A Velha Guarda

Capa do LP A Velha Guarda

Em julho de 1955 é gravado o disco “A Velha Guarda”, pelo selo Sinter. Nesse trabalho foi resgatado o tipo de musicalidade presente na música popular urbana na cidade do Rio de Janeiro da época do final do século XIX, e início do século XX. A seguir o texto publicado na contracapa do elepê.


No presente long playing estão reunidas algumas das peças mais características da música popular carioca, executadas por um grupo de autênticos e consagrados “Chorões” (que atualmente se exibem na “Boite” CASABLANCA no show denominado “O SAMBA NASCE NO CORAÇÃO”) tendo à frente as figuras popularíssimas de Alfredo da Rocha Viana (Pixinguinha), Ernesto dos Santos (Donga) e João Machado Guedes (João da Baiana). Os dois primeiros fizeram parte do conjunto “Os Oito Batutas”, que excursionou à Europa, em 1922, mostrando pela primeira vez as nossas músicas e os nossos ritmos a um público que não lhes regateou aplausos. Mais tarde, em 1930, juntamente com João da Baiana, Pixinguinha e Donga formaram o “Grupo da Velha Guarda”, responsável por mais de uma centena de gravações até hoje lembradas pelo público discófilo.

Pixinguinha, compositor, orquestrador e instrumentista consagrado, é por muitos apontado como o maior músico popular do Brasil. Sua presença frente a um conjunto é garantia de qualidade e de êxito certo. Tocando atualmente saxofone-tenor, é soberbo nos arranjos para pequenos conjuntos e em orquestrações para grupos numerosos. Suas harmonizações são admiráveis e o andamento que imprime aos diversos números é sempre o adequado e o legitimo. Donga, autor de peças de grande sucesso, é o responsável pelo primeiro samba gravado em disco, o histórico “Pelo telefone”, aparecido em 1917. Extraordinário violonista, o ponteado que executa em peças como “Patrão olha seu gado” podemos dizer sem errar só êle faz. João da Baiana, mestre do ritmo, quer no pandeiro, quer no prato-e-faca, é absoluto. Também compositor, é especialista nos corimas e em outras modalidades afro-brasileiras.

Pixinguinha, Donga e João da Baiana: A essas três grandes figuras juntaram-se para a confecção dêste disco outros instrumentistas e cantores de primeira ordem

A essas três grandes figuras juntaram-se para a confecção dêste disco ainda outros instrumentistas e cantores de primeira ordem: Alfredinho, solista do chôro “Que perigo!” (de Pixinguinha — ouça ♫), com mais de setenta anos de idade, é ainda um virtuose em seu instrumento, o flautim, de poucos recursos, mas defendido por êle com extraordinário brilho. Bide, flautista, apresenta-se como solista em “Honória” chôro (de Gualdino Barreto — ouça ♫) com arranjos de Pixinguinha. É o mais jovem do grupo, mas pelas características que apresenta, um verdadeiro “Chorão” à moda antiga. Os violonistas Rubem, Mirinho e Lentini e o cavaquinho de Waldemar muito concorrem para fazer desta gravação um dos pontos altos da discografia da música brasileira. A seção rítmica, chefiada por João da Baiana, apresenta pandeiro, prato-e-faca, ganzá e surdo, pelos melhores especialistas.

Dois cantores emprestam seu concurso ao disco. Almirante, nome que dispensa, qualquer apresentação, figura das mais populares do rádio brasileiro, profundo conhecedor do nosso populário, grande cantor em seu tempo, interpreta os dois sambas do veterano Caninha — “Esta nêga qué me dá” (— ouça ♫) e “Me leve, me leve seu Rafael” (— ouça ♫), e o partido-alto “Patrão, prenda seu gado” (de João da Baiana, Donga e Pixinguinha — ouça ♫), de maneira impecável, como só êle poderia fazê-lo. A participação de Almirante neste long-playing é homenagem desinteressada que o cantor presta a Pixinguinha e seus companheiros.

Como cantor da toada “Nosso ranchinho” (de Donga e J. Cascata — ouça ♫), vamos encontrar, pela primeira, vez como vocalista, outro compositor consagrado, o autor de “Lábios que eu beijei”, “Lágrimas de homem”, e muitas outras peças de sucesso — J. Cascata.

É uma agradável surprêsa a atuação do conhecido autor, desta vez como cantor dos melhores.

Resta-nos indicar a maneira pela qual foram realizadas as sete faixas dêste LP. Em uma só sessão, que durou cêrca de quatro horas e meia, do dia 11 de julho de 1955, o disco ficou pronto. Apenas uma “passagem”, as indicações de Pixinguinha, Donga e João da Baiana, e o disco era gravado. Nenhuma orquestração escrita foi feita. Os músicos foram deixados à vontade, tocando como costumam tocar em seus chôros e suas festas suburbanas, não faltando mesmo a “branquinha” inspiradora. Temos assim um verdadeiro registro de músicas tradicionais, interpretadas por músicos legítimos, pelos azes da “Velha Guarda”, e com uma espontaneidade e um frescor só conseguido graças à circunstâncias felizes que permitiram sua realização.

Lúcio Rangel
contracapa

Completam o repertório “Coralina” (com arranjo de Pixinguinha”) — ouça ♫ e “Flor do abacate” — ouça ♫ . Sobre esse chôro, foi composto por Álvaro Sandim (1862–1919), trombonista e diretor de harmonia na Sociedade Dançante Carnavalesca Ninho do Amor que, em 1913, abandonou esse clube e se juntou ao rancho Flor do Abacate. Esse rancho tinha o seu lugar no Largo do Machado no Catete, o mesmo bairro que acolheu seu rival, o grande Ameno Resedá. Sandim tornou-se diretor musical do rancho e desfilou à frente de sua orquestra no carnaval. Essa orquestra era repleta de músicos de primeira linha da época, incluindo o jovem saxofonista (futuramente mestre de orquestra) Romeu Silva (1893–1958), que seguiu Sandim desde o Ninho do Amor. A mãe de Dona Ivone Lara era uma pastora no rancho. Em 1915, Sandim compôs o chôro que imortalizou o nome do Rancho e seu próprio nos anais do choro (há até um grupo de chôro chamado Flor de Abacate).


A Velha Guarda

Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Almirante, J. Cascata, Bide (
Sinter SLP-1038, 1955) – DISCO É CULTURA

Capa do LP A Velha Guarda

FICHA TÉCNICA — Armando Dulcetti (engenheiro de som), Roberto de Castro (gravador), Lan (capa).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *