Rosa de Ouro

Rosa de Ouro

Gerado no Zicartola e primo do Opinião, Rosa de Ouro, foi um estandarte do samba e da música brasileira “profunda”, quando reinavam nas rádios a Bossa Nova e o incipiente Iê-iê-iê. Este álbum é a trilha sonora do espetáculo musical apresentado no Teatro Jovem, RJ, criado e dirigido por Hermínio Bello de Carvalho. Gravado em 8 e 9 de junho de 1965. 

Começou no Teatro, quando Hermínio Bello de Carvalho e Élton Medeiros conceberam juntar no palco Aracy Côrtes, diva do Teatro de Revista e musa de Noel, e a fenomenal Clementina de Jesus, recém descoberta. Além de revelar “Quelé” e contar com Anescar do Salgueiro (Nescarzinho) e Jair do Cavaquinho o bem sucedido projeto teve longa trajetória, e sacramentou as carreiras musicais de Nelson Sargento e Paulinho da Viola que arriscavam seguir a profissão, respectivamente, de pintor de paredes e bancário.

Rosa de Ouro – História

No Rio de meados dos anos 60, o samba estava naquela base do “agoniza, mas não morre”, como na canção de Nelson Sargento. Vínhamos do estouro da bossa nova, gêneros estrangeiros dominavam as rádios e a nova preferência nacional, surgida em meados daquela década, viria a ser a Jovem Guarda.

Fundado em 1963, um foco de resistência pequenino, mas luminoso, foi o Zicartola: em um sobrado na Rua dos Andradas, 81, Dona Zica cuidava das panelas, enquanto seu marido, o glorioso Cartola, comandava as rodas de samba ao anoitecer, ao lado de companheiros do naipe de Zé Keti, Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros.

O agito acontecia no segundo andar e o casal dormia no terceiro, num esquema amador delicioso para quem testemunhou, mas terrível para os negócios. Admirador do lugar e dos seus proprietários, frequentador e colaborador assíduo, o poeta Hermínio Bello de Carvalho inspirou-se no fugaz empreendimento de Cartola e Zica para conceber, ao lado de Kleber Santos, o musical Rosa de Ouro.

A previsão inicial de um mês de temporada no Teatro Jovem, então na Praia de Botafogo, 522, estendeu-se para um ano. Foram agendadas apresentações em São Paulo e na Bahia, antes da volta da montagem ao mesmo teatro carioca, em 1967. Dois LPs históricos foram lançados para marcar cada uma das temporadas no Rio.

Essa apoteose do samba reunia no palco uma antiga estrela do teatro de revista, Aracy Côrtes (1904-1985), e uma senhora de 63 anos, mas estreante, um talento descoberto por Hermínio chamado Clementina de Jesus .

Além das duas damas, entravam em cena Paulinho da Viola, então um jovem bancário que havia debutado pouco tempo antes, no Zicartola, além de quatro craques mais cascudos oriundos de Escolas de Samba cariocas: Elton Medeiros (Aprendizes de Lucas), Anescar do Salgueiro (1929-2000), o portelense Jair do Cavaquinho (1922-2006) e Nelson Sargento, baluarte da Mangueira.

O espetáculo, um passeio pela história da música brasileira, tornou-se um marco, como já intuía o jornalista Sérgio Cabral, autor do texto publicado no encarte de – ROSA DE OURO – , o LP lançado em 1965, transcrito a seguir:

Rosa de Ouro – Contracapa

Sendo a maior contribuição da nossa música popular ao teatro, e vice-versa, Rosa de Ouro aponta também o caminho para que se consagre o casamento definitivo entre os dois: o caminho da simplicidade e da vontade de procurar o que há de melhor neste canteiro da arte popular bela e pura que é Rio de Janeiro. De Rosa de Ouro, o magnífico espetáculo que o poeta Hermínio Bello de Carvalho idealizou e dirigiu e que Kleber Santos produziu para o Teatro Jovem, há muita coisa que se dizer: revelou, aos 63 anos, uma das mais autênticas e talentosas cantoras brasileiras, Clementina de Jesus, possibilitou o reencontro com o público da maior estrela de revista dos nossos palcos, Aracy Cortes; lançou o mais representativo conjunto vocal dos morros cariocas (é formado por compositores das escolas de samba Estação Primeira, Portela, Acadêmicos do Salgueiro e Aprendizes de Lucas). Muita coisa a mais seria para dizer sobre Rosa de Ouro, mas a Odeon se encarregou de exprimir-se melhor, dando uma bela síntese do espetáculo neste disco , e a imprensa carioca já usou todos os adjetivos possíveis para demonstrar o seu valor.

Sergio Cabral

“Um dos mais belos espetáculos da cidade, no momento” (ENEIDA, Diário de Noticias) – “Um avanço na conquista de uma arte eminentemente brasileira” (ANTÔNIO OLINTO, O Globo) – “Rosa é de ouro mesmo. É um retrato vibrante da música carioca e daqueles que cultivam e sustentam no seio do povo” (J.J & J. Correio da Manhã) – “Não percam este espetáculo, pois durante mais 400 anos não haverá outro igual” (HUGO DUPIN, Diário de Noticias) – “Em matéria de musical, sobre o samba, é incomparável” (HÉLIO FERNANDES, Tribuna da Imprensa) – “O espetáculo é vivamente aconselhável a todos os que acreditam na música” (RENZO MASSARANI, Jornal do Brasil) – “Espetáculo de excepcional valor por sua fidelidade à música brasileira, e ao samba em especial” (JOSÉ CARLOS RÊGO, Última Hora) – “Aracy Côrtes reaparece magnifica. É comovente o seu desembaraço, diante da emoção mal disfarçada da platéia” (JOSÉ CARLOS OLIVEIRA, Jornal do Brasil) – “Rosa de Ouro” desabrocha hoje, glorificando a música popular brasileira. (JOTA EFEGÊ, O Jornal) – “O que é bom já nasce feito, e Rosa de Ouro já estreou dando o que falar. (revista Visão) – É mais brasileiro o que se vê em espetáculos como Rosa de Ouro que qualquer desfile carnavalesco em passarela de avenida” (LUISA BARRETO LEITE, Jornal do Comércio) – “Um espetáculo que merece ser assistido por todos os que têm algum carinho pela música popular brasileira” (MAURO IVAN / JUVENAL PORTELLA, Jornal do Brasil) – “O que lhes posso dizer sobre a interpretação dessa fabulosa Aracy Côrtes? Possui uma força prodigiosa que – tenho a certeza – só as grandes atrizes possuem” (FAUSTO WOLFF, Tribuna da Imprensa) – “Não nos parece exagerado dizer que, através do ensino da música popular carioca, Rosa de Ouro nos ensina uma matéria bem mais ampla: a de melhor conhecer e amar a terra e o povo do Rio de Janeiro” (YAN MICHALSKI, Jornal do Brasil) – “Uma Rosa que vale ouro. Uma rosa tão rara numa época de alienação e mediocridade, uma rosa de ouro dessas não pode morrer tão cedo” (J. RAMOS TINHORÃO, Diário Carioca) – “Surpreendente a interpretação de Os rouxinóis por Aracy Côrtes” (MÁRIO CABRAL, Tribuna da Imprensa) – “Quem quiser descobrir o samba puro, terá que ir uma noite dessas ao Teatro Jovem. Aracy e Clementina: são duas rainhas no espetáculo, que recomendo como capaz de proporcionar as mais gratas satisfações neste inicio de temporada” (GERALDO QUEIROZ, O Globo) – “É uma verdadeira ressurreição da mais genuína música popular brasileira o que vem suscitando Herminio Bello de Carvalho no Teatro Jovem” (EURICO NOGUEIRA FRANÇA, Correio da Manhã).

OBS – No espetáculo, servindo de elementos de ligação entre os números musicais, foram transmitidos depoimentos nas vozes de Almirante, Cartola, Carlos Cachaça, Donga, Ismael Silva, Pixinguinha, Sérgio Pôrto, Mário Cabral, Sérgio Cabral, Lúcio Rangel e Jota Efegê.

Aproveitando a publicação do elepê e seguindo o espírito do blog — SAMBADERAIZ, BLOG AONDE VOCÊ LÊ E OUVE SAMBA! — transcrevo a seguir um texto publicado no jornal O Globo, em 21 de setembro de 1993, assinado por Mauro Ferreira sobre o álbum, trechos de uma entrevista concedida por Hermínio Bello de Carvalho, na parte em que ele aborda o espetáculo que veio a dar origem a esse disco e por fim, um texto da Enciclopédia Itaú Cultural bem elucidativo.

Quando as rosas exalam bom samba

No começo dos anos 60, o samba agonizava num mercado dominado pela estética bossa novista. Coube ao bar Zicartola, inaugurado em 1963, na Rua da Carioca, atuar como polo de resistência cultural, trazendo à tona compositores que cultuavam o samba mais tradicional . Freqüentadora do Zicartola, Nara Leão quebrou tabus quando, em 1964, lançou um disco onde gravava nomes como Zé Keti, João do Vale e Nelson Cavaquinho. Foi a deixa para que, no ano seguinte surgisse o musical “Rosa de Ouro”, um show de Hermínio Bello de Carvalho que reunia Clementina de Jesus — descoberta pelo próprio Hermínio — Aracy Cortes, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Nelson Sargento e Anescarzinho do Salgueiro.

O sucesso foi tanto que, em 1967, houve uma reedição do espetáculo, com o mesmo elenco cantando outro repertório (elepê Rosa de Ouro n. 2). Ambos os shows viraram disco, aliás, dois belos álbuns que agora estão sendo relançados num único CD, dentro da série “Dois em um”.

Espetáculo de excepcional valor por sua fidelidade à música brasileira, e ao samba em especial

JOSÉ CARLOS RÊGO, Última Hora

“Rosa de Ouro” representou, antes de mais nada, a afirmação de Clementina de Jesus. Com sua voz seminal, Clementina era a intérprete perfeita para um espetáculo que pretendia reerguer as raízes do samba perante a intelectualidade da época, então deslumbrada com os acordes de João Gilberto. No disco, a sambista, morta em 1987, canta a folclórica “Benguelê”, que se tornaria uma de suas marcas — além, é óbvio, do partido “Clementina, Cadê Você?

Aracy Cortes, estrela do teatro de revista nos anos 30, também saiu do ostracismo com o “Rosa de Ouro” (ela foi “apresentada” a Hermínio pelo cronista musical Jota Efege). O tom operístico das interpretações de Aracy já era considerado arcaico na época, mas a cantora funcionou como o contraponto ideal para os vocais afros de Clementina. No “Rosa de Ouro vol. l”, ela tem atuação destacada em faixas como “Ai Yoyô (Linda Flor)”.

O time que acompanhava Aracy e Clementina no “Rosa de Ouro” é digno de figurar em qualquer seleção de sambistas. Paulinho da Viola já despontava com sua elegância. Ele é parceiro de Elton Medeiros e Hermínio na música que deu título ao espetáculo. A juventude de Paulinho e Elton foi aliada à experiência valiosa de Nelson Sargento. Anescarzinho do Salgueiro e Jair do Cavaquinho. Mais do que reedições, os álbuns do “Rosa de Ouro” têm valor documental, pois registram o valor de um gênero que hoje chega ao público de forma deturpada, através do chamado “samba paulista” — também conhecido como “balanço” ou “suingue”. O momento exige “Rosa de Ouro” — e com urgência.

Hermínio Bello de Carvalho

Produtor musical, poeta e agitador cultural

Os nomes que acompanham a carreira do compositor, poeta e produtor Hermínio Bello de Carvalho são luminosos: Elizeth Cardoso, Pixinguinha, Cartola, Clementina de Jesus e Carlos Drummond de Andrade. É tão apaixonado por música que, por muito tempo, acreditou ter sido espectador de Villa-Lobos em concertos no Vasco da Gama, o que nunca foi. E, sim, os irmãos mais velhos. “Menti desbragadamente nas minhas entrevistas, sem saber que estava mentindo.” Mas Hermínio sabe o que fala quando o assunto é música brasileira, suas raízes e seus frutos. “Minha percepção é mais aguda para o que é estranho, o que não está codificado pela indústria.

Hermínio fez um trabalho marcante no comando da divisão de música da Fundação Nacional da Arte (Funarte), entre os anos 70 e 80, quando lançou o Projeto Pixinguinha, voltado para a formação de novas plateias. A fórmula simples de unir um músico reconhecido e outro novato no palco gerou encontros históricos. É dele também a estonteante produção do espetáculo Rosa de Ouro, em 1965. Reuniram-se em palco nu, com roteiro informal, os talentos de Aracy Cortes, Clementina, Nelson Sargento, Elton Medeiros, Paulinho da Viola, Anescarzinho do Salgueiro e Jair do Cavaquinho.

Aos 75 anos, Hermínio mora no último andar de um prédio antigo e charmoso de Botafogo, cujo nome foi trocado formalmente por ele. Na fachada está escrito: Pixinguinha. Aliás, o instrumentista está presente na sala de estar de Hermínio. Ressurge em uma coleção de quadros pintados por Cássio Loredano, Lan, Mello Menezes e tantos outros. Hoje, Hermínio é entusiasta da Escola Portátil de Música, um projeto de educação musical integrado por 800 jovens dispostos a debater as origens musicais do Brasil. “Você tem que prestar atenção no jovem e criar condições para ele se instruir.” Para ele, cultura e educação estão sempre entrelaçados. “Educação é importante, mas educação e cultura são polos convergentes e precisam do mesmo peso.”

Hermínio, sua obra está ligada a diversas áreas: música, literatura, gestão cultural. Como você se define?

É grande a dificuldade para me apresentar por causa da diversidade de rótulos que tive ao longo da vida. Não admito que me coloquem como pesquisador, porque nunca fui, não sou. Toda a minha atividade está centrada na palavra. Sou um poeta letrista. Tenho uma função um pouco memorialística ao escrever artigos e livros, mas isso não me concede nenhum espaço vital dentro do pódio onde estão os luminares da cultura brasileira. Sempre fui um operário da palavra, que trabalhou nos bastidores. Evidentemente, vim à frente algumas vezes para brigar. Se existe uma discussão boa, eu entro adoro brigar. De resto, sou apenas isso: poeta letrista, operário da palavra e um brasileiro em tempo integral. Isso também não quer dizer que eu viva enfurnado aqui, vestido de cangaceiro e com um pandeiro na mão. Ouço e gosto de jazz. Outra paixão na minha vida são as artes gráficas. E vivo entre livros e discos. Essa é a síntese da minha vida.

Como foi que você despertou para as artes? Quando soube que seguiria o rumo da cultura, da música, da poesia?

O destino da gente não está em bola de cristal. Somos atropelados pela vida, pelos acontecimentos e, sobretudo, tropeçando nas dificuldades – isso é uma coisa que ajuda demais na formação da personalidade. Eu adorava e ouvia muito a Rádio Nacional. E era meio carola, frequentava a igreja, já fazia dentro da igreja umas pecinhas. Na escola pública, eu comecei a escrever. Estudei na 3-3 Deodoro. Eu era da mesma classe do Maurício Azedo – hoje presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) –, da Anilza Leoni, do Wilson das Neves e da Claudette Soares. Éramos um pouco vizinhos de rua. Eu era presidente do Centro Cívico Carlos Gomes, por exemplo. Então, eu escrevia, fazia umas pecinhas ligeiras, curtas; outro dizia um poema, de Castro Alves, de Olavo Bilac. Havia uma efervescência cultural natural. E, permeando tudo isso, o canto orfeônico.

Villa-Lobos influenciou toda uma geração dentro da escola, não é?

O canto orfeônico era muito importante. Uma vez o Villa-Lobos foi inspecionar a escola. Eu era garoto, me lembro da chegada dele, com aqueles cabelos, aquela coisa toda. Já ouvia em casa falar das reuniões cívicas que ele promovia no Vasco da Gama. Durante muitos anos, menti desbragadamente nas minhas entrevistas sem saber que eu estava mentindo. Contava como se eu tivesse sido espectador. Não! Meus irmãos, que são mais velhos – sou o caçula – é que alimentaram isso em mim, aquele estágio não fez parte da minha vida. Mas coincidentemente depois me interessei muito pela obra dele e fui amigo pessoal da Mindinha [apelido de Arminda Neves d’Almeida, segunda mulher do compositor]. Villa-Lobos tinha essa coisa de levar para o Vasco da Gama a bateria da Mangueira, o Cartola, o Augusto Calheiros, o Paulo Tapajós. Meu Deus, que cabeça tinha esse homem! Levava a música popular para a criançada. É uma coisa engraçada para mim. Isso vai reaparecer na minha vida em vários momentos. Eu trabalho muito por conexões, aliás, essa entrevista aqui vai ser um tumulto (risos). Por esses dias esteve aqui em casa a Bia Paes Leme, que trabalha no Instituto Moreira Salles (IMS) e também é professora na Escola Portátil de Música. Ela dizia assim: “Pois eu vi Rosa de Ouro”. Eu disse: “Não delira! Não dá para você ter visto Rosa de Ouro, porque Rosa de Ouro foi há 45 anos, e você está com 51 anos de idade”. Ela garante que sim e que eu a teria levado junto com minha sobrinha Sheila para ver o espetáculo. Isso ficou na cabeça dela, no coração dela. Bia é uma musicista de primeira, uma professora fantástica. Ela lembra que eu tive essa preocupação de levá-la. Repare que há uma similitude com as sensações que eu tinha com Villa-Lobos. Quando eu entrei na Escola 3-3 Deodoro e passei a conhecer aquele universo, busquei automaticamente o que havia: Theatro Municipal com os concertos para a juventude; cursos de interpretação musical com Magdalena Tagliaferro, aquela maravilha de mulher com cabelos de fogo; um filme chamado À Noite Sonhamos [1945, dirigido por Charles Vidor] sobre a vida de Chopin, que vi umas 20 vezes. Aliás, há pouco tempo revi o filme e não era essas coisas, não, mas para mim quando menino foi bom. Isso faria parte da minha vida, do meu enredo pessoal. Isso se liga com essa minha ideia de formação de jovens plateias. Porque você não pode passar a vida inteira achando que a juventude não se interessa em nada. A Escola Portátil de Música, por exemplo, possui todos os sábados 800 jovens que discutem Pixinguinha, Villa-Lobos, Radamés Gnattali, Patápio Silva, Chiquinha Gonzaga, Tom Jobim, Guinga – quem você possa imaginar! Tenho um bordão: “A cultura tem que circular”. Você tem que prestar atenção no jovem e criar condições para ele conhecer a sua história, conhecer cantores como Elis Regina, Elizeth Cardoso, Sílvio Caldas, Inezita Barroso. A Escola Portátil de Música é um celeiro de professores com uma cabeça ótima, aberta, são quase todos compositores e formam, inclusive, compositores novos e modernos, com essa visão maravilhosa

Como foi a criação de Rosa de Ouro, os elementos cênicos, essa revolução do espetáculo musical que foi um marco na sua carreira?

Nada nasce de repente. Lembro que eu frequentava muito uma roda de amigos comunistas, em Santa Teresa, e lá se ouvia muito cante jondo. Eu ficava fascinado com uma cantora espanhola chamada Pastora Pavón, “La Niña de los Peines”. Eu ouvia aquilo maravilhado e dizia: “Que voz estranha!”. Era uma voz musguenta, que me chamou atenção para a estranheza das vozes, como a estranheza da voz da Billie Holiday, da Aracy de Almeida, ou o sotaque da Isaurinha Garcia. Se eu não tivesse ouvido a Pastora Pavón, talvez não tivesse prestado atenção quando ouvi a Clementina de Jesus pela primeira vez. Eu morava na Beco do Rio. Estava passando um dia na Taberna da Glória e lá estava aquela mulher vestida de branco, em rendas guipure, com um salto altíssimo e cantando entre os seus compadres. Em nenhum momento percebi que aquilo tinha algo a ver com o que eu já tinha ouvido anos antes. Aí vêm as tais conexões. Clementina surgiu em 1964, em dezembro, perto da estreia do show Opinião, do Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha. Em 1965, fui à Europa ver concertos de música flamenca, e estive com o Niño Ricardo, que é um grande guitarrista, e perguntei: “A Niña morreu há um tempo?”. E ele: “Não, ela vive em Sevilha”. Arrumei minha mala, me botei em um trem e me mandei para Sevilha. Fui conhecer aquela mulher que, lá atrás, tinha mexido tanto no meu coração, a ponto de abrir portas de percepção para a estranheza. Conversamos muito. Já era uma senhora de 77 anos de idade. E eu saí de lá com uma informação visual também: uma senhora bonita, em rendas, usando xale. Então, quando conheci a Clementina, eu já tinha ouvido algo semelhante, raro, há 20 anos, que era a Pastora Pavón. Isso me fez tornar minha percepção mais aguda para tudo que é estranho, para tudo que não está codificado pela indústria da música ou do livro. Começo a perceber que essas coisas são viscerais, e você tem sempre que prestar atenção para entender qual é o processo que o Mário de Andrade tanto nos explicou sobre abrasileirar o brasileiro. É uma coisa que eu modifiquei do pensamento dele. Ele escreveu isso em uma carta ao Drummond. Era preciso abrasileirar o pensamento dele. Mas você não tem que deixar de prestar atenção nas outras
culturas, pelo contrário: isso nos alimenta.

Você encontrou a Clementina e depois veio Rosa de Ouro. Como foi?

Eu estava, nessa época, hospedando em minha casa o violonista Oscar Cáceres e quando ele conheceu a Clementina, ele ficou impressionado também. Ele e o Turíbio Santos diziam: “Você precisa fazer alguma coisa com ela”. Eu tinha feito uma experiência no Teatro Jovem, que era praticamente um teatro laboratório para a dramaturgia brasileira. O Kleber Santos, que era o diretor do teatro, abriu espaço para mim e nunca esqueço de citá-lo. Eu panfletava poemas alheios, como os do Jacques Prévert, do Drummond, mas nunca poemas meus. Imprimia em mimeógrafo, ia para o teatro e distribuía essas coletâneas. Depois, com o tempo, eu encontrava muita coisa no chão – as pessoas jogavam fora. O movimento chamava-se O Menestrel, tinha nove poesias. Isso foi em 1964. E ele se estendeu para a música. O Menestrel virou uma forma de mostrar, no palco, essas pessoas relevantes: um jovem da música erudita, outro da música popular. O primeiro foi Clementina e Turíbio Santos – um jovem que ia logo em seguida vencer um concurso internacional de violão. Depois, foi o Oscar Cáceres, Jacob do Bandolim, Aracy de Almeida. Foi uma série de concertos. No final, o Kleber falou: “Puxa! Você tem um musical na sua frente”. Comecei a pensar nisso. Realmente, o Rosa de Ouro foi uma coisa muito simples, juntou muitos que tinham participado de O Menestrel. Era um palco desnudo, onde havia aqueles mestres. Como canta o samba: “quatro crioulos inteligentes, rapazes muito decentes” [trecho de música de Elton Medeiros].

Como foi juntar Aracy Cortes, Clementina, Elton Medeiros, Paulinho da Viola, Anescarzinho do Salgueiro, Nelson Sargento e Jair do Cavaquinho nesse processo?

Foi engraçado. O Jota Efegê me apresentou a Aracy Cortes. Eu já conhecia a Clementina. Apresentei primeiro a Clementina em O Menestrel. O Benedito César, pai do Paulinho da Viola, a acompanhou nesse primeiro show em dezembro de 1964. Depois, Aracy Cortes se apresentou com o Jacob do Bandolim. Você já tinha ali dois elementos, o Paulinho e o Elton. Claro, o Paulinho já era meu parceiro, já compúnhamos juntos, o conheci na casa do Jacob do Bandolim naqueles saraus maravilhosos dos anos 50. Eu e Paulinho éramos garotos e tínhamos essa coisa de ter o Jacob como ídolo. Quando surgiu Rosa de Ouro, e surgiu a Clementina, Paulinho participou com o Elton indicando pessoas. Subi na Mangueira, com um medo danado, nunca tinha subido em um morro carioca, mas fui lá com Elton Medeiros para buscar o Nelson Sargento. O Paulinho da Viola trouxe o Anescarzinho do Salgueiro, autor do Xica da Silva [parceria com Noel Rosa de Oliveira]. E o Jair do Cavaquinho veio aí pelo caminho – não me lembro quem o trouxe. Possivelmente o Zé Kéti, que costurava as nossas vidas, bordava as lantejoulas, era um ser iluminado. E começou a ensaiar o repertório. Eu gravava muito a Clementina na minha casa, via o repertório dela, via o que ela cantava e ia gravando. Então, o roteiro do Rosa foi assim, de coisas que eu já vinha ouvindo, fora do circuito da indústria formal da música, mas também com as coisas que o Paulinho e o Elton guardavam em seus saberes. O repertório da Aracy já era intocável, com Linda Flor e aquelas coisas todas. E a Clementina tinha um repertório absolutamente inédito, de corima, batuques e cantos de pastorinha. Aquilo tudo era uma grande novidade para todos nós. O Elton e o Paulinho foram muito importantes na estruturação, porque compreenderam de imediato a importância da Clementina, tanto que o primeiro disco dela já trouxe um portelense ilustre, que foi o João da Gente. Mas o Rosa de Ouro precisava de alguém para narrar essa história, porque tive a ideia de fazer depoimentos gravados com Almirante, Jota Efegê, Sérgio Porto, Elizeth Cardoso e Cartola. Seriam depoimentos para dividir os blocos temáticos do espetáculo. Então, era uma coisa linda: o Jota Efegê falava da Kananga do Japão [grupo carnavalesco], da Tia Ciata [sambista da velha guarda carioca]; o Almirante contava a história do cordão Rosa de Ouro. Era um espetáculo rico de informação. Quem saísse do Rosa, saía abastecido de histórias. O espetáculo era limpo, não tinha nada demais: palco desnudo, o telão atrás onde passavam os depoimentos. Era um espetáculo com uma estrutura bastante simples. O Rosa de Ouro durou alguns meses no Teatro Jovem, depois foi para São Paulo. As coisas que germinaram a partir dali é que são importantes.

O que mais germinou depois dele?

Ah, muita coisa apareceu. O próprio processo de criação do Rosa de Ouro resultou no Rosa de Ouro número 2, um disco. Ele abriu espaço para que os compositores, chamados “do morro” – não entendo esse rótulo, aliás – tivessem a oportunidade de serem gravados por Elizeth Cardoso, que era a grande estrela da canção brasileira . Há pouco tempo, o Luis Fernando Veríssimo fez uma belíssima crônica sobre isso, falando sobre as figuras que transcendem, as pessoas revolucionárias. Falava da Elizeth como uma pessoa que tinha uma similaridade com a história do Miles Davis, porque ela fez o disco Canção do Amor Demais [1958, Festa], que foi a célula da bossa nova, embora ela não cantasse bossa nova. Depois ela grava Elizeth Sobe o Morro [1965, Copacabana], que nada mais é do que a trilha sonora do Rosa de Ouro. Foi um sucesso no Brasil inteiro, produzi o primeiro disco do Paulinho da Viola, uns dez da Clementina, Elizeth e outros tantos. O disco O Samba é a Minha Nobreza, de 2002, é uma espécie de repeteco, com um formato mais sofisticado, do Rosa de Ouro. Ele foi o ponto de partida para uma coisa profundamente brasileira.

Entrevista realizada por Aloisio Milani e Fabio Maleronka Ferron no dia 1 de julho de 2010, no Rio de Janeiro. Nesse link, você pode ler a integra da entrevista

Rosa de Ouro

Este disco é resultado do espetáculo homônimo criado, produzido e roteirizado por Hermínio Bello de Carvalho (1935) e dirigido por Kléber Santos, no Teatro Jovem, no Rio de Janeiro. Rosa de Ouro (1965) marca a retomada da carreira de Aracy Cortes (1904-1985) e inaugura o início da carreira artística de Clementina de Jesus (1902-1987). Além disso, promove os compositores e instrumentistas Paulinho da Viola (1942), Elton Medeiros (1930), Jair do Cavaquinho (1922-2006), Anescarzinho do Salgueiro (1929-2000) e Nelson Sargento (1924).

O espetáculo estreia em 18 de março de 1965 e permanece sete semanas em cartaz. Segue para São Paulo e Salvador, onde também é recebido com entusiasmo por crítica e público . Assim como Opinião, show inaugurado em dezembro do ano anterior, Rosa de Ouro é fruto da valorização da cultura popular carioca. O resgate dessa cultura inicia-se entre 1963 e 1965, com o sucesso do Zicartola, misto de restaurante e casa de samba comandado pelo compositor Cartola (1908-1980) e por sua esposa, Dona Zica (1913-2003).

“Pela primeira vez alguém (no caso, Kleber Santos e Hermínio Bello de Carvalho) coloca diante do público de classe média um grupo de artistas representativos das canções populares cariocas”, elogia o crítico musical José Ramos Tinhorão (1928) em sua coluna no Diário Carioca. “É uma verdadeira ressurreição da mais genuína música popular brasileira”, escreve o crítico Eurico Nogueira França (1913-1992), no Correio da Manhã.

O dinamismo do roteiro dá ao espetáculo um caráter de documentário. As músicas são intercaladas por depoimentos pré-gravados de personagens da vida musical carioca. Entre eles, os compositores Pixinguinha (1897-1973), Donga (1890-1974) e Carlos Cachaça (1902-1999), os jornalistas e pesquisadores Sérgio Cabral (1937), Lúcio Rangel (1914-1979) e Jota Efegê (1902-1987), a cantora Elizeth Cardoso (1920-1990) e o radialista Almirante (1908-1980). A plateia ouve as vozes dessas pessoas ao mesmo tempo em que fotos são projetadas no palco.

Gravado em junho de 1965, nos estúdios da EMI/Odeon, o disco Rosa de Ouro não traz tais depoimentos, mas preserva boa parte do repertório apresentado no teatro. Além do elenco original, a versão fonográfica do espetáculo conta com as participações de Carlos Poyares (1928-2004) na flauta, Meira (1909-1982) e Dino Sete Cordas (1918-2006) nos violões, Tião Marinho no contrabaixo, Canhoto (1989-1928) no cavaquinho, Tião e Mário na percussão e Marçal (1902-1947) na cuíca.

O álbum abre com a música-tema, “Rosa de Ouro” (Elton Medeiros/Paulinho da Viola/Hermínio Bello de Carvalho). O título remete ao cordão carnavalesco homônimo para o qual a maestrina Chiquinha Gonzaga (1847-1935) compõe a marcha “Ó Abre Alas”, em 1899. A interpretação fica por conta do conjunto vocal-instrumental também batizado de Rosa de Ouro. Os integrantes apresentam seus currículos no samba seguinte, “Quatro Crioulos” (Elton Medeiros/Joacyr Santana): “são quatro crioulos inteligentes/ rapazes muito decentes/ fazendo inveja a muita gente/ muito bem empregados numa secretaria/ educados e diplomados em Filosofia.”

Embora conhecidos no cenário do samba, não vivem exclusivamente de música. Elton Medeiros é funcionário público; Anescarzinho do Salgueiro, operário de fábrica de tecidos; Jair do Cavaquinho, servente; e Paulinho da Viola, bancário. Ás vésperas da estreia, Hermínio convida o compositor Nelson Sargento (pintor de paredes) para participar do espetáculo. Sem tempo para ensaiar ou criar outra música de apresentação, mantém-se o samba que menciona “quatro crioulos”, embora a formação do conjunto tenha cinco integrantes. O “erro” repete-se no disco.

Após o bloco inicial de músicas, que traz ainda os sambas “Dona Carola” (Nelson Cavaquinho/Nourival Bahia/Walto Feitosa) e “Pam, Pam, Pam” [Paulo da Portela (1901-1949)], o conjunto interpreta a marcha-rancho “Senhora Rainha”, com letra de Hermínio para música de um de seus ídolos, Heitor Villa-Lobos (1887-1959). De certa forma, os versos anunciam ao ouvinte o que vem a seguir: “nós viemos colher/ e depois ofertar/ uma rosa de ouro a você”.

Na sequência, surge a veterana Aracy Cortes. Há tempos afastada dos palcos e estúdios, a estrela do teatro de revista das décadas de 1920 e 1930, reaparece aos 64 anos para entoar um de seus sucessos, o samba-canção, “Linda Flor (Ai Ioiô)” [Henrique Vogeler (1888-1944)/Luiz Peixoto (1889-1973)/Marques Porto (1870-1910)]. Exibindo força e graça, a interpretação é segura e demostra grande virtuosismo. Em “Os Rouxinóis” [Lamartine Babo (1904-1963)], ela alcança as notas mais agudas com naturalidade e brinca com as divisões rítmicas de “Jura” [Sinhô (1888-1930)].

Em seguida, o conjunto Rosa de Ouro apresenta um bloco musical de andamento mais rápido, com sambas de Geraldo Pereira (1918-1955), Zé da Zilda (1908-1954) e Ismael Silva (1905-1978). O ritmo se intensifica e ganha a marcação do partido-alto, com os artistas improvisando versos para “Sobrado Dobrado” (Nelson Cavaquinho/César Brasil/Antônio Braga) e emendando com o chamado “Clementina, Cadê Você?” (Elton Medeiros): “estrela d’alva no céu/ parece estar anunciando/ Clementina de Jesus/ nesta roda vem chegando”.

De repente, faz-se silêncio e os tambores soam para acompanhar a ex-empregada doméstica que, aos 64 anos, faz sua estreia discográfica. Com uma voz potente e rascante, Clementina surpreende pelo estilo único da interpretação e pelo ineditismo do repertório. Em Rosa de Ouro, é possível ouvir alguns dos temas de raízes afro-brasileiras (a maioria de tradição folclórica) que consagram a artista na história da música brasileira, entre eles, “Benguelê” [Pixinguinha/Gastão Viana (1900-1959)], “Siá Maria Rebôlo” e “Bate Canela” (domínio público).

“É, sem favor, o melhor disco de música popular brasileira do ano”, opina o crítico Claribalte Passos (1923-1986), no jornal Correio da Manhã. Em 1967, o espetáculo volta a ser apresentado no Teatro Jovem, com o mesmo elenco e repertório musical renovado. Rosa de Ouro n. 2 também ganha versão discográfica. Em 1975, os dois álbuns são lançados em edição comemorativa em LP e, em 1993, saem no formato CD.

ROSA de Ouro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69767/rosa-de-ouro>. Acesso em: 06 de Jun. 2020. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7


Rosa de Ouro

1965, Odeon (MOFB 3430) | discogs
com Aracy Côrtes, Clementina de Jesus, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Nelson Sargento, Nescarzinho do Salgueiro e Paulinho da Viola
DISCO É CULTURA

Rosa de Ouro
Paulinho da Viola, Nescarzinho, Elton Medeiros, Aracy Côrtes, Clementina e Jair do Cavaquinho, Rosa de Ouro 1965 (foto: Reprodução/Facebook)

REPERTÓRIO

Rosa de Ouro – samba
Hermínio Bello de Carvalho – Elton Medeiros – Paulinho da Viola

Quatro Crioulos – samba
Elton Medeiros – Joacyr Santana

Dona Carola – samba
Nelson Cavaquinho – Norival Bahia – Walto Feitosa

Pam Pam Pam – samba
Paulo da Portela

Nescarzinho (voz solo, ritmo, coro), Elton Medeiros (ritmo, coro), Jair do Cavaquinho (coro, voz solo, cavaquinho), Nelson Sargento (ritmo, coro), Paulinho da Viola (coro, ritmo, voz solo).
[ ouça ♫ ]

ela tem uma rosa de ouro nos cabelos
e outras mais, tão graciosas
ela tem outras rosas que são os meus desvelos
e seu olhar faz de mim, um cravo ciumento
em seu jardim, de rosas
rosa de ouro, que tesouro
ter essa rosa plantada no peito!
rosa de ouro, que tesouro
ter essa rosa plantada no fundo do peito!

são quatro crioulos, inteligentes
rapazes muito decentes
fazendo inveja a muita gente
muito bem empregados
numa secretaria
educados e diplomados em filosofia

e quando chega fevereiro
ver os crioulos no terreiro
é sensacional
no dia de Carnaval
são figuras de destaque
no desfile principal

eu sou o Elton de Lucas
e saio nos Aprendizes
onde todos que vivem no samba
no meio de bambas
são muito felizes

sou o Jair da Portela
samba é o meu natural
eu visto azul e branco
no dia de Carnaval

sou Nescarzinho do Salgueiro
não me canso de falar
represento uma parte do samba
pois todos são bambas naquele lugar

quando Paulinho morrer
não quer mais fita amarela
quer levar na coroa
apenas o nome gravado por ela

levantei-me da cama
sem poder
até hoje ninguém
veio me ver
fui amigo enquanto
eu tive dinheiro
hoje eu não tenho companheiro

hoje eles falam de mim, mas não faz mal
amigo é só pra levar meu capital
se não fosse Dona Agusta e a Dona Carola
eu saía do hospital de camisola

pam pam pam pam
quem é que está batendo aí
pam pam pam pam
ora bate com a cabeça
antes que o mal cresça
antes que eu me aborreça
pam pam pam pam
ora bate com a cabeça

batem na porta da frente
corro na porta de trás
um homem perde a cabeça
sem saber bem o que faz
se tiver coragem venha
sombração que apareça
pam pam pam pam
ora bate com a cabeça

Senhora Rainha – marcha-rancho
H Villa-Lobos – Hermínio Bello de Carvalho
Nescarzinho (coro, ritmo), Elton Medeiros (coro, ritmo), Jair do Cavaquinho (cavaquinho, coro), Meira (violão), Nelson Sargento (coro, ritmo), Paulinho da Viola (ritmo, coro), Tião (contrabaixo)
[ ouça ♫ ]

as estrelas do chão dos seus olhos
senhora rainha eu quero beijar
e já tarda essa noite oh! senhora!
rainha da rosa, bordada de sol

e a lua espreita no céu,
debruçada no mar
esperando você

nós queremos colher
e depois ofertar
esta rosa de ouro a você

este é o tempo da mais rósea primavera
dos gorjeios, dos mais lindos rouxinóis
esse é o tempo, oh senhora majestade
de dourado das pedras no chão

e a chuva que escorrer vai pratear
todos os campos onde houver uma esperança
e quando outra primavera despontar
outra rosa de ouro virá

nós queremos colher, e depois ofertar
esta rosa de ouro a você

Ai Yoyô (Linda Flor) – samba-canção
H Vogeler – Luiz Peixoto – Marques Pôrto
Nescarzinho (ritmo), Araci Cortes (voz), Canhoto (cavaquinho), Carlos Poyares (flauta), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Elton Medeiros (ritmo), Meira (violão), Nelson Sargento (ritmo), Paulinho da Viola (ritmo), Tião (contrabaixo)
[ ouça ♫ ]

ai, Ioiô
eu nasci pra sofrer
foi olhar pra você
meus zoinho fechou
e quando os ‘óio’ eu abri
quis gritar, quis fugir
mas você
eu não sei porque
você me chamou

ai, Ioiô
tenha pena de mim
meu Senhor do Bonfim
pode ‘inté’ se zangar
se ele um dia souber
que você é que é
o Ioiô de Iaiá

chorei toda noite, pensei
nos beijos de amor que te dei
Ioiô, meu benzinho do meu coração
me leva pra casa, me deixa mais não

Os Rouxinóis – marcha-rancho
Lamartine Babo
Nescarzinho (coro, ritmo), Araci Cortes (voz), Canhoto (cavaquinho), Carlos Poyares (flauta), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Elton Medeiros (coro, ritmo), Jair do Cavaquinho (coro), Meira (violão), Nelson Sargento (coro, ritmo), Paulinho da Viola (coro, ritmo), Tião (contrabaixo)
[ ouça ♫ ]

os rouxinóis entre as flores
procuram seus amores
é lindo o cântico das aves
as melodias se renovam tão suaves

os rouxinóis, nos arrebóis
sustenidos são feridos e se ouvem à meia voz os bemóis
porque os rouxinóis foram buscar amor-perfeito
e no canteiro já desfeito da amizade
só encontraram saudade

em sonhos os rouxinóis se vêem a sós tristonhos
e se consolam com as sutis cigarras
cigarras sutis, cada qual mais feliz
pois cantam, cantam, cantam, depois se desencantam
cantar até morrer é o seu infinito prazer

estão os rouxinóis dos arrebóis silentes
descrentes dos seus amores com as lindas flores
nesta canção, pensando bem
o amor dos rouxinóis é o nosso amor também

Jura – samba-maxixe
Sinhô
Nescarzinho (coro, ritmo), Araci Cortes (voz), Canhoto (cavaquinho), Carlos Poyares (flauta), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Elton Medeiros (coro, ritmo), Jair do Cavaquinho (coro), Meira (violão), Nelson Sargento (coro, ritmo), Paulinho da Viola (ritmo, coro), Tião (contrabaixo)
[ ouça ♫ ]

jura, jura, jura, pelo senhor
jura pela imagem
da santa cruz do redentor
pra ter valor a tua…

jura, jura, jura de coração
para que um dia
eu possa dar-te o meu amor
sem mais pensar na ilusão

daí então, dar-te eu irei
o beijo puro da catedral do amor
dos sonhos meus, bem junto aos teus
para fugirmos das aflições da dor

Escurinho – samba
Geraldo Pereira

Se Eu Pudesse – samba
Zé da Zilda

Nem É Bom Falar – samba
Ismael Silva – Francisco Alves – Nilton Bastos

Nescarzinho (ritmo, coro), Canhoto (cavaquinho), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Elton Medeiros (ritmo, voz, coro), Jair do Cavaquinho (coro, cavaquinho), Meira (violão), Nelson Sargento (coro, ritmo), Paulinho da Viola (ritmo, voz solo, coro), Tião (contrabaixo)
[ ouça ♫ ]

o escurinho
era um escuro direitinho
agora está com a mania de brigão
parece praga de madrinha
ou macumba de alguma escurinha
que ele fez ingratidão

saiu de cana
ainda não faz uma semana
já a mulher do Zé Pretinho carregou
botou embaixo o tabuleiro da baiana
porque pediu fiado
e ela não fiou

já foi no Morro da Formiga
procurar intriga
já foi no Morro do Macaco
já bateu num bamba
já foi no Morro dos Cabritos
procurar conflito
já foi no Morro do Pinto
acabar com o samba

se eu pudesse e se meu dinheiro desse
a nossa vida estaria muito mudada
o seu amor é de interesse
e de mim você esquece
só porque não tenho nada

você só pensa em dinheiro graúdo
e por isso esbanja tudo
sem poder se controlar
dinheiro eu não posso fabricar
pois a vontade de ser rica
é que vai nos separar
com dinheiro não dá

nem tudo que se diz se faz
eu digo e serei capaz
de não resistir
nem é bom falar
se a orgia se acabar

tu falas muito, meu bem e precisas deixar
tu falas muito, meu bem e precisas deixar
senão eu acabo dando pra gritar na rua
eu quero uma mulher bem nua

Sobrado Dourado – partido-alto
Folclore

Clementina, Cadê Você? – partido-alto
Elton Medeiros

Benguelê
Boi não Berra
Siá Maria Rebôlo
Maparaêma
(todas Folclore)

Nescarzinho (voz solo, ritmo, coro), Clementina de Jesus (voz), Elton Medeiros (ritmo, voz, coro), Jair do Cavaquinho (cavaquinho, coro, voz solo), Marçal (cuíca), Nelson Sargento (coro, ritmo), Paulinho da Viola (ritmo, coro, voz solo)
[ ouça ♫ ]

mandei pintar, mandei pintar meu sobrado
todo de dourado, todo de dourado

[…]

Clementina, cadê você,
cadê você, cadê você

[…]

Nasceste de Uma Semente” – samba
José Ramos
Nescarzinho (ritmo, coro), Canhoto (cavaquinho), Clementina de Jesus (voz), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Elton Medeiros (coro, ritmo), Jair do Cavaquinho (coro), Meira (violão), Nelson Sargento (coro, ritmo), Paulinho da Viola (ritmo, coro)
[ ouça ♫ ]

Mangueira, nasceste de uma semente
à beira de uma nascente
você não pode morrer (não, não)
Mangueira, onde o sol faz a sombra
onde o poeta faz samba
pro mangueirense viver

[…]

Bate-Canela – lundu
Folclore
Nescarzinho (ritmo), Clementina de Jesus (voz), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Elton Medeiros (ritmo), Meira (violão), Nelson Sargento (ritmo), Paulinho da Viola (ritmo)
[ ouça ♫ ]

Semente do Samba – samba
Hélio Cabral
Nescarzinho (coro, ritmo), Canhoto (cavaquinho), Clementina de Jesus (voz), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Elton Medeiros (coro, ritmo), Jair do Cavaquinho (coro), Meira (violão), Nelson Sargento (ritmo, coro), Paulinho da Viola (coro, ritmo), Tião (contrabaixo)
[ ouça ♫ ]

Mangueira tem
um grande plantio de bamba
tem o fruto que chamamos samba
saboroso e faz um bem
és a razão de que de ano para ano
a sua Estação Primeira evolui
o samba nasce da semente
e a semente do samba
só a Mangueira possui

sirva-se à vontade, a Mangueira é anfitriã
quem lhe convida, é a grande campeã
a Mangueira não pode parar,
a Mangueira não pode falhar
a Mangueira faz hoje o sambista de amanhã

Rosa de Ouro – samba
Hermínio Bello de Carvalho – Elton Medeiros – Paulinho da Viola
Nescarzinho (coro, ritmo), Araci Cortes (voz), Canhoto (cavaquinho), Carlos Poyares (flauta), Clementina de Jesus (voz), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Elton Medeiros (ritmo, coro), Jair do Cavaquinho (coro), Meira (violão), Nelson Sargento (ritmo, coro), Paulinho da Viola (coro, ritmo), Tião (contrabaixo)
[ ouça ♫ ]

rosa de ouro, que tesouro
ter essa rosa plantada no peito!
rosa de ouro, que tesouro
ter essa rosa plantada no fundo do peito!

essa rosa de ouro que eu trago nos cabelos,
e outras mais tão graciosas,
floresceu no lindo jardim dos meus desvelos;
brotou em meu coração e cravos ciumentos
querem colher – o que? – a rosa.
rosa de ouro, singela,
quero ofertar esta rosa tão bela!
rosa de ouro, singela,
quero ofertar a você esta rosa tão bela!


FICHA TÉCNICA — Hermínio Bello de Carvalho, Elton Medeiros, Paulinho da Viola. Participaram também desta gravação: Dino e Meira (violões), Tião Marinho (contrabaixo), Marçal (cuíca), Canhoto (cavaquinho), Tião e Mário (rítmo), Carlos Poyares (flauta). Capa baseada no “afiche” de Peter Balie

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum Rosa de Ouro, trilha sonora do espetáculo de mesmo nome dirigido e idealizado por Hermínio Bello de Carvalho, lançado em 1965 pela Odeon. Participam deste elepê o Conjunto Rosa de Ouro formado por Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Nelson Sargento, Nescarzinho do Salgueiro, Paulinho da Viola, Aracy Cortes e Clementina de Jesus.

7 comentários em “Rosa de Ouro”

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