retrato da noite elizete cardoso 1958, Copacabana

O meu barco feito de noite singra o mar de asfalto por entre ilhas de casais. Sou marinheiro — desde menino, na indumentária dominical — e estou atento aos vagalhões desafinados, aos calháos medíocres. Peito tatuado de melodias, marinho a minha ânsia de chegar logo ao Porto Cardoso (lírico Porto da Cidade de Elizete onde se respira um ar de canções no lá dentro das tabernas) e persigo, como louco, a estrêla louca que desobedece às leis do trânsito louco do céu.

Lá, para onde vou, simplicidade é endemia. Os gestos são de mulatice, os cumprimentos acontecem no melhor ritmo de mãos e todos vivem unidos pela camaradagem da sensibilidade. Dedos longos fazem turismo nos nossos cabêlos, qualquer um pôde praticar livremente os olhares dos olhares comprometidos e — o que é importante — não há Policia de relógios para policiar a noite das noites das suas noites tão noites.

É um porto que sente. É uma Cidade que canta.

Um a um, vão chegando os barcos. Cordas de flôres servem de amarras perfumadas e os marujos de sonho invadem Elizete, sorrindo o valeu a pena da geografia navegada.

E haja taberna!

O vinho cái como um benção. A tristeza suja as mesas e resiste à umidade do pano dos garções. A marujada canta. A marujada vive a música de Elizete.

Vinicius — o francês — está presente. Também o búlgaro Braga bebe em silêncio atrás do bigode. Homero — o homem que sabe de cór o calendário marítimo — descansa as pescarias.

— “Queremos Evaldo !”

— “Queremos Evaldo !”

— “Queremos Evaldo !”

Mas, Evaldo não chega. Pegou tempestade. Seu barco partiu-se.
Evaldo não mais.

No entanto, todos invocam:

— “Queremos Evaldo !”

— “Queremos Evaldo !”

— “Queremos Evaldo !”

Sim. O meu destino é a Cidade de Elizete.

É o Porto Cardoso.

Onde os amigos se reúnem e trocam saudades.

Onde se contam histórias de mulher bonita e se discutem inofensivos absurdos.

A todo pano, portanto, vou com o meu barco feito de noite. Decifro os ventos que não me decifram, bordejo ao Sul, e, por experiência, sei que após contornar o Promotório Thedim, estarei no Porto Cardoso — onde a vida é urna eterna canção mulata!

Ricardo Galeno
contracapa

Elizeth Cardoso – Retrato Da Noite (Copacabana – CLP11026 - LP, 1958)

FACE A

  1. ALIANÇA – Samba
    (CIRO MONTEIRO – DIAS DA CRUZ)
  2. PELA ESTRADA – Toada
    (NANAI)
  3. E A CHUVA PAROU – Valsa
    (RIBAMAR – ESDRAS PEREIRA DA SILVA – VICTOR FREIRE)
  4. CANSEI DE ILUSÕES – Samba-Canção
    (TITO MADI)
  5. POR CAUSA DE VOCÊ – Samba-Canção
    (ANTONIO CARLOS JOBIM – DOLORES DURAN)
  6. BOM DIA, TRISTEZA – Samba-Canção
    (VINICIUS DE MORAES – ADONIRAN BARBOSA)

FACE B

  1. NESTE MESMO LUGAR – Samba-Canção
    (ARMANDO CAVALCANTE – KLECIUS CALDAS)
  2. POR ACASO – Samba-Canção
    (CESAR THEDIM – NANAI)
  3. PRECE – Samba
    (VADICO – MARINO PINTO)
  4. SOU IGUAL A VOCÊ – Samba-Canção
    (ALCYR PIRES VERMELHO – NAZARENO DE BRITO)
  5. CONSELHO INÚTIL – Samba-Canção
    (MIGUEL GUSTAVO)
  6. CONTRA-SENSO – Samba-Canção
    (ANTONIO BRUNO)

Copacabana – CLP11026 – LP

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