rosa de ouro 1965, Odeon

Gerado no Zicartola e primo do Opinião, Rosa de Ouro, foi um estandarte do samba e da música brasileira “profunda”, quando reinavam nas rádios a Bossa Nova e o incipiente Iê-iê-iê. Começou no Teatro, quando Hermínio Bello de Carvalho e Élton Medeiros conceberam juntar no palco Aracy Côrtes, diva do Teatro de Revista e musa de Noel, e a fenomenal Clementina de Jesus, recém descoberta. Além de revelar “Quelé” e contar com Anescar do Salgueiro e Jair do Cavaquinho o bem sucedido projeto teve longa trajetória, e sacramentou as carreiras musicais de Nelson Sargento e Paulinho da Viola que arriscavam seguir a profissão, respectivamente, de pintor de paredes e bancário.

Rosa de Ouro – História

No Rio de meados dos anos 60, o samba estava naquela base do “agoniza, mas não morre”, como na canção de Nelson Sargento. Vínhamos do estouro da bossa nova, gêneros estrangeiros dominavam as rádios e a nova preferência nacional, surgida em meados daquela década, viria a ser a Jovem Guarda.

Fundado em 1963, um foco de resistência pequenino, mas luminoso, foi o Zicartola: em um sobrado na Rua dos Andradas, 81, Dona Zica cuidava das panelas, enquanto seu marido, o glorioso Cartola, comandava as rodas de samba ao anoitecer, ao lado de companheiros do naipe de Zé Keti, Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros.
O agito acontecia no segundo andar e o casal dormia no terceiro, num esquema amador delicioso para quem testemunhou, mas terrível para os negócios. Admirador do lugar e dos seus proprietários, frequentador e colaborador assíduo, o poeta Hermínio Bello de Carvalho inspirou-se no fugaz empreendimento de Cartola e Zica para conceber, ao lado de Kleber Santos, o musical “Rosa de Ouro”.

A previsão inicial de um mês de temporada no Teatro Jovem, então na Praia de Botafogo, 522, estendeu-se para um ano. Foram agendadas apresentações em São Paulo e na Bahia, antes da volta da montagem ao mesmo teatro carioca, em 1967. Dois LPs históricos foram lançados para marcar cada uma das temporadas no Rio.
Essa apoteose do samba reunia no palco uma antiga estrela do teatro de revista, Aracy Côrtes (1904-1985), e uma senhora de 63 anos, mas estreante, um talento descoberto por Hermínio chamado Clementina de Jesus.
Além das duas damas, entravam em cena Paulinho da Viola, então um jovem bancário que havia debutado pouco tempo antes, no Zicartola, além de quatro craques mais cascudos oriundos de Escolas de Samba cariocas: Elton Medeiros (Aprendizes de Lucas), Anescar do Salgueiro (1929-2000), o portelense Jair do Cavaquinho (1922-2006) e Nelson Sargento, baluarte da Mangueira.

O espetáculo, um passeio pela história da música brasileira, tornou-se um marco, como já intuía o jornalista Sérgio Cabral, autor do texto publicado no encarte de – ROSA DE OURO – , o LP lançado em 1965, transcrito a seguir:

Sendo a maior contribuição da nossa música popular ao teatro, e vice-versa, “Rosa de Ouro” aponta também o caminho para que se consagre o casamento definitivo entre os dois: o caminho da simplicidade e da vontade de procurar o que há de melhor neste canteiro da arte popular bela e pura que é Rio de Janeiro. De “Rosa de Ouro”, o magnífico espetáculo que o poeta Hermínio Bello de Carvalho idealizou e dirigiu e que Kleber Santos produziu para o teatro jovem, há muita coisa que se dizer: revelou, aos 63 anos, uma das mais autênticas e talentosas cantoras brasileiras, Clementina de Jesus, possibilitou o reencontro com o público da maior estrela de revista dos nossos palcos, Aracy Cortes; lançou o mais representativo conjunto vocal dos morros cariocas (é formado por compositores das escolas de samba Estação Primeira, Portela, Acadêmicos do Salgueiro e Aprendizes de Lucas). Muita coisa a mais seria para dizer sobre “Rosa de Ouro”, mas a Odeon se encarregou de exprimir-se melhor, dando uma bela síntese do espetáculo neste disco, e a imprensa carioca já usou todos os adjetivos possíveis para demonstrar o seu valor.”
Ségio Cabral

