinguinha – como é o caso – não pode se limitar a uma determinada época: é música para ser ouvida em tôdas as ocasiões, repetidas vêzes.

ELMO BARROS

PIXINGUINHA E SUA BANDA 1959, RCA-Victor

Lado 1

PULA A FOGUEIRA – marcha
FALE NA ORELHINHA DE CÁ – maxixe
TENTEI FAZER MAIS UM BALÃO – marcha
BAILE NA ROÇA – valsa
CAI, CAI, BALÃO – marcha
O CASAMENTO DA FILHA DO THOMAZ – xote

Lado 2

O DELEGADO QUER PRENDER O ANTONIO – maxixe
CHEGOU A HORA DA FOGUEIRA – marcha
DIA DOS NAMORADOS – baião
PEDRO, ANTONIO E JOÃO – marcha
LÁ VEM A RITA – xote
ISTO É LÁ COM SANTO ANTONIO – marcha


RCA-Victor BLP-18, LP

Compositores:

Assis Valente – 3a, 5a,
Benedito Lacerda – 4b
Getulio Marinho (Amor) – 1a
Haroldo Lobo – 2a, 4a, 6a, 1b, 3b, 5b
João Bastos Filho – 1a
Lamartine Babo – 2b, 6b
Milton de Oliveira – 2a, 4a, 6a, 1b, 3b, 5b
Oswaldo Santiago – 4b

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *