A Música de Paulo Vanzolini

A Música de Paulo Vanzolini

Aqui Carmen Costa e Paulo Marquez em “A Música de Paulo Vanzolini” (1974), pelo selo Marcus Pereira, apresentando composições, do maior, junto com Adoniran Barbosa, representante do samba paulista.

Carmem nascida em Trajano de Moraes, no interior do Rio de Janeiro, (Carmelita Madriaga – 5/1/1920) , mudou-se aos 15 anos para a capital do estado, onde trabalhava como empregada doméstica do cantor Francisco Alves. Numa festa ele a fez cantar para os convidados, entre eles Carmen Miranda, e a incentivou a iniciar uma carreira.

Paulo Marquez nome artístico de José Marquez (26/4/1928 Uberaba, MG), trabalhou como crooner da orquestra de baile do Uberaba Tênis Clube, onde em uma de suas apresentações no local, chamou a atenção do músico Waldomiro Constant, que o levou a atuar na Rádio Guarani FM, de Belo Horizonte.


Da contracapa do LP, reproduzo abaixo, texto assinado por Vanzolini.

Ao meu Público

Fazer um samba é um tanto questão de paciência. O tema, a vida cotidiana, espreitada, fornece. Ou a preocupação maior da gente determina . Melodia e letra nascem juntas, frase de verso se adaptando a frase melódica, e as sequências melódicas mais ou menos se filiando na tradição geral. Dia a dia, sem querer ser apertado, o samba cresce e se completa, mais depressa quando se encontra uma frase boa, mais devagar quando se entra em problemas, se vai melhor um p ou um t, quando se há dúvida sobre se alguns ss se aliteram bem ou sibilam demais.

Com o tempo o samba se define da cabeça, e quer sair. Num ponto de ônibus, no banheiro de praxe, ele é cantado quase em voz alta, verificam-se as fraquezas maiores e os plágios mais óbvios; a melodia é assobiada, com cautela, depois com força e certo abandono, e o autor compôs.

Chega então a hora de ensinar o cantor. O compositor que sabe de tons e toca violão põe sua música em fita, entrega e pronto. Já aquele ruim de ouvido e inocente de instrumento (como quem assina), depende de ter cantor amigo, paciente, de bom violão e muita prática (Zelão, Paraná, Adautinho). Frequentemente acontece de o cantor dizer: “Não, meu nêgo, não é assim que você quer, veja se não é assim” — geralmente é. Sempre com paciência acaba dando certo, e com certa simetria, pois ensinar letra a cantor também não é coisa das fáceis. E nessa fase já se acerta boa parte da divisão que, em samba, é onde se separa os homens dos meninos.

Passa agora o assunto às mãos do regional, e as coisas ficam mais fáceis. São praças velhos, experientes, que não se deslumbram mas não desdenham, que discutem entre si, por meias palavras e alusões obscuras, assuntos de tom, de introdução e, eternamente, de divisão — e aparecem com soluçóes que deixam o autor surpreso e mesmo às vezes encorajado.

Do regional, conforme o caso, o samba vai reto para à fita da gravadora, ou para o maestro que vai fazer o arranjo orquestral . É quando o autor sai do cena, e fica apenas torcendo para seu público gostar.

Paulo Vanzolini

Vanzolini: seus sambas, as cobras e os lagartos

Não se pode falar de Paulo Vanzolini sem que se informe primeiramente, que se trata de conceituadíssimo cientista, doutor em Zoologia pela Universidade de Harvard (graduado em Herpetologia — o que, para o saudoso Luiz Carlos Paraná, deu-lhe a especialidade em cobras e lagartos, já que Herpetologia trata de anfíbios e répteis).

É paulista, com uma passagem na infância pelo Rio de Janeiro, diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, e classificado por amigos comuns como uma pessoa encantadora. Compositor sem muita pretesão profissional (não toca qualquer instrumento, mas quase todas as suas músicas foram feitas sem parceiro) é, no entanto, o autor de um dos maiores sucessos dos últimos tempos, o samba “Ronda”, composto em 1952 e gravado por Maria Betânia em seu último Lp. Em 1963, fazia grabde sucesso também “Volta por Cima”, gravado pelo cantor Noite Ilustrada. E foi finalista num festival com “Na Boca da Noite” , feito em parceria com Toquinho. É bom que se saiba disso tudo no momento em que sai o primeiro Lp em que Paulinho Vanzolini canta a suas músicas. O primeiro Lp que canta, mas não o primeiro exclusivamente com músicas de sua autoria. Em 1967, Marcus Pereira lançou através de sua agência de publicidade um Lp para ser distribuído como brinde (“Onze Sambas e Uma Capoeira”) no qual suas músicas foram interpretadas por Chico Buarque de Holanda, Mauricy Moura, Cristina, Cláudia Moreno, Luiz Carlos Paraná e Adauto Santos. Em 1974, Marcus Pereira, já com a sua gravadora, lançou outro disco com as músicas de Vanzolini, dessa vez cantadas por Paulo Marquês e Carmem Costa (álbum que trago neste post).

Como se vê, o compositor se recusou sempre se recusou a cantar publicamente a sua obra. Agora, por insistência do produtor Aloisio Falção, concordou em colocar a sua voz nas 13 faixas que compõem o Lp “Paulo Vanzolini por Ele Mesmo”. Não é, como se pode imaginar, uma voz de cantor profissional, mas não é daquela que doem nos ouvidos da gente. Para comparar com outros compositores que já gravaram cantando, pode-se dizer que canta tão bem (ou tão mal) quanto João de Barro e Lupicinio Rodrigues. Mas o disco tem a grande vantagem de expor com maior verdade o compositor a seu público, que não deve ser dos mais reduzidos.É um disco simples, como simples é a música de Vanzolini, Se ele é extremamente criativo nas letras, é bem limitado nas melodias (e por consequência, nas harmonias). Aqui e ali a gente reconhece trechos que já foram utilizados em sua própria obra e lembranças rápidas de músicas alheias. Mas o seu humor quase constante e o seu lirismo que surge de vez em quando em sua poesia superam as suas limitações musicais. Tem bastante habilidade na utilização das palavras, confirmando o depoimento de Chico Buarque na contracapa do seu primeiro Lp: “E, a certa altura, Paulinho passava a conversar em rimas, numa agilidade de fazer inveja a muito repentista do Nordeste”. Na mesma contracapa, por sinal, Luiz Carlos Paraná cita o último improviso que ouviu de Vanzolini: “Eu sou Paulo Vanzolini/ Animal de muita fama/ Eu tanto corro no seco/ Como na vargem de lama/ Mas quando o marido chega/ Me escondo embaixo da cama”. No Lp “Paulo Vanzolini por Ele Mesmo”, lançado pelo Estúdio Eldorado, há várias letras que merecem ser transcritas num comentário como este. Mas é melhor saboreá-las através do próprio disco.

Sérgio Cabral


A Música de Paulo Vanzolini

Carmem Costa e Paulo Marquez 1974, Discos Marcos Pereira (MPL 1005)
DISCO É CULTURA

Paulo Vanzolini
Paulo Vanzolini… e sua cervejinha. (foto: Silvio Tanaka)

REPERTÓRIO

Mulher que não Dá Samba
voz: Carmem Costa e Paulo Marquez
[ ouça ♫ ]

parece que vai tudo em santa paz
na base do mais ou menos
um pouco mais menos do que mais
tão regular, sem reclamar
porém não satisfaz
mas, francamente, de
que serve tanta paz?
ainda se fosse brava,
porém competente
se atrás da bronca viesse
a roupa limpa, o café quente
ou se fosse ignorante no claro
e ardente no escuro
eu lhe asseguro não faria
falta a paz
mulher que não dá samba
eu não quero mais

Falta de mim
voz: Carmem Costa
[ ouça ♫ ]

vendo-te assim com os puros sinais
da falta de mim
em pleno apogeu, morrendo de tédio,
e o remédio sou eu
eu que estou sempre perto e só quero
por certo ser seu
mas você não quer nada desorientada,
só quer apogeu

diz que chegou onde quis, graças a Deus
que o sucesso é o que deseja
estranha que amargue a boca que já
não me beija
que ardam em seco os olhos sem os meus
com a muita raça que tem, leva essa farsa
até o fim
mas traz escrita na testa a falta de mim

Inveja
voz: Carmem Costa
[ ouça ♫ ]

a inveja é a moeda que o mundo tem
pra pagar o bem
sabendo disso eu faço que não sei
e sigo o caminho que sempre trilhei
seguindo a força da natureza
eu perco em vantagem e ganho em grandeza
eu sei ser pobre sem raiva e só
sem tristeza

no dia seguinte eu digo
o amor que dei não dou mais
mas sem rancor
eu sou sempre eu, seja ela o que for
não nego a mão a quem precisa
inveja é a raiva do pó contra quem o pisa
os últimos no fim são os primeiros
ninguém vai longe com trinta dinheiros

Ronda
voz: Carmem Costa
[ ouça ♫ ]

de noite eu rondo a cidade
a te procurar sem encontrar
no meio de olhares espio
em todos os bares você não está
volto pra casa abatida
desencantada da vida
o sonho a alegria me dá
nele você está

ah, se eu tivesse quem bem me quisesse
esse alguém me diria
desiste, esta busca é inútil
eu não desistia
porém, com perfeita paciência
volto a te buscar
hei de encontrar
bebendo com outras mulheres
rolando um dadinho
jogando bilhar
e neste dia, então vai dar na primeira edição
cena de sangue num bar da Avenida São João

Samba Abstrato
voz: Carmem Costa
[ ouça ♫ ]

calado eu luto, sereno e resoluto
pois de minuto em minuto
sinto que a força se esvai
eu me mantenho e sustento
da fibra e do pensamento
mas de momento em momento
a resistência descai
respiro fundo
pois de segundo em segundo
mais cresce o peso do mundo
Jesus Cristo sem o Pai
resisto, porém não sei até quando
no fim, acabo ajoelhando
mas a coragem não cai

mas ninguém pense
que não estou muito consciente
de que fundamentalmente
não existe diferença
entre morrer pela crença
e ser igual a toda gente
é tudo um sonho
tudo uma farça, uma idéia
autor, ator e platéia
espero que o pano caia
pra sair batendo palma
ou romper na maior vaia
ou dizer muito ao contrário
que espetáculo tão frouxo
nem merece comentário

Sorrisos
voz: Carmem Costa
[ ouça ♫ ]

tanto tempo eu não vejo você
a própria maledicência esqueceu de nós
só penso em você de longe em longe
e sempre a sós
você, se pensa em mim, não deixa ver
é um caso bem conhecido de amor
que não deu
mas o final foi feliz, porque
o destino não quis
mas o bom-senso venceu

o rio da vida correu deu volta à terra
a cachoeira desceu, não sobe mais a serra
você sorri de olhos claros pra quem
ficou com o que é meu
e eu sorrio a quem diz que o
final foi feliz
porque o bom-senso venceu

Teima Quem quer
voz: Carmem Costa e Paulo Marquez
[ ouça ♫ ]

que teimosia
nada nos une e tudo nos separa
só quando a vida pára e o tempo se distrai
do momento que vai do grito ouvido
ao vidro estilhaçado
é que eu paro ao teu lado
e nós trocamos
vidas perdidas por horas roubadas
teima quem quer
deixa disso mulher
a sorte não dá pra todos
mas não escolhe a quem falta
dum lado tem maré alta
do outro, praia de fora
quem não tem juízo é que chora
quem tem é que não se toca
deus sabe o dia e a hora
aperta mas não sufoca
entre o grito e o estilhaço
cabe outra vida na vida
outro mundo entre meus braços
teima assim quem quer
deixa disso mulher

Maria que Ninguém Queria
voz: Paulo Marquez
[ ouça ♫ ]

Maria que ninguém queria
eu resolvi reformar
levei no dentista, paguei a modista
ensinei a falar
fiquei satisfeito, com o que tinha feito
serviço perfeito, um trabalho de artista
mas Maria era esperta
esqueci a porta aberta e ela fez a pista
o tempo passou, um dia Maria me procurou
seu jogo rasgou e já declarou que apesar do progresso
que apesar do sucesso que tinha encontrado em seu caminho
apesar da riqueza
conservava uma fraqueza pelo meu carinho
propôs que eu voltasse
que compartilhasse de tudo que tinha
jurou-me ser minha, toda, todinha
com uma exceção natural
eu não levei a mal
mas no mesmo momento já recusei seu oferecimento
orgulho eu não tenho
mas sou homem demais pra 50 por cento

Menina o que Foi o Baque
voz: Paulo Marquez
[ ouça ♫ ]

menina, o que foi o baque?
foi o pau que matou a cobra

no dia que eu fôr m’embora
colega, dê meus recados
eu volto por essas horas
quero ver se foram dados
e diga ao seu Joaquim
que hoje em dia é mesmo assim
e diga pra seu Mané
que o negócio tá de pé
e diga pra seu Francisco
que não corra muito risco
e diga pro ao seu Isidoro
que eu não rio mas não choro

e diga para as candongas
que não venham com milongas
e diga para as branquelas
também vou pensando nelas
principalmente colega
você diga ao seu “Abóbra”
que o que me falta na ida
na volta vai ter de sobra
eu vou devendo singela e volto
pagando na dobra

Cara Limpa
voz: Paulo Marquez
[ ouça ♫ ]

já me acostumei
já não ligo
até exibo certa naturalidade
amei, perdi, senti saudade
roi osso muito duro
arrastei bonde pesado
hoje sou um homem mudado
faço planos de futuro
não penso mais no passado

já me acostumei com o dia a dia em vez
de vida inteira
relógio em vez de retrato na cabeceira
posso lhe dizer que olho pra ela
e nada sinto
posso lhe dizer com a cara limpa
enquanto minto
posso lhe dizer

Mulher Toma Juízo
voz: Paulo Marquez
[ ouça ♫ ]

mulher, toma juízo
mostra os dentes num sorriso
eu sou um que não preciso de
aturar cara torta
eu penduro o chapéu atrás da porta
tanto eu fico como eu vou
dou o anel por bem perdido se
o dedo ficou

mulher, ai ai mulher
cada homem pra si mesmo é o maior
e quer respeito
tudo dá jeito sem bronca nem
burro amarrado
mulher que se vira pro outro lado
tá convocando a suplente
mulher que não ri não precisa dente

Choro das Mulatas
voz: Paulo Marquez
[ ouça ♫ ]

Maria é boa mulata
e faz boa companhia
mas não ata nem desata
nunca sai dessa agonia
não parece ser mulata
nem parece ser Maria
me atiça que quase me mata
depois me joga água fria

por isso joguei meu galho
pro lado de Conceição
no começo deu trabalho
mas logo acertei a mão
mas contaram pra Maria
o lugar onde eu me espalho
Maria me viu com a outra
entrou rebimbando o malho

é forró bodó na micagem
é forró bodó na micagem
tanta onça com fome
e as macacas brigando por
causa de homem


FICHA TÉCNICA — PRODUÇÃO: Waldyr Santos / DIREÇÃO ARTÍSTICA: Aluizio Falção / ARRANJOS E ORQUESTRAÇÕES: Maestros Portinho e Elcio Alvarez / MÚSICOS: regional do Jogral (direção de Evandro) / ESTÚDIO: Sonima / FOTO: Photo Photo & Grafia. *** Todas as faixas com autoria de Paulo Vanzolini.

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum de Paulo Vanzolini, expoente do samba de São Paulo, lançado em 1974 pelo selo Marcos Pereira.

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