XANGÔ* CHÃO DA MANGUEIRA 1982, Tapecar

Quem é de samba tem de ficar sabendo, e quem não é tem que se ligar e ninguém melhor que Xangô da Mangueira para ensinar as artes do Samba Puro.

OLIVÉRIO FERREIRA (XANGÔ), nasceu no Estácio, terra de bamba e de samba, no ano de 1923. Seu pai, paulista e sua mãe, mineira, eram descendentes diretos de negro da Nação Bantu. Pisar no chão do Estácio, dá bastante ginga para qualquer um e, evidentemente, o menino Xangô já nasceu com vantagem.

Ainda muito pequeno foi residir numa cidadezinha do interior do Estado, e lá conheceu, brincou e respeitou o jongo e os jongueiros. Ainda na sua adolescência pisou nas terras de Madureira, Osvaldo Cruz e adjacências. Naquela cena suburbana, o nosso rapaz sacou a jogada dos pagodeiros e dos professores das escolas de samba. Aluno aplicado, aprendeu e ampliou seus conhecimentos na Unidos de Rocha Miranda, União de Madureira, Portela e Lira do Amor. O estágio nos subúrbios da Central e da Linha Auxiliar foi bastante proveitoso.

As rodas de batucadas, na Praça Onze, nos dias de carnaval, e no terreiro da Igreja da Penha, no mês de outubro, sempre foram freqüentados por Xangô. Os batuqueiros e as pastoras abriam a roda, batiam palmas e cantavam o refrão do partido e a voz forte do pagodeiro improvisava os versos cheios de remandióla. Os bambas das mais variadas camadas do samba puro cantavam e aclamavam em alto o nome de Xangô.

Sua fama correu chão e o samba de Mangueira falou mais alto no coração do nosso herói. Na verde e rosa, com os ensinamentos do velho Marcelino e de Cartola, tornou-se bacharel do samba. Um dia, Cartola cansou e, para descansar, passou o bastão de diretor de harmonia para Xangô. Isso aconteceu há 26 anos passados, o homem já sabia de tudo em relação à matéria. Várias modificações foram e estão sendo introduzidas pelo mestre da harmonia na Mangueira. A velha escola, que antigamente desfilava em fila indiana, passou a desfilar em blocos, dando uma nova visão ao espectador. Criou a ala de passistas, que se destaca pela individualidade de seus componentes, e orientou a nova formação das baianas.

Da quadra da Mangueira, para a passarela de desfile, o caminho já era bastante conhecido pelo velho partideiro. Os palcos requisitaram a presença de Xangô, os teatros e as boates do Rio, São Paulo, Minas Gerais e outros Estados se iluminaram para receber o bom sambista. Sua fama chegou até o exterior e o homem viajou e se apresentou em várias capitais da América do Sul e da Europa, levando seus títulos e sua sabedoria, alegrando o mais exigente público. “Magnífico do Samba”, “Cidadão Samba”, e este ano “Rei do Samba”, são alguns dos títulos que lhe foram outorgados. O último, por exemplo, foi consignado por aclamação.

Este disco é o mais importaste da série que Xangô gravou. Jorge Coutinho, conhecendo profundamente as origens musicais do partideiro, esmerou-se na escolha das composições que integram as faixas do LP. E, com igual cuidado, arregimentou os músicos.

“Isso Não São Horas” é um partido-alto de Catone da Portela. Gravado ao vivo, mantém todo clima dos festejos do mês de outubro da roda de batucadas da Praça XI, dos anos vinte até cinqüenta. Zagaia, Catone e Xangô improvisam os versos; Rogério e Pimpolho cruzam os pandeiros; as mineiras Mati e Malú e a descendente de jongueiro, Ivone Lara, cantam em coro o refrão, e o Conjunto Exporta Samba segura o ritmo e a harmonia. Participam das outras faixas do disco Agostinho Silva no acordeon, bem acalangado; Caboclinho no atabaque enraizado; Bezerra da Silva na tumbadora cheia de balanço; Cabelinho no tamborim malicioso e Pedro Sorongo detalhou “Festa de Santo Antônio”, de Ivone Lara.

Nestes 53 anos, durante toda sua trajetória, emanando as raízes quase perdidas do partido alto, calango e jongo, Xangô Chão da Mangueira transmite toda sua vivência.
Ruben Confete (contracapa)

Xangô Da Mangueira – Chão Da Mangueira (Tapecar – TC-097 - Vinyl, LP, Album, Stereo, 1982)

LADO 1

  1. MINEIRO, MINEIRO
    (Rubens da Mangueira/Ivan Carlos)
  2. VOCÊ NÃO É NÃO
    (Alcides da Portela/Xangô da Mangueira)
  3. A GENTE COM BRIGA NÃO CHEGA LÁ
    (Catoni/Durval/Neri/Jabolô)
  4. O PAGODE LEVANTA A POEIRA
    (Jorge Zagaia/Xangô da Mangueira)
  5. AMARALINA
    (Xangô da Mangueira/Waldomiro do Candomblé)
  6. FESTA DE SANTO ANTÔNIO
    (Yvone Lara)

LADO 2

  1. CATIMBÓ
    (Xangô da Mangueira/Waldomiro do Candomblé)
  2. PORQUE VOCÊ NÃO FOI
    (Babaú da Mangueira)
  3. VIOLA DE PINHO
    (Geraldo Babão)
  4. HARMONIA BONITA
    (Xangô da Mangueira)
  5. E CANTADOR
    (Xangô da Mangueira/Baianinho)
  6. ISSO NÃO SÃO HORAS
    (Catoni/Xangô da Mangueira)

Tapecar LP-TC 097, LP

FICHA TÉCNICA:
Produtor Fonográfico: TAPECAR GRAVAÇÕES S.A.
Direção de Produção: JORGE COUTINHO
Coordenação: JOSÉ XAVIER
Técnico de Gravação/Mixagem: ORLANDO COSTA
Corte: AMÉRICO
Capa: CHICO BRAHMMA
Foto: ALEXANDRE DE SOUZA LIMA
Participação Especial: CONJUNTO EXPORTA SAMBA

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