Polêmica | 1956, Odeon

O duelo musical travado entre Noel Rosa e Wilson Batista não é bem uma história para ser contada. E sim para ser ouvida. Mas o ouvinte, não iniciado em certos segredos da música popular brasileira, por certo, não encontrará explicação para alguns incidentes que determinaram a famosa polêmica mantida entre os dois compositores e que pela primeira vez foi gravada neste LP, da Odeon.

Eis por que vamos revelar aqui, extra-musicalmente esses segredos históricos.

Como é fácil constatar, as músicas de Noel Rosa, que fazem parte dêsse duelo, alcançaram grande fama, como sejam: “Rapaz Folgado”, “Palpite Infeliz”, “Feitiço da Vila” e “João Ninguém”. Isto não aconteceu com as músicas de Wilson Batista, tais como “Lenço no Pescoço”, “Mocinho da Vila”, “Frankstein”, “Conversa Fiada” e “Terra de Cego”.

Por que?

Quem responde a isso é o próprio sobrevivente dessa “Batalha” melódica, sustentada a base de letra e música, entre um chope e uma cachaça, nas mesas da velha Lapa boêmia que não volta mais. É o Wilson Batista quem vai falar:

Sendo um dos talentos mais puros de nossa música popular, uma autêntica vocação de boêmia, Wilson Batista era no entanto, em 1935 – ano em que se iniciou a polêmica, ainda um ilustre desconhecido do grande público, embora tivesse os seus admiradores entusiásticos no grupo dos boêmios que fregüentava os bares e cafés da Lapa. Quanto a Noel Rosa, já era êle, áquela época, um compositor de fama e prestígio graças ao seu indiscutível gênio musical.

Segundo Wilson Batista, a polêmica realmente começou com a resposta de Noel Rosa a um samba seu, intitulado “Lenço no Pescoço”, cuja letra era assim:

“Lenço no pescoço
tamanco arrastando…”

Lançado êsse samba nos meios da Lapa, Wilson foi atingido no dia seguinte por um verdadeiro impacto – a réplica de Noel com o samba “Rapaz Folgado”, em que, de saída, êle dizia:

“Deixa de arrastar o teu tamanco
pois tamanco nunca foi sandália…”

Era o desafio. Wilson confessa que se sentiu aniquilado. Mas reagiu, a força de injeções de sua “torcida”. E atirou para cima de Noel Rosa, como uma bomba, o samba “Mocinho da Vila”, no qual êle retrucava:

“- Noel é o abafo da Vila
mas bem sei que em terra de cego quem tem um olho é rei…”

Foi um êrro “tático” do Wilson. Mexeu em casa-de-marimbondo. Pisou nos calos de Noel. Tocou no que êle tinha de mais sagrado em sua vida – Vila Isabel, sua velha e querida Vila. E a tréplica veio esmagadora e definitiva:

“Quem é você
que não sabe o que diz…”

O próprio Wilson confessa que, se fôsse hoje, ele, com a sua experiência teria feito a coisa tomar outro rumo. Mas naquêle tempo era assim como um gato selvagem, reagiu mais por instinto. E respondeu com o samba “Frankstein”, cuja letra era assim:

“Boa impressão nunca se tem,
quaqndo se encontra um certo alguém,
que mais parece um Frankstein.
Mas como diz o refrão por uma cara feia perde-se um bom coração…”

Noel sentiu-se ferido na sua vaidade, no seu complexo de homem feio. E como os sambas de Wilson, embôra não gravados, fossem publicados, Noel cheio de revolta, comprou e rasgou todos os jornais de modinhas da época.

E voltou a polêmica, mas dessa vez lírico, sentimental, poético, com essa legítima obra-prima de nossa música que é “Feitiço da Vila” (de parceria com Vadico).

Mas a briga não parou aí. Wilson Batista voltou a carga agressivo, com sua “Conversa Fiada”, e que dizia que:

“É conversa fiada dizerem que o samba na vila tem feitiço…”

A polêmica havia chegado ao fim, Noel lançou o seu último samba da série “João Ninguém”:

“João ninguém
Que não é velho nem moço
Como bastante no almoço
Pra se esquecer do jantar…”

E aqui chegamos também ao fim de nossa história. Wilson Batista não alimenta mágoas nem ressentimentos. Foi e continua sendo um grande fan de Noel. E guarda uma infinita saudade daquelê tempo em que êle, menos famoso, menos experiente, trazia consigo, no fundo do coração a pureza de suas melodias que são, sem dúvida alguma, das mais bonitas de sua vasta bagagem musical.

Que dizer de Noel? O povo já o consagrou e as gerações se sucedem cantando os seus sambas, definitivamente incorporados ao nosso cancioneiro popular.

E neste LP, a Odeon presta a sua homenagem ao saudoso Noel Rosa, gravando como gravou de forma bastante original a polêmica desconhecida de muita gente, até mesmo de muitos autores da época, e que assim terão oportunidade de conhecer um fato, hoje, histórico de nossa música popular.
NASSARA

LP, Polêmica (Odeon – MODB-3.033, LP 1956)

NOEL ROSA

RAPAZ FOLGADO – FRANCISCO EGYDIO
PALPITE INFELIZ – FRANCISCO EGYDIO
FEITIÇO DA VILA – FRANCISCO EGYDIO
(NOEL ROSA / VADICO)

JOÃO NINGUÉM – FRANCISCO EGYDIO

WILSON BAPTISTA

LENÇO NO PESCOÇO – ROBERTO PAIVA
MOCINHO DE VILA – ROBERTO PAIVA
FRANKSTEIN – ROBERTO PAIVA
CONVERDA FIADA – ROBERTO PAIVA
TERRA DE CEGO – ROBERTO PAIVA


Odeon – MODB-3.033, LP

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