SAMBAS-DE-ENREDO DAS ESCOLAS DE SAMBA DO GRUPO I CARNAVAL 80

Os tamborins, mais agudos em relação ao disco de 1981, fazem a parte de todos os instrumentos da bateria neste extraordinário disco de 1980 que reúne um conjunto de autênticos clássicos no gênero samba-enredo. 1980 trata-se de uma das melhores safras da história, pois todos os sambas são audíveis, de canto fácil e de gravação fácil na memória. Cavaco e cuíca possuem uma excelente harmonia com a bateria e o intérprete canta na primeira passada, com o coral assumindo na segunda (onde o intérprete passa a soltar cacos) e também cantando a segunda passada dos refrões inicialmente.

MOCIDADE – É um samba de melodia bonita, porém meio marcheado (o que deixa o samba-enredo um pouco mais envolvente). Mesmo considerando o samba qualificado, o acho o mais fraco da excelente safra de 1980. A Mocidade possui sambas melhores.

IMPERATRIZ – Um adorável clássico! Um primor de samba-enredo, por sinal! Melodia envolvente, de qualidade, bem variada e, sobretudo, contagiante (no disco, a bateria tem uma atuação singular). Os dois refrões são extraordinários e o restante do samba, principalmente o giro das baianas com o lalaiá… bem, esgotaram-se os adjetivos. Um dos melhores sambas de todos os tempos, sem dúvida foi decisivo para a conquista do primeiro título para a nação Leopoldinense, dividido com Portela e Beija-Flor. Destaque para a maravilhosa interpretação de Dominguinhos do Estácio.

IMPÉRIO SERRANO – Li um comentário recentemente que alegava o seguinte: Roberto Ribeiro, considerado um dos melhores intérpretes de avenida de todos os tempos (uma pena que ele não gravou nenhum samba da Império no disco devido a problemas contratuais), conseguia dar vida a sambas medianos, como Oscarito (1978) e Império das Ilusões (1980). Está certo quanto ao primeiro, mas totalmente equivocado quanto ao segundo. O hino de 1980 da Império Serrano é envolvente, possui uma excelente melodia, aliada ao balanço contagiante da bateria mil vezes Estandarte de Ouro. O refrão central é sensacional (“O vento trazia poeira/poeira de ouro…”) e a parte restante do samba é adorável. No disco, quando o refrão é executado na segunda passada, o apitinho que desponta é de arrepiar. Bacana também a risadinha do Darcy Maravilha, o cantor do samba no disco (e fiel parceiro de Noca da Portela, já que o samba da Portela de 2005 também leva a sua assinatura), que aparece inúmeras vezes na gravação. Um excelente samba-enredo da Império Serrano.

UNIÃO DA ILHA – Samba de arrepiar, tamanho o seu elevado teor de emoção. Com garra, a simpática escola da Ilha do Governador exalta com orgulho a sua característica de carnavais bons, bonitos e baratos. E o samba-enredo é extraordinário! É samba para ouvir e cantar de joelhos. Nessa época, era comum um dos compositores gravar o samba no disco. Era raro na ocasião os puxadores oficiais gravarem, pois suas presenças estavam reservadas apenas na avenida. Por isso que o cantor do samba no disco é Robertinho Devagar, um dos autores do samba-enredo, e não Aroldo Melodia, lendário intérprete oficial da União da Ilha. Isso é bastante comum nos discos da década de 70, e a exigência da gravação pelo intérprete oficial passou a acontecer pra valer dois anos depois (em 1982, com Quinzinho gravando o samba da Império Serrano logo após a saída de Roberto Ribeiro da escola), com a medida se consagrando a partir da primeira participação de Jamelão num disco de samba-enredo, em 1986.

PORTELA – Outro samba espetacular, o que não era novidade em 1980. Com o conhecido “Padrão David Corrêa de Qualidade” (característica: aliança de lirismo com animação), a Portela cantou um samba de enredo empolgante e extraordinário. O refrão central até hoje está na memória de muitos (“Ôôôô/vem de lá ô criançada/que hoje tem marmelada/pois o circo já chegou”). O enredo da Portela de 1980 tratava do circo, mas há quem diga que o título do enredo “Hoje tem Marmelada” seja uma clara referência à terceira colocação da escola no ano anterior, resultando numa autêntica “marmelada”. A crítica surtiu efeito, pois a Portela conquistou o título (dividido com Imperatriz e Beija-Flor).

BEIJA-FLOR – Mais uma campeã de 1980, que, pra variar, também desfilou com um samba de enredo maravilhoso, que estranhamente não se encontra na galeria dos melhores da Beija e tampouco no hall dos grandes sambas de 1980. O começo é bem original, esclarecendo que a história presente na letra será contada por uma preta velha. A melodia é sensacional, bem leve e envolvente. O refrão central (“Jogar xadrez, pique-bandeira…”) é muito bonito e o outro refrão (o da língua do P) é curioso. Eu não o compreendia até ter em mãos o encarte com as letras dos sambas de 1980, onde os três pês cantados estão na linha de baixo e as sílabas entoadas depois na linha de cima. Elas formam a palavra “bruxa”. O refrão é cantado assim: pê bê, pê rru, pê xa. Interessante, mas se este estilo fosse usado hoje, certamente os críticos desceriam a lenha.

VILA ISABEL – Mais uma obra-prima de Martinho da Vila e cia. A melodia e o estilo são bem originais, não tendo muito a ver com a tradicional estirpe de um samba-enredo. As duas primeiras partes são iguais em melodia, de tom emocionante, inclusive nos dois refrões de duas frases. A terceira parte possui um estilo mais vibrante, conclamador e envolvente. Tal estilo diferenciado e o sucesso do hino da Vila de 1980 lhe rendeu o Estandarte de Ouro de melhor samba num ano de sambas-enredo sensacionais, embora eu exalte tanto assim “Sonho de um Sonho” como muitos bambas exaltam. Tanto que eu acho os sambas da Imperatriz, da União da Ilha e da Portela de 80 melhores. Ah, e muitos chegam a ter uma dúvida: do que se trata este enredo da Vila? Martinho diz, na regravação do samba na coletânea da Sony, que ele fora inspirado na obra de Carlos Drummond de Andrade.

SALGUEIRO – Belo samba salgueirense, e bem interpretado por Rico Medeiros e pelas Gatas na segunda passada. O enredo parece confuso e a letra idem. Mas sua melodia é bem qualificada. Rico Medeiros é o responsável pelo “momento comédia” do disco, ao soltar como caco um “Salgueiro oitentão”.

SÃO CARLOS – Numa bela letra com uma melodia em tom clássico, a Unidos de São Carlos exalta as suas raízes e o orgulho de ser o autêntico berço do samba. O samba é animado e envolvente, com refrões de audição agradabilíssima. Foi o último samba gravado no disco oficial do Grupo Especial por uma mulher (Zaira) antes da gravação de Alcione para Contos de Areia em 2004. Por isso, o samba é cantado num tom bem alto, aproveitando o fato de uma mulher possuir muito mais facilidades no agudo em relação ao homem.

MANGUEIRA – A galera do conjunto musical Juventude Samba Show pareceu não estar muito inspirada na gravação, pois os cantores mostram dificuldades de afinação em inúmeras partes, principalmente ao executar na primeira parte as palavras que terminam em “ia” (poesia, melodia e dia-a-dia), além de não entendermos muito bem o que essa galerinha canta. Mas isso faz o samba parecer bem mais tradicional, pois parece que, no disco, o estamos ouvindo no terreiro ou no barzinho. Destaque para a parte “Mata no peito, dá lençol, faz embaixada/se torce o pé vai rezadeira curar”, de melodia contagiante. O desfile da Manga em 1980 ficou famoso por contar com um Mané Garrincha bastante derrubado em um dos carros alegóricos. A três anos da morte, dizem que ele parecia não saber onde estava, muito menos onde estava seu nariz. Triste fim causado pela bebida para um dos maiores ídolos que o Brasil já teve. Ah, e nunca entendi a expressão “o galho é valete e ás”. Alguém poderia me esclarecer? No geral, o samba da verde-e-rosa de 1980 possui um excelente astral e uma animação cativante.

Textos: Marco Maciel

LP SAMBAS-DE-ENREDO DAS ESCOLAS DE SAMBA DO GRUPO I CARNAVAL 80

Lado A

G.R.E.S. MOCIDADE INDEPENDENTE DE PADRE MIGUEL
“TROPICÁLIA BRASILEIRA”
Autores: Djalma Santos, Arsênio e Domenil
Puxador de Samba: NEY VIANNA

G.R.E.S. IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE
“O QUE QUE A BAHIA TEM”
Autores: Darcy do Nascimento e Dominguinhos do Estácio
Puxador de Samba: DOMINGUINHOS DO ESTÁCIO

G.R.E.S. IMPÉRIO SERRANO
“IMPÉRIO DAS ILUSÕES – ATLÂNTIDA, ELDORADO, SONHO E AVENTURA”
Autores: Durval e Joaquim
Puxador de Samba: DARCY MARAVILHA

G.R.E.S. UNIÃO DA ILHA DO GOVERNADOR
“BOM, BONITO E BARATO”
Autores: Robertinho Devagar, Jorge Ferreira e Edinho Capeta
Puxador de Samba: ROBERTINHO DEVAGAR

G.R.E.S. PORTELA
“HOJE TEM MARMELADA”
Autores: David Corrêa, Norival Reis e Jorge Macedo
Puxador de Samba: DAVID CORRÊA

Lado B

G.R.E.S. BEIJA-FLOR
“O SOL DA MEIA-NOITE – UMA VIAGEM AO PAÍS DAS MARAVILHAS”
Autores: Zé do Maranhão, Wilson Bombeiro e Aluizio
Puxador de Samba: NEGUINHO DA BEIJA-FLOR

G.R.E.S. UNIDOS DE VILA ISABEL
“SONHO DE UM SONHO”
Autores: Martinho da Vila, Rodolpho e Graúna
Intérpretes: MARCOS MORAN E ZÉ CARLOS

G.R.E.S. ACADÊMICOS DO SALGUEIRO
“O BAILAR DOS VENTOS, RELAMPEJOU MAS NÃO CHOVEU”
Autor: Ala dos Compositores
Puxador de Samba: RICO MEDEIROS

G.R.E.S. UNIDOS DE SÃO CARLOS
“DEIXA FALAR”
Autores: Elinto Pires e Sidney da Conceição
Puxador de Samba: ZAIRA

G.R.E.S. ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA
“COISAS NOSSAS”
Autores: Carlos Roberto, Ney da Mangueira e Aylton da Mangueira
Puxador de Samba: JUVENTUDE SAMBA SHOW


AESEG/Top Tape – 85.080, LP

Foto capa:
WILMA DE ANDRADE
Destaque da
G.R.E.S. MOCIDADE INDEPENDENTE DE PADRE MIGUEL
campeã do carnaval de 1979

Foto contra capa:
SONINHA E ROXINHO (G.R.E.S. Mocidade Independente de Padre Miguel)
Porta Bandeira

2 respostas para “SAMBAS-DE-ENREDO DAS ESCOLAS DE SAMBA DO GRUPO I CARNAVAL 80”

  1. Parabéns pelo belo site, sempre será bem vindo trabalho como o seu para nos amantes do bom samba. Pena que não tem com baixar as musicas, quem sabe em breve rsrsrrsrsrs.

    Ricardo tabosa

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