Os Sambistas

Conjunto A Voz do Morro Os Sambistas 1966 RGE

Trago neste post o LP “Os Sambistas” (RGE, 1966). Fundado em 1965 por Zé Keti, o Voz do Morro foi uma das primeiras oportunidades que os sambistas de morro tiveram para gravar suas próprias composições — muitas até então inéditas — sem intermediários. O texto abaixo é a transcrição da contracapa do elepê.


O conjunto A VOZ DO MORRO nasceu da imperiosa necessidade de cantar que caracteriza os sambistas cariocas. Na casa de Cartola, o velho Cartola, Agenor de Oliveira — fundador do Escola de Samba Estação Primeira do Mangueira, uma extraordinária figura do samba autêntico — costumavam se reunir alguns sambistas, “para cantar uns sambinhas”, “mostrar as novidades” — como ele mesmo costuma dizer. Já nessa época Cartola não morava mais no morro, mas no asfalto da cidade, num ‘sobradão’ antigo, na Rua dos Andradas. Ali iam sambistas velhos e novos mangueirenses ou portelenses, porque Cartola recebia bem a todos, fossem de que escola de samba fossem que o importante era ser sambista. Isto foi por volta de 1962. Os oito componentes do futuro conjunto eram todos grandes compositores em suas respectivas escolas e também frequentadores da casa de Cartola: Paulinho da Viola, Zé Keti, José Cruz, Jair do Cavaquinho, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Anescar e Oscar Bigode começaram a cantar juntos, a apresentar de uma forma especial, acompanhando-se nos violões e instrumentos de ritmo, os sambas que compunham ora entre si, ora com um parceiro alheio ao grupo, ora sozinhos. Não importava também de quem era o samba. Se fosse bom, cantava-se. A idéia de lançarem-se profissionalmente surgiu depois, quando os oito sambistas citados se apresentaram no Zicarlola, o restaurante da Rua da Carioca dirigido pela mesmo Cartola e sua mulher, a Zica — uma cozinheira de mão cheia. Os aplausos eram incentivadores e Zé Keti, sempre um entusiasta da difusão do samba, tratou de convencer os companheiros de se lançarem em conjunto. “Ofereci um feijão de rico lá em casa” — conta o Zé — “Não chegava a ser uma feijoada completa. Era um feijão melhorzinho, desses que tem todo dia em casa de rico”. Comido o feijão os outros toparam e arranjaram até lugar paira ensaiar. Um casal de Copacabana — o “seu” Gerson e a dona Liliam, que iam muito ao Zicartola e gostavam de vê-los cantar, ofereceu sua casa. Foi assim que uma turma de humildes compositores, da Mangueira, da Portela, Salgueiro, Aprendizes de Lucas se viu de repente numa casa granfina de Copacabana ensaiando os números que iriam apresentar mais tarde nos mais variados palcos. A estréia demorou um pouco e quase desfaz o conjunto. Zé Keti tinha ido parar num teatro de Arena, ao lado de Nara Leão e João do Vale num espetáculo que marcou época na história do Teatro Brasileiro “Opinião”. Outros cinco elementos do grupo foram fazer uma experiência no Teatro Jovem, em Botafogo. Ao lado de Aracy Côrtes que voltava ao cartaz e de Clementina de Jesus, que estreava aos 60 anos. Elton Medeiros, Nelson Sargento, Jair do Cavaquinho, Anescar e Paulinho da Viola, contribuíram decididamente para que um espetáculo despretensioso, imaginado por Hermínio Bello de Carvalho se tornasse um grande êxito de bilheteria, com o pública prestigiando de tal forma “Rosa de Ouro” que eles foram obrigados a transferir diversas vezes o término da temporada de sucesso. Mas, veio o momento de lançar o conjunto A VOZ DO MORRO e três anos depois daquela noite em que cantaram juntos pela primeira vez na casa do velho Cartola, os oito sambistas se reuniram outra vez para gravar seus sambas em fita, numa fábrica de discos. A fita serviria de amostra para os cantores que desejassem incluir um ou outro samba em seu repertório. A interpretação, no entanto, saiu tão boa, tão autêntica, tão eminentemente “voz do morro”, que o diretor artístico resolveu lançar um disco com eles. A estréia para o público do conjunto A VOZ DO MORRO deu-se na célebre gafieira “Estudantina”. Foi no começo de 65. Cantaram até de manhã e depois ficaram por ali mesmo, fazendo hora para ir pro estúdio de gravação. Á tarde o disco foi lançado. Para encurtar a história, os dois primeiros discos de oito sambista que o público praticamente não conhecia, figuraram na lista dos “Dez Melhores do Ano”, selecionados pela critica.

REPERTÓRIO

Cuidado [ ouça ♫ ] é um samba de Nelson Sargento e Marrêta, uma espécie de apresentação do conjunto, no qual solam, pela ordem, Nelson, Paulinho, Zé Keti e Elton. Este último, por sinal é quem, toca o surdo nesta gravação, numa prova de que todos se revessam nos instrumentos, embora, normalmente, o surdo esteja a cargo de Oscar Bigode, os violões com Nelson Sargento e Paulinho da Viola, o cavaquinho com Jair o chapéu de palha com José Cruz, Anescar com o tamborim. Para a gravação deste disco foram anexados ao conjunto quatro ritmistas: Alédio Clemente, Oswaldo Pereira, Jorge de Oliveira e Jorge Sacramento, este último excelente cuíca da Escola de Samba de Tuiuti. Os outros se revessam com os componentes do grupo tocando diversos instrumentos, pois são todos exímios integrantes de bateria de várias escolas. A Voz do Morro [ ouça ♫ ], samba que inspirou o nome do conjunto, foi o primeiro grande sucesso de Zé Keti e foi feito especialmente para o filme de Nelson Pereira dos Santos — “Rio, 40 graus”. O autor é o solista. Tiradentes [ ouça ♫ ], de Estanislau Silva, Arnaldo Ferrar e Décio Carlos, não tem solista. Trata-se do famoso samba de enrêdo que ajudou a Escola de Sambe Império Serrano a se tornar tri-campeã do Carnaval. Seu grande mérito é incluir duas vezes na melodia, de formas diferentes, o longo nome de Joaquim José da Silva Xavier. 400 Anos de Favela [ ouça ♫ ], um inédito de Zé Keti, solado pelo autor. Notem que aqui Zé Keti defende a tese inversa à que defendeu no samba “Opinião” e que provocou tanta discussão até nos meios políticos. Exaltação à Mangueira [ ouça ♫ ] venceu um carnaval na voz de um mangueirense fanático: Jamelão. Os autores são o veterano compositor da Estação Primeira, Eneias Silva e seu parceiro A. A. da Costa. Paulinho canta em ritmo lento, depois vem a segunda parte solada por Nelson Sargento para Paulinho encerrar da mesma maneira. Tanta Tristeza [ ouça ♫ ] é de Elton Medeiros e ele mesmo é o solista. A letra é de Kleber Santos. Quem repete o refrão em solo é Zé Keti. Meu Barracão de Zinco [ ouça ♫ ] de Jair Costa e José Bispo foi sucesso na voz do segundo que não é outro senão o popular Jamelão. Desta vez quem o sola é Jair Costa, que não é outro senão Jair do Cavaquinho. O número encerra a face “A” do disco.

A Voz do Morro foi uma das primeiras oportunidades que os sambistas de morro tiveram para gravar suas próprias composições

Sergio Porto

No lado “B’ um partido-alto abre a série. Este tipo de samba é uma das especialidades do grupo, que acompanha com palmas. Sinhá não Disse [ ouça ♫ ] é solado pelo autor — Paulinho da Viola. Carnaval que Passou [ ouça ♫ ] é de Anescar, o autor de “Chica da Silva”. Um lindo samba no qual ele conta suas emoções quando viu o Salgueiro vencer o desfile com este mesmo “Chica da Silva”. Oscar Bigode é o diretor de bateria da Portela e compôs Exaltação à Madureira [ ouça ♫ ] de parceria com Colombo. Reparem a beleza deste samba, cantado por Paulinho. Aventureira [ ouça ♫ ] de José Cruz, Noca e Poliba, é cantado pelo primeiro, um mestre do chapéu-de-palha. Seu instrumento é que complementa sempre as batidas do tamborim, enriquecendo o ritmo. Os breques cheios de humor são de Zé Keti. Só Eu Sei [ ouça ♫ ] melodia típica de escola, é o segundo samba da dupla Nelson Sargento e Marrêta, aqui apresentado por Nelson. A bateria, nesta gravação, está perfeita. Os sambas seguintes Tarde Demais [ ouça ♫ ], de Jairzinho e Alcides Lopes, cantado pelo primeiro, e Noite Linda [ ouça ♫ ], de Jairzinho, cantado por Paulinho da Viola são da mesma linha e lembram os grandes sambas da fase áurea da Música Popular Brasileira, quando na década de 40, eram cantadas por Patrício Teixeira e J.B. de Carvalho, entre outros. Encerrando essa coletânea de 15 sambas exemplares, numa época em que o bom exemplo é valiosíssimo, temos Anescar com seu samba Meus Dias São de Sol