“Um dos mais belos espetáculos da cidade, no momento” (ENEIDA, Diário de Noticias) – “Um avanço na conquista de uma arte eminentemente brasileira” (ANTÔNIO OLINTO, O Globo) – “Rosa é de ouro mesmo. É um retrato vibrante da música carioca e daqueles que cultivam e sustentam no seio do povo” (J.J & J. Correio da Manhã) – “Não percam este espetáculo, pois durante mais 400 anos não haverá outro igual” (HUGO DUPIN, Diário de Noticias) – “Em matéria de musical, sobre o samba, é incomparável” (HÉLIO FERNANDES, Tribuna da Imprensa) – “O espetáculo é vivamente aconselhável a todos os que acreditam na música” (RENZO MASSARANI, Jornal do Brasil) – “Espetáculo de excepcional valor por sua fidelidade à música brasileira, e ao samba em especial” (JOSÉ CARLOS RÊGO, Última Hora) – “Aracy Côrtes reaparece magnifica. É comovente o seu desembaraço, diante da emoção mal disfarçada da platéia” (JOSÉ CARLOS OLIVEIRA, Jornal do Brasil) – “Rosa de Ouro” desabrocha hoje, glorificando a música popular brasileira. (JOTA EFEGÊ, O Jornal) – “O que é bom já nasce feito, e Rosa de Ouro já estreou dando o que falar. (revista Visão) – É mais brasileiro o que se vê em espetáculos como Rosa de Ouro que qualquer desfile carnavalesco em passarela de avenida” (LUISA BARRETO LEITE, Jornal do Comércio) – “Um espetáculo que merece ser assistido por todos os que têm algum carinho pela música popular brasileira” (MAURO IVAN / JUVENAL PORTELLA, Jornal do Brasil) – “O que lhes posso dizer sobre a interpretação dessa fabulosa Aracy Côrtes? Possui uma força prodigiosa que – tenho a certeza – só as grandes atrizes possuem” (FAUSTO WOLFF, Tribuna da Imprensa) – “Não nos parece exagerado dizer que, através do ensino da música popular carioca, Rosa de Ouro nos ensina uma matéria bem mais ampla: a de melhor conhecer e amar a terra e o povo do Rio de Janeiro” (YAN MICHALSKI, Jornal do Brasil) – “Uma Rosa que vale ouro. Uma rosa tão rara numa época de alienação e mediocridade, uma rosa de ouro dessas não pode morrer tão cedo” (J. RAMOS TINHORÃO, Diário Carioca) – “Surpreendente a interpretação de Os rouxinóis por Aracy Côrtes” (MÁRIO CABRAL, Tribuna da Imprensa) – “Quem quiser descobrir o samba puro, terá que ir uma noite dessas ao Teatro Jovem. Aracy e Clementina: são duas rainhas no espetáculo, que recomendo como capaz de proporcionar as mais gratas satisfações neste inicio de temporada” (GERALDO QUEIROZ, O Globo) – “É uma verdadeira ressurreição da mais genuína música popular brasileira o que vem suscitando Herminio Bello de Carvalho no Teatro Jovem” (EURICO NOGUEIRA FRANÇA, Correio da Manhã).

OBS: No espetáculo, servindo de elementos de ligação entre os números musicais, foram transmitidos depoimentos nas vozes de Almirante, Cartola, Carlos Cachaça, Donga, Ismael Silva, Pixinguinha, Sérgio Pôrto, Mário Cabral, Sérgio Cabral, Lúcio Rangel e Jota Efegê.
contracapa

rosa de ouro - ARACY CORTES, CLEMENTINA DE JESUS E CONJUNTO ROSA DE OURO - 1965

Face A

  1. ROSA DE OURO – samba 6’20”
    (Hermínio Bello de Carvalho – Elton Medeiros – Paulinho da Viola)
    QUATRO CRIOULOS – samba
    (Elton Medeiros – Joacyr Santana)
    DONA CAROLA – samba
    (Nelson Cavaquinho – Norival Bahia – Walto Feitosa)
    PAM PAM PAM – samba
    (Paulo da Portela)
  2. SENHORA RAINHA – marcha-rancho 3’05”
    (H. Villa-Lobos – Hermínio Bello de Carvalho)
  3. AI YOYÔ (Linda flor) – samba-canção 3’05”
    (H. Vogeler – Luiz Peixoto – Marques Pôrto)
  4. OS ROUXINÓIS – marcha-rancho 2’57”
    (Lamartine Babo)
  5. JURA – samba-maxixe 2’11”
    (Sinhô)

Face B

  1. ESCURINHO – samba 3’34
    (Geraldo Pereira)
    SE EU PUDESSE – samba
    (Zé da Zilda)
    NEM É BOM FALAR – samba
    (Ismael Silva – Francisco Alves – Nilton Bastos)
  2. SOBRADO DOURADO – partido-alto 6’16”
    (Folclore)
    CLEMENTINA, CADÊ VOCÊ? – partido-alto
    (Elton Medeiros)
    BENGUELÊ/BOI NÃO BERRA/SIÁ MARIA REBÔLO/MAPARAÊMA
    (Folclore)
  3. NASCESTE DE UMA SEMENTE – samba 2’20”
    (José Ramos)
  4. BATE-CANELA – lundu 1’30”
    (Folclore)
  5. SEMENTE DO SAMBA – (samba) 1’59”
    (Hélio Cabral)
  6. ROSA DE OURO – samba 1’33”
    (Hermínio Bello de Carvalho – Elton Medeiros – Paulinho da Viola)

Odeon MOFB 3430, LP

Participaram também desta gravação: Dino e Meira, violões: Tião Marinho, contrabaixo; Marçal, cuíca; Canhoto, cavaquinho; Tião e Mário, rítmo; Carlos Poyares, flauta.
Capa baseada no “afiche” de Peter Balie

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