A Arte Negra de Wilson Moreira e Nei Lopes

A Arte Negra de Wilson Moreira e Nei Lopes

“A Arte Negra de Wilson Moreira e Nei Lopes” contava para o mundo o que muita gente boa já sabia: do encontro de um ex-agente penitenciário com um ex-advogado nascia uma das parcerias mais sofisticadas da música brasileira.


A arte legada pelos africanos á sociedade brasileira se mantém viva, em termos de Rio de Janeiro, nos subúrbios, nos morros e nas Baixadas. E no que diz respeito á música, Wilson Moreira e Nei Lopes se revelam legítimos porta-vozes dessa herança. Wilson, do subúrbio de Realengo, descende uma família de jongueiros que se ramifica hoje por Avelar e Barra do Piraí, chegando até Juiz de Fora. Nei, filho de um operário da Casa da Moeda, nasceu e se criou na freguesia de Irajá, onde o pai, nascido em 1888, fora morar no início do século.

Na década de 50 várias agremiações de samba disputavam as preferências das vizinhas estações de Realengo e Padre Miguel. Lá então, Wilson se iniciou como sambista, primeiro carregando “gambiarra” na Unidos da Água Branca, depois passando pelas Escolas Voz de Orion e Três Mosqueteiros e, finalmente, ajudando a fundar a hoje famosa Mocidade Independente, onde foi autor dos sambas com que a Escola desfilou em 61 e 62.

Mas os sambas de Wilson ultrapassaram os limites de Realengo e Padre Miguel, alcançaram a Portela — por iniciativa do saudoso Natal — abriu suas portas para o compositor.

Já em Irajá, pela mesma época, o quintal de “Seu Luiz” recebia nos fins de semana um time respeitável de músicos amadores. E a “tia” Zica, compositora do Paz e Amor e depois da Portela criava lá um bloco infantil (comum na época) onde Nei se iniciava.

De mestre-sala e ritmista do Bloco Papa com Lombo, pouco depois o sambista se afirmava como compositor do Bloco do Rascunho, criação da família. E em 63 ingressava nos Acadêmicos do Salgueiro (escola de seu coração) onde, dez anos depois, era recebido na ala dos compositores.

Coube a Délcio Carvalho, outro grande compositor, a aproximação da dupla. E, a partir de 74, essa aproximação produziu uma parceria que hoje é uma das mais respeitadas e requisitadas do mundo do samba .

Este disco é uma coletânea de regravações dos principais sucessos da dupla, somados ao inédito “Silêncio de Bamba”, homenagem póstuma a Candeia, fundador do G.R.A.N.E.S. Quilombo, escola alternativa na qual Wilson e Nei venceram os sambas-enredo de 78 e 79. Nele, estão contidas as diversas modalidades musicais cultivadas pelos negros cariocas e fluminenses como jongo, calango, partido-alto, samba de gafieira, samba de terreiro, samba-choro e samba-enredo. E tudo de uma forma despojada, como num autêntico disco de compositor.

Destaque especial para o verdadeiro espírito de equipe que presidiu o trabalho, seja na produção do corretíssimo Genaro, seja na fidelidade de arranjos e regência do Maestro Rogério Rossini, seja na competência e na dedicação dos técnicos Dacy e Nivaldo Duarte que tão bem souberam compreender a arte negra de Wilson Moreira e Nei Lopes.

Rubem Confete
contracapa

Um álbum que compilasse grandes momentos da História do samba poderia ter, sem surpresas, as músicas “Goiabada Cascão”, “Senhora Liberdade” e “Coisa da Antiga”. Muitos se surpreendem, porém, ao se dar conta de que as três (assim como “Só Chora Quem Ama”, “Ao Povo em Forma de Arte”, “Candongueiro” “Gostoso Veneno” e outras fortes candidatas à tal compilação) fazem parte do mesmo disco. Lançado em 1980, “A Arte Negra de Wilson Moreira e Nei Lopes” terá seu aniversário de 30 anos celebrado em grande estilo no Instituto Moreira Salles, num show que reúne os dois compositores que assinam o álbum, cantando suas 14 faixas. O evento é o primeiro de uma série do instituto dedicada a grandes discos.

— O repertório é a grande força desse disco — avalia Nei Lopes. — Sambas como “Gostoso Veneno” permanecem sendo gravados até hoje, com arranjos que dão perspectivas diferentes. Mas é claro que teve todo o trabalho de músicos, produção. Destacaria em especial Genaro Soalheiro (que, na ficha técnica, assina a produção executiva), o grande cara desse disco.

Outro personagem importante para o álbum, indiretamente, foi Delcio Carvalho. Parceiro mais frequente de Dona Ivone Lara, foi ele quem apresentou Wilson a Nei.

— Percebi que Wilson tinha uma informação do universo rural num nível que eu não tinha — lembra Nei. — Era filho de jongueiros, conhecia muito calango. E, naquela época, eu estava interessado nesse tipo de música.

Passando longe do panfletário, “A Arte Negra…” é um manifesto político que afirma, em letra e música, o interesse pelas tradições do jongo, do partido alto, do calango — um álbum como destaca o título.

— O samba estava vivendo a grande encruzilhada, a ruptura com suas tradições, o encaminhamento para esse lado do espetáculo que se firmou depois. Estávamos experimentando isso, eu no Salgueiro, Wilson na Portela — conta Nei. — Naquele momento, por exemplo, criou-se um negócio: “Ala de compositores não existe mais, agora é departamento musical” Parece besteira, mas tem uma enorme força política. As alas de compositores tinham autonomia, no Salgueiro tinha um registro como pessoa jurídica, independente. Essa mudança tirava o da mão dos compositores, figuras responsáveis pela fundaçâo das principais escolas. O poder saía da mão do artista para a mão dos empresários, contraventores.

A capa do disco, com os dois compositores sisudos olhando para a câmera, era uma tentativa de expor essa seriedade do trabalho.

— Me inspirei numa foto célebre de duas senhoras da Irmandade da Boa Morte (confraria afro-católica baiana), com um ar muito solene, impondo uma imagem de respeitabilidade. Mas quando se ouve o disco, com o pagode rolando solto, a imagem de seríedade ganha outra percepçâo — diz Nei, lembrando que a contracapa, informal, com os dois cantando e batucando, já oferecia uma outra Frsrmtiva. — É uma cena caseira, na casa da minha mãe. Tem até uma manicure fazendo a unha da minha sobrinha.

[…]

“A Arte Negra…” é um superencontro de dois compositores com instrumentistas, arranjadores. Tudo funcionou. Se fosse uma obra de artes plásticas, você reconheceria um caráter clássico, no sentido de linhas simples. Nada sobra. E tem o fato de ser um samba de linhagem nobre, mas sem proselitismo, aquele papo da raiz pela raiz.

Em 1985, a dupla gravaria um segundo disco, “O Partido muito Alto de Wilson Moreira e Nei Lopes”, que Nei considera melhor que “A Arte Negra„.”:

— E continuamos fazendo músicas com aquela qualidade. Mas só que agora não conseguimos gravar. As que emplaco são mais na linha da crônica carioca, da brincadeira. Não há mais possibilidade de escoamento desse tipo de música.

Leonardo Lichote
O Globo 19/10/2010


A Arte Negra de Wilson Moreira e Nei Lopes

1980, EMI-Odeon (31C 062 421196)
DISCO É CULTURA

REPERTÓRIO (por Nei Lopes)

SÓ CHORA QUEM AMA — Primeira parte de Wilson Moreira, com “versos” de minha autoria. Samba na tradição dos antigos “sambas de primeira”, ou “sambas versados” da família do partido-alto. Foi lançado por Nadinho da Ilha em 1977. Em 2010, ganhou um remake e uma estrofe atualizadora, em gravação de Zeca Pagodinho com minha participação. GOIABADA CASCÃO — No ambiente do Clube do Samba, por volta de 1975, o jornalista Sérgio Cabral elogiou Dino Sete Cordas. Disse que o grande violonista era uma raridade, como “goiabada cascão, em caixa”. Vi ali o mote para mais uma letra musicada por Wilson. MEL E MAMÃO COM AÇÚCAR — Letra e música de Wilson Moreira sobre um dito comum no ambiente do sistema penitenciário carioca na década de 1970. “Mamão com açúcar” quer dizer tranquilidade, felicidade, paz. Por ironia, claro! COISA DA ANTIGA — Samba composto em 1976 e gravado por Clara Nunes no ano seguinte. Wilson trouxe a ideia e a primeira parte da letra já pronta. Compus os versos restantes e meu parceiro musicou. O interessante é que o titulo sugerido por Moreira era “Tina, barril e bica”. [ ouça ♫ ] — voz: Wilson e Nei

quero ter alguém que tome conta de mim/ não suporto mais ficar sozinho/ preciso de uma companheira/ que me dê conforto e carinho// disse-me Vovó Cambinda que a minha mandinga só vai ter remédio/ eu casando ou juntando com a filha da Dona Cecília com Seu Nicomedes/ Seu Nicomedes entretanto, me disse que o santo pra ele mandou/ só deixar que eu casasse provando que em vez de malandro, sou trabalhador// Ana Rosária da Silva que é filha adotiva da Dona Nenêm/ me chamou pra um tremendo pagode, que o Juca Bigode armou em Xerém/ eu disse: Ana Rosária, sem fogo na palha, tu manda e não pede/ mas só vou se tu levar a filha da Dona Cecília com Seu Nicomedes// essa mulata formosa é a flor mais cheirosa da ala das damas/ do famoso terreiro de bamba, escola de samba só chora quem ama/ eu que jamais vi pastora tão perturbadora, tão meiga e tão bela/ na maior privação de sentidos fiz esse partido chorando por ela.

goiabada cascão em caixa/ é coisa fina, sinhá, que ninguém mais acha// rango de fogão de lenha na festa da penha comido com a mão/ já não tem na praça, mas como era bom/ hoje só tem misto quente, só tem milk-shake, só tapeação/ já não tem mais caixa de goiabada cascão// samba de partido-alto com a faca no prato e batido na mão/ já não tem na praça, mas como era bom/ hoje só tem discoteque, só tem som de black, só imitação/ já não tem mais caixa de goiabada cascão// vida na casa de vila, correndo tranqüila, sem perturbação/ já não tem na praça, mas como era bom/ hoje só tem conjugado que é mais apertado do que barracão/ já não tem mais caixa de goiabada cascão

o mel/ mamão com açucar/ eu também quero encontrar/ um lugarzinho no céu// vida boa é a minha/ e os carinhos da menina/ pra mim não existi mal/ o bom mundo me ensina// ouvindo, cantando e as vezes/ sentindo uma sinfonia/ sem vaidade e sem tristesa/ esqueço a monotonia// verão, luar e garoa/ inverno que coisa boa/ tenho lar mulher e filho/ porque que eu devo chorar// ao chegar o fim da vida/ vou procurar não temer/ aqui eu fiz quase tudo/ na outra vou renascer

na tina, vovó lavou, vovó lavou/ a roupa que mamãe vestiu quando foi batizada/ e mamãe quando era menina teve que passar, teve que passar/ muita fumaça e calor no ferro de engomar// hoje mamãe me falou de vovó, só de vovó/ disse que no tempo dela era bem melhor/ mesmo agachada na tina e soprando no ferro de carvão/ tinha-se mais amizade e mais consideração/ disse que naquele tempo a palavra de um mero cidadão/ valia mais que hoje em dia uma nota de milhão/ disse afinal que o que é de verdade/ ninguém mais hoje liga/ isso é coisa da antiga, oi na tina// hoje o olhar de mamãe marejou, só marejou/ quando se lembrou do velho, o meu bisavô/ disse que ele foi escravo mas não se entregou à escravidão/ sempre vivia fugindo e arrumando confusão/ disse pra mim que essa história do meu bisavô, negro fujão/ devia servir de exemplo a “esses nego Pai João”/ disse afinal que o que é de verdade/ ninguém mais hoje liga/ que isso é coisa da antiga, oi na tina

COITÉ, CUIA — Uma das primeiras obras de nossa parceria, este samba-calango foi lançado por Roberto Ribeiro em 1977 e frequentou o repertório do cantor Djavan, que, entretanto, nunca o registrou em disco. Uma de minhas primeiras incursões no universo rural, mais íntimo de Wilson. Ele compôs toda a primeira parte, eu compus a segunda. [ ouça ♫ ] — voz: Wilson e Nei

na coité bebi cachaça
de cana caiana purinha
comendo com a mão na cuia
pirão no molho é de farinha

coité foi cuia
que é a metade da cabaça
quando tomo umas cachaças
como quase um murundu
fico danado
pra comer pirão no molho
carne-seca com repolho
desfiada com tutu

coité da boa
para ser coité de fato
tem que se cortar no mato
pra depois deixar secar
pra fazer cuia
também tem que ter ciência
quem não tiver competência
não vai ter bom paladar

couve à mineira
pede tutu com torresmo
mas tutu pra ser bom mesmo
tem que se comer com a mão
com a mão na cuia
e a coité molhando a boca
pode ter farinha pouca
que primeiro é meu pirão

GOTAS DE VENENO — Lançado em 1978 por Jair Rodrigues, foi um dos campeões de execução carnavalesca naquele ano e nos seguintes, e é tocado até hoje. É um dos três “venenos” de Wilson Moreira, juntamente com “Não tem veneno” (parceria com Candeia) e “Gostoso veneno”. SENHORA LIBERDADE — Um dia, no final dos anos 1970, eu, ex-advogado, pedi informações ao agente penitenciário Wilson sobre a existência ou não da tradição do “samba de cadeia”, pungente, arrependido. Ante a confirmação, a meio-dia foi encomendada e composta, e a letra saiu exatamente como devia. Só que a melodia da segunda parte tornou-se a primeira, e o samba, sucesso de 1979, foi entendido como um dos hinos da Anistia. [ ouça ♫ ] — voz: Wilson e Nei

olha nos meus olhos!/ vê quanta tristeza/ vê quantas marcas esse amor deixou/ vê quantas lágrimas chorei/ vê quanta dor/ olha meus cabelos!/ embranqueceram até perder a cor/ não foram gotas de sereno/ foi mesmo o veneno cruel deste amor// nunca pensei que um lindo frasco tão pequeno/ pudesse comportar, meu deus, tanto veneno/ foi dose mortal/ fez tão grande mal/ mas eu quero outra vez/ basta um só olhar/ para reparar/ todo o mal que ela me fez

abre as asas sobre mim/ oh! senhora liberdade/ eu fui condenado/ sem merecimento/ por um sentimento/ por uma paixão/ violenta emoção, pois/ amar foi meu delito/ mas foi um sonho tão bonito/ hoje estou no fim/ senhora liberdade/ abre as asas sobre mim// não vou passar por inocente/ mas já sofri terrivelmente/ por caridade ó liberdade/ abre as asas sobre mim

NOVENTA ANOS DE ABOLIÇÃO — Samba-enredo vencedor no G.R.A.N.E.S. Quilombo (escola de samba alternativa fundada por Candeia), nos preparativos para o carnaval de 1979. Foi gravado por Clara Nunes, mas o disco não saiu. [ ouça ♫ ] — voz: Nei

hoje a festa é nossa
não temos muito para oferecer
mas os atabaques vão dobrando
com toda alegria de viver
festa no quilombo
noventa anos de Abolição
todo mundo unido pelo amor
não importa a cor
vale o coração
nossa festa hoje é homenagem
à luta contra as injustiças raciais
que vêm de séculos passados
e chega até os dias atuais

e então
reverenciamos a memória
desses bravos que fizeram nossa história
Zumbis, Licutã e Alumá
Zundu Loei, Sanin e Dandará
e os quilombolas de hoje em dia
são candeia que nos alumia
e hoje nesta festa
noventa anos de Abolição
quilombo vem mostrar que a igualdade
o negro vai moldar com a própria mão
com a própria mão
quem luta pelo seu lugar ao sol
não é só bom de samba e futebol

