TRIO CALAFRIO | 2003, Rob Digital

Se dependesse das intenções dos grandes conglomerados que hoje ditam a regra no mercado mundial do entretenimento, a música popular brasileira seria, toda ela, igualzinha à de todo o mundo: o mesmo play-back, o mesmo romantismo infantil e sexualizado, as mesmas letras sem conteúdo. Música que faça parar, refletir, tirar conclusões? Neca de pitibinéris! Nem pensar!

Pois são essas intenções muito bem esquematizadas, num plano estratégico que visa à vampirização da melhor música do planeta para transformá-la num caldo só, insípido, inodoro e incolor; são essas estratégias que absorvem o discurso naturalmente agressivo do gueto mas calçando-lhe um reebok, um nike ou um mizuno desses aí, e jogam o samba pra escanteio – porque o samba gosta mesmo é de calça da “boca do linho”, no Campo de São Cristóvão; de pisante do Souza ou do Motinha; e “cobertura” da Chapelaria Porto, na Senador Pompeu.

Pois as corporations não são trouxas. E, do gueto, só absorvem o discurso que pode dar uma mãozinha nos seus negócios. Inclusive o da violência urbana e da guerra como um todo. O discurso que corrói por baixo e por dentro, mesmo; esse que os romanos já temiam; que ao mesmo tempo diverte, educa e destrói (o que não presta)… Esse não! Pelo amor de Dólar!

Num país em que as concessões de radiodifusão são feudos intocáveis, uma parabólica trazida pelo temporal, e que o malandro fincou no barraco na maior cara de pau, vale mais do que 500 projetos de lei sobre a democratização dos meios de comunicação. Da mesma forma que o “Samba do Jeton” instrui as discussões sobre a reforma previdenciária. E na mesma medida que a história da Mary Lou – que, com os cacarecos que ganhou das patroas bacanas, montou um antiquário – vale mais como dica de ascensão econômica do que qualquer manual do SEBRAE.

E, na hora que a barriga ronca? Fazer o quê? Meter bronca, claro! Mas sem apelar pra ignorância. E dando aula de criatividade.

Pois criatividade (a ponto até de se comunicarem numa linguagem toda própria e pessoal,) é o que não falta ao Trio Calafrio – cujo nome, aliás, nasceu da inventiva de outro brilhante filho da periferia: Zeca Pagodinho.
O motorista de táxi Luiz Grande, bamba da Imperatriz Leopoldinense, é um dos grandes estilistas do samba. Seu jeito peculiar de compor, com ênfase no sincopado, está presente em antológicas gravações do saudoso João Nogueira, como naquele suingado “por onde andará Maria Rita?” ainda nos anos 70. Já Barbeirinho (cujo apelido é mais que uma carteira do Ministério do Trabalho), letrista de rara inventiva, cavaquinista esperto e cria dos Unidos Jacarezinho, chegou depois mas chegou bonito, principalmente na voz de Zeca Pagodinho. E na lateral esquerda, Marcos Diniz, irmão de Mauro e filho de Monarco, de quem herdou a bela voz; e, como o pai, fazendo a ponte melódica entre o Jacarezinho e Osvaldo Cruz, de maneira tão poética quanto irônica e tão sarcástica quanto lírica.

Enfim, o que é preciso dizer é que botar o dedo na ferida , sacaneando, debochando do opressor e se possível passando a mão na bunda dele, incomoda muito mais do que latir na cara de quem tenta nos excluir e anular. E esse é o grande lance do Trio Calafrio. Que sabe fazer samba romântico também; e dançante, como, por exemplo, os gostosíssimos Pouco Importa a Tranca (um espontâneo samba-jazz !) e Mary Lu, vestidos para o baile pelo suíngue e a sensibilidade dos grandes Leandro Braga e Itamar Assiere.

O íntegro Paulinho Albuquerque, amigo do samba e do sambista, que vai de New Orleans a Seropédica sem se perder, teve a clareza de se cercar de alguns dos melhores músicos da atualidade brasileira. Sem Berklee, sem Los Angeles, sem babaquice, desfilam por este disco timbres, sons e nuances rítmicas na medida. Como requer a brasilidade e a inventiva do Trio Calafrio.
Este é pois um disco ímpar. No qual as palavras-chave são: criatividade e identidade.

