SOM PIXINGUINHA 1971, Odeon

Tradicional, moderno, “da pesada”, eterno — Pixinguinha é classificado de todas as formas pelas correntes as mais diversas da nossa música popular. Uma opinião é unânime: o velho é um gênio. E este disco pretende ser um tributo à genialidade de Alfredo da Rocha Vianna Junior, nascido em 23 de abril (dia de São Jorge) de 1898 no Rio de Janeiro. Nome de rua em Olaria, cadeira cativa (com placa e tudo) na uisqueria Gouveia, espécie de escritório onde dá expediente firme, curtido em uísque, no mais puro estado de enlevação e tranqüilidade.

Esse é Pizindin: compositor, maestro, instrumentista, professor, homem que formou importantes conjuntos e orquestras, que compôs para filmes e revistas, e também música litúrgica, um inovador a cada época, e um santo constantemente enternecido com essa geração que acredita num som brasileiro e universal. Esse é Pizindin venerado por Tom, Caetano, Edu, Milton, Baden (acaba de gravar em Paris um LP só de Pixinga e Garôto), Vinícius — esses iluminados. Quando o disco foi proposto, fui buscar Orlando Silveira. Seu nome, levado ao santo, só o fez entusiasmar. Porque esse maestro extraordinário tem suas raízes nessa música que veio de Anacleto e Nazareth, e se despejou em Pixinga. O arquivo lá de casa foi vasculhado. Uma fita ligada de Sérgio Pôrto e alguns discos de meu arquivo foram o ponto de partida para o trabalho. Depois, fomos à casa de Pixinguinha, onde reviramos os seus guardados, e nos assustamos com o que ainda está inédito. Sentimos de pronto que não haveria sentido de se gravar todas as peças dentro dos chamados padrões tradicionais, já que a obra do mestre é totalmente aberta à invenção (uma tônica aliás dos chorões da antiga) e densa de sugestões, forte estimulante. Somente três arranjos no disco: um de Pixinga (“Carinhoso”) e dois de Orlando (“Samba Fúnebre” e “De mal pra pior”). De resto, tiraram-se cópias dos originais que foram distribuídas com indicações para intervenções solistas. Vocês vão sentir a presença de músicos sensacionais ao longo desse LP. Vamos lá: Altamiro Carrilho (flauta e flautim); José Menezes (bandolim, viola de 12 cordas, banjo, contrabaixo elétrico); Netinho (sax soprano); Salvador (órgão e piano); Geraldo Vespar (violão e guitarra elétrica com efeitos de distorção); Mamão e Juquinha (bateria); Orlando Silveira não ficou de fora e comparece de acordeom); Tião Marinho (baixo elétrico); Luna (tumbadora, sino, reco-reco, agogô); Marçal (ritmo em geral); Pedro Sorongo (bambu eletrônico, colher, etc.); violões de Dino (7 cordas) e Meira; Canhoto (cavaquinho) e, em algumas faixas o próprio Pixinga no seu sax tenor.

Fx. A1 — “1 x 0” (2’02). Choro composto mais ou menos em 26/27, e imortalizado em disco gravado em 12 de junho de 1946, com o duo Pixinguinha e Benedito Lacerda. Feito em homenagem a um gol de Friedenreich, o Pelé da época. A introdução feita por Pixinga foge às versões anteriores do choro que ele classifica de “buliçoso”. Fx. A2 — “DESPREZADO” (3’35). “Um choro sentimental”, classifica o autor. Inédito em disco, foi composto mais ou menos em 50. Fx. A3 — “O GATO E O CANÁRIO” (1’31). Quando Pixinga fez o choro, foi pensando em um diálogo com seu sax (o gato) e a flauta de Benedito (o canário). A música, levada ao disco em 49, faz parte de uma série de 17, gravada pela dupla. Fx. A4 — “SAMBA FÚNEBRE” (1’30). Veio a minhas mãos há uns três anos, pra eu botar letra. Pixinga entra choroso no seu sax. Do filme “Sol sobre a lama”, para o qual Pixinga escreveu uma trilha sonora desesperadamente linda, curtida com muita assiduidade por meu irmão Ricardo Coração de Cavalo Albin, numa fita que por descuido dele acabei copiando. O filme é de Alex Viany, e, ouvindo lá em casa a fita o velho não agüentou. Choradeira a dois. A letra é de Vinícius. O coro é de Joab, e no arranjo de Orlando encontramos duas flautas (Altamiro e Copinha), 2 sax sopranos (Paulo Moura e Netinho), 2 trompetes (Eraldo e Maurílio), trom-bone (Norato), fagote (Noel Devas), trompas (Ary e Zdevek Sváb); seção de cordas, e mais toda a patota efetiva do disco. Nota: A música foi feita antes da letra e está sendo gravada pela primeira vez. Fx. A5 — “GARGALHADA” (2’42). Schotisch tocado em 1922 por Pixinga em Paris, durante a temporada dos 8 Batutas. Essas “variações” (está na partitura original) foram classificadas como música erudita pelos críticos franceses. Altamiro consegue extrair todas as intenções do autor, inclusive imitando um diálogo de flautas na 3a parte, efeito esse obtido em oitavas. Fx. A6 – “URUBATAN” (2’24). Um choro macumbeiro, explica Pixinga, chamando atenção para os primeiros compassos da obra, com sua intenção fetichista. Urubatan, palavra africana, designa um pássaro. Composição de 1929. Pixinguinha comparece com seu sax. Fx. A7 — “PULA SAPO” (1’55). A polka é inédita em disco, e tem sua história. Pixinga estava meio chumbado, e com uma pistola calibre 32, atirou num sapo, e caiu depois numa tremenda prostração. A partir daí, matou mais bicho nenhum, e acabou prestando homenagem ao falecido, compondo esta polka. Fx. B1 — “CARINHOSO” (8’07). Choro estilizado composto em 1917, e que na época classificaram como “americanizado”. A obra ficou guardada até 1937, quando Orlando Silva a gravou, com versos de João de Barro. O arranjo é de 1938, e foi escrito especialmente para o aniversário da Rádio Mayrink Veiga, não tendo sido jamais gravado. Daí a designação pomposa: “arranjo sinfônico”. Considerado excessivamente avançado para a época, revela o orquestrador Pixinguinha manejando nobremente com timbres, audaciosos nas modulações que propõe com uma graça e malícia inigualáveis, e com alternações rítmicas um tanto raras na época. A circunstância cerimoniosa que impôs tal “arranjo sinfônico”, nos dá elementos para analisar esse outro Pixinga que poucos conhecem, o inovador e estudioso que sempre foi. As sétimas diminutas e as nonas aumentadas, por ele utilizadas então, eram estranhas ao processo da época. Mas Pixinga, tendo que escrever “quadros” para as revistas da época, era obrigado a conhecer os processos musicais de todos os países de cultura diferente da nossa. Na música oriental, por exemplo, onde são freqüentes os quartos de tons, ele aprendeu a se descontrair no campo harmônico, sendo dos primeiros a orquestrar com essa harmonização, hoje freqüente em nossa música popular. Aliás, aos 15 anos começou a orquestrar (aos 13 já tocava numa casa de chopp…). Harmonia, contraponto, canto orfeônico — todos esses conhecimentos ele passou a ter através das lições de Paulo Silva e Irineu Batina. Partiu daí para criar uma indiscutível “escola Pixinguinha”, absolutamente original e brasileira. 9 violinos, 2 violas, 2 celos, flauta, flautim, oboé (Limonge), fagote, clarineta (Jorginho), 2 trompetes, 2 trompas, trombone, 2 sax altos, sax tenor (Walter Rosa) — e mais a turma efetiva. Nos bastidores, em diversas ocasiões, o arranjo foi bastante curtido pela turma da casa, inclusive Marcos Valle, Zé Rodrix, a Brazuca, Pery Ribeiro. Fx. B2 — “DE MAL PRA PIOR” (2’33). Samba de gafiera, da trilha do “Sol sobre a lama”. Pixinga pediu para eu botar letra, coisa simples, sem rebuscamento. Côro de Joab, arranjo de Orlando, mais dois trumpetes, 2 sopranos, com Gilberto e Norato nos trombones — e a turma de sempre. Inédito em disco. Fx. B/3 — “ODEON” (2’27). Homenagem de Pixinha à gravadora e a Nazareth. O Santo relutou em tocar seu sax: achava que nada tinha a acrescentar. Fx B/4 — “VARIAÇÕES SÔBRE O TEMA DO URUBU” (3’20). Uma tremenda covardia de Pixinga, a de passar pra partitura as variações que executava na flauta, sôbre o tema encontrado em Campos, em princípios do século (obrigado Ary Vasconcelos!) pelo clarinetista Malaquias “Diga ao Pixinga que não mudei uma só nota do que ele escreveu” — falou Altamiro depois de enfrentar o verdadeiro “trem” (a partitura teve que ser estendida em 3 estantes). Nos três ambientes convencionais de bôca, Altamiro (“Santo Deus, essa nem o Rampal” — berrou Pery, ao escutar a fita) se fez acompanhar pela turma de sempre. Num seis-por-oito, entra o bambu eletrônico de Pedro Sorongo. Depois é uma lenha, inclusive com Vespar e seu “Zé Rouquinha” (apelido da guitarra elétrica, com efeitos de distroção). Zorra total e absoluta. Aí o disco termina com Pixinga dizendo que não entra mais em estúdio, quer é ficar tocando nas rodas de chôro, fazendo música pra sua igreja, curtindo seu uisque no Gouveia. No último dia chega o poeta Paulo Cesar Pinheiro: o abraço dos três foi aquele buá. O Patriarca que fornece o som a mais do que livre e liberto diz que esta cansado , mas puxa um riso frouxo e satisfeito ouivindo as provas. “Em Paris, Pixinguinha é Deus” — diz o poeta. Orlando pede pra escrever um recado: “Pixinga nós te agradecemos por tudo aquilo que tu fundaste pra nós. Isso tudo que estamos fazendo devemos a ti”. Por motivos mais do que óbvios, este LP é dedicado a Jacob do bandolim, aquele que, pra morrer, foi pedir a bênção ao seu santo.

Hermínio Bello de Carvalho
contracapa

SOM PIXINGUINHA - 1971

LADO A

  1. 1 x O
  2. DESPREZADO
  3. O GATO E O CANÁRIO
  4. SAMBA FÚNEBRE
  5. GARGALHADA
  6. URUBATAN
  7. PULA SAPO

LADO B

  1. CARINHOSO
  2. DE MAL PRA PIOR
  3. ODEON
  4. SAMBA DO URUBU

Odeon – MOFB 3671, LP

PRODUTOR FONOGRÁFICO: I. E. M. Fábrica Odeon S.A.
Equipe de prod. artístico-fonográfica realizadora deste disco:

DIRETOR DE PRODUÇÃO: Milton Miranda
DIRETOR MUSICAL: Lyrio Panicali
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO: Hermínio Bello de Carvalho
ORQUESTRADOR REGENTE: Maestro Orlando Silveira
DIRETOR TÉCNICO: Z. J. Merky
TÉCNICOS DE GRAVAÇÃO: Nivaldo, Jorge, Zilmar
TÉCNICO DE LABORATÓRIO: Reny R. Lippi
LAY-OUT E FOTO: Fernando Azevedo

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