SILÊNCIO DE BAMBA — No Quilombo, às vésperas do carnaval de 1978, o mestre-sala foi assassinado na porta do clube onde a escola ensaiava. Wilson teve a ideia da homenagem póstuma, concretizada meses depois, quando faleceu Candeia, com uma segunda parte que evoca sua trajetória. [ ouça ♫ ] — voz: Wilson

a emoção foi geral
faltava pouco para o Carnaval
no meio de toda euforia
nossa escola chorava
obedecendo a harmonia
a batucada calava
instrumentos em funeral
enrolavam a bandeira do samba
era silêncio de um bamb

foi poeta e foi guerreiro
foi um negro verdadeiro
assentado em seu trono de rei
fez do samba a sua lei
agora está na eternidade
na avenida da saudade
esperando a comissão do astral
pro julgamento final
(a emoção foi geral)

SAMBA DO IRAJÁ — Por volta de 1975. em crise existencial, tendo que aceitar trabalho em um ambiente politicamente desprezível, lembrei de meu pai, homem de rígidos princípios, sepultado no dia em que eu fazia 18 anos. Letra e melodia nasceram juntas, numa lágrima furtiva. NÃO FOI ELA — Pungente samba romântico de 1978. Ganhou sobre-vida após a gravação de Zeca Pagodinho, em 1997, tornando-se um hit nas rodas do chamado “samba de raiz”. [ ouça ♫ ] — voz: Wilson e Nei

tenho impressa no meu rosto/ e no peito, no lado oposto ao direito, uma saudade/ (que saudade)/ sensação de na verdade/ não ter sido nem metade/ daquilo que você sonhou/ (que sonhou)/ são caminhos, são esquemas/ descaminhos e problemas/ é o rochedo contra o mar/ é isso aí, ê Irajá/ meu samba é a única coisa que eu posso te dar// saudade/ veio à sombra da mangueira/ sentou na espreguiçadeira/ e pegou no violão/ cantou a moda do caranguejo/ me estendeu a mão prum beijo/ e me deu opinião
(opinião, opinião)/ depois tomou um gole de abrideira/ foi sumindo na poeira/ para nunca mais voltar/ é isso aí, ê Irajá/ meu samba é a única coisa que eu posso te dar

não foi ela/ foi a saudade que bateu/ foi aquela/ velha emoção que renasceu/ foi a vida e seus muitos enganos/ que depois de tantos anos/ fez ela se dignar, me procurar/ foi o rio/ sempre correndo para o mar/ foi o frio/ que fez seu corpo arrepiar/ na saudade das noites de outrora/ quando o vento lá de fora/ aqui dentro é o calor (de um grande amor)/ só agora é que teve a certeza/ que entre receita e despeza/ o saldo foi devedor// nunca se deve pesar/ com a mesma medida/ dois pesos de vida desiguais/ muito melhor é lutar/ do que viver deitado/ num berço dourado/ na mais santa paz/ foi por isso que ela agora/ sentindo o frio lá fora/ bateu na minha janela/ sem saber que a vida incerta/ conservou minha porta aberta/ sempre esperando por ela

CANDONGUEIRO — Lançado por Clara Nunes em 1978, este samba-longo foi motivado pelas recordações de seu João, velho morador de Olinda, Nilópolis, pai de meu colega Silvano da Silva, que mais tarde se tornaria juiz. Foi seu João, jongueiro em sua terra natal, quem me explicou o que era um candongueiro. E Wilson vestiu a letra com instigaste melodia. [ ouça ♫ ] — voz: Wilson

eu vou me embora, pra minas gerais agora.
e vou pela estrada a fora, tocando meu candongueiro, oi.
eu sou de Angola, bisneto de quilombola
não tive e não tenho escola, mas tenho meu candongueiro.

no cativeiro,
quando estava capiongo,
meu avô cantava jongo,
pra poder segurar, oi.
a escravaria quando
ouvia o candongueiro,
vinha logo pro terreiro,
para saracotear

meu candongueiro,
bate jongo dia e noite.
só não bate quando o açoite
quer mandar ele bater, oi
também não bate,
quando seu dinheiro manda,
isto aqui não é quitanda
pra pagar e receber.

meu candongueiro
tem mania de demanda.
quem não é da minha banda,
pode logo debandar, oi.
pra vir comigo
tem que ser bom companheiro,
ser sincero e verdadeiro,
pra poder me acompanhar

GOSTOSO VENENO — Samba de 1979. Lançado por Alcione, é talvez o mais conhecido de minha parceria com Wilson Moreira, com mais de uma dezena de registros. Tornou-se internacional, com uma gravação instrumental da orquestra de Paul Mauriat e, depois, ganhou uma versão angolana, com o grupo Semba Tropical. [ ouça ♫ ] — voz: Nei

este amor
me envenena
mas todo amor
sempre vale a pena
desfalecer de prazer
morrer de dor
tanto faz
eu quero é mais amor

a água da fonte
bebida na palma da mão
rosas se abrindo
e se despetalando no chão
quem não viu e nem provou
não viveu, nunca amou
se a vida é curta
e o mundo é pequeno
vou vivendo
morrendo de amor, ai!
gostoso veneno

AO POVO EM FORMA DE ARTE — Samba-enredo do G.R.A.N.E.S. Quilombo no carnaval de 1978. Gravado inicialmente por Candeia, é considerado um dos melhores sambas-enredos de todos os tempos. [ ouça ♫ ] — voz: Wilson

quilombo
pesquisou suas raízes
e os momentos mais felizes
de uma raça singular
e veio
pra mostrar esta pesquisa
na ocasião precisa
em forma de arte popular

há mais
de quarenta mil anos atrás
a arte negra já resplandecia
mais tarde a Etiópia milenar
sua cultura até o Egito estendia
daí o legendário mundo grego
a todo negro de etíope chamou
depois vieram os reinos suntuosos
de nível cultural superior

que hoje são lembranças de um passado
que a força da ambição exterminou

em toda cultura nacional
na arte e até mesmo na ciência
o modo africano de viver
exerceu grande influência
e o negro brasileiro
apesar de tempos infelizes
lutou, viveu, morreu e se integrou
sem abandonar suas raízes
por isto o quilombo desfila
devolvendo em seu estandarte
a história de suas origens
ao povo em forma de arte


FICHA TÉCNICA — PRODUÇÃO: Renato Corrêa / PRODUÇÃO EXECUTIVA: Genaro / ARRANJOS, ORQUESTRAÇÕES E REGÊNCIA: Maestro Rogério Rossini / MÚSICOS: Dino (violão de 7 cordas), Rogério Rossini (violão de 6 cordas), Carlinhos e Alceu (cavaquinhos), Afonso (bandolim), Nelsinho (trombone), Netinho (clarinete), Geraldo (flauta), Julinho (acordeom), Aladim (bateria), Nosso Samba, Marçal, Luna, Eliseu, Geraldo Bongô, Caboclinho, Cabelinho, testa, Zezinho Trambique (ritmo), Nosso Samba e As Gatas (coro) / TÉCNICOS DE GRAVAÇÃO: Dacy e Bill / TÉCNICO DE MIXAGEM: Nivaldo Duarte / FOTO: Januário Garcia / CAPA: Lobianco. / Todas as faixas compostas por Wilson Moreira e Nei Lopes, exceto: “Mel, e Mamão com Açúcar” somente Wilson e “Samba do Irajá” somente Nei.

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse elepê clássico A Arte Negra de Wilson Moreira e Nei Lopes, lançado em 1980 pela EMI-Odeon. Seu Wilson e Seu Nei, só com “pedradas” do samba.

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