E aí eu me lembro que, noutro dia, numa entrevista sobre um grupo de rap caribenho que estão querendo transformar em bola da vez, um marqueteiro de gravadora disse: “Está difícil! Eles são muito latinos para o mercado do rap e muito rappers para o mercado da música latina!”.
Não é engraçado?
Nei Lopes – Janeiro, 2003

Repertório

“Partido em três” soa como referência ao grupo e a irreverente “CPI dos perucas de touro” já dá as cartas do sarcasmo lírico: “A Associação dos Maridos Traídos vai condecorar o Louro/ A ave falante foi muito importante na CPI dos perucas de Touro”. Um legítimo samba sacana e debochado que fala fundo no peito do desespero masculino.
“Aos caprichos da lira” é um pedido de licença para os pioneiros do samba: “E sem querer rebuscar o que já fez Cartola, Paulo da Portela e Noel/ Eu que sou um fiel seguidor e estou sempre ao dispor aos caprichos da lira/ Principalmente se o tema é de amor como um bom sonhador isso bem me inspira”.
“Deixa de marra” é um samba possuído, com o piano elétrico suingado de Itamar Assiere, um capricho único típico de suas gravações. “Deixa de marra e vem sambar” toma conta do baile, um misto de partido-alto com sonoridade cinco estrelas.
O baile continua em “Pouco importa a tranca” com naipe de metais que nos leva aos clubes dos anos 1970 e 1980, no melhor estilo suingue, samba-rock.
“Dona esponja” vem com referências à macumba, na sonoridade e letra, mas de maneira engraçada, criando uma personagem cheia de símbolos e vícios. A música foi gravada também pelo padrinho Zeca Pagodinho. “Cambono Aba” segue nessa linha hilariante e descreve aquele tipo tão comum hoje dia, o caboclo que usa a religião para explorar os outros.
O tema “bebida” volta em “Carquejo”, a luta de um bom marido para parar de beber Carquejo, uma espécie de cachaça com a erva Carqueja.
“Vai buscar meu banjo” é um pagode auto-referente que traz detalhes de uma roda de samba e mostra a rivalidade entre os compositores.
Os sucessos com Zeca Pagodinho “Conflito”, “Parabólica” e “Mary Lu” aparecem no disco em pout pourri quentíssimo com metais em brasa.
“Na hora que a barriga ronca” exalta o poder da “A minha nega é milagrosa na cozinha” que faz acontecer e “multiplica” a comida dentro de casa. “Maria Alice” continua com o tema caseiro e marca o romantismo no disco.
“Embrulho” e “Jeton” fecham o trabalho com o toque pra cima. Aliás, “Jeton” faz uma crítica sacana à carreira do político profissional: “Eu quero aposentar em dois mandatos/ E nas eleições que vem serei mais um candidato”.

Enfim, o Trio Calafrio faz crítica, esculhamba, é sarcástico e ao mesmo tempo poético, romântico e muito bem acabado. Acima de tudo, o disco é muito bem trabalhado por Paulinho Albuquerque e o trio Rodrigo Lopes, Fabio Henriques e André Coelho, que tiram os melhores timbres, sons e nuances rítmicas. Um trabalho precioso no conteúdo e na forma

CD Trio Calafrio | Rob Digital, 2003

  1. PARTIDO EM TRÊS
  2. CPI DOS PERUCAS DE TOURO
  3. AOS CAPRICHOS DA LIRA
  4. DEIXA DE MARRA
  5. POUCO IMPORTA A TRANCA
  6. DONA ESPONJA
  7. VAI BUSCAR O MEU BANJO
  8. CARQUEJO
  9. CONFLITO/PARABÓLICA/MARY LU
  10. NA HORA QUE A BARRIGA RONCA
  11. MARIA ALICE
  12. CAMBONO ABA
  13. EMBRULHO
  14. JETON

Rob Digital – CD 006

Todas as composições foram feitas pelo trio: Barbeirinho do Jacarezinho, Marcos Diniz e Luiz Grande, exceto: Conflito (Barbeirinho do Jacarezinho e Marcos Diniz) e Mary Lu (Barbeirinho do Jacarezinho e Luiz Grande)
Produção Artística: Paulinho Albuquerque
Técnicos de gravação: Rodrigo Lopes, Fabio Henriques, André Coelho
Gravado e mixado em Pro Tools 24 Mix nos Studios Discover – Rio de Janeiro
Técnico de mixagem: Guilherme Reis
Masterização: Pro-Master/Sergio Murilo
Projeto Gráfico: Pós Imagem Design
Direção de arte: Ricardo Leite e Rafael Ayres
Designer: Eduardo Varela
Fotos: Bruno Veiga
Texto de encarte: Nei Lopes
Arranjos: Leandro Braga, Itamar Assiere, Wanderson Martins, Claudio Jorge
Músicos: Cláudio Jorge (violão), Carlinhos Sete Cordas, Itamar Assiere (piano e arranjo), Marcio Almeida (cavaquinho), Jorge Helder (baixo) e Jorge Gomes (bateria), Pirulito, Armando Marçal, Ovídio Brito e Marcelinho Moreira (percussão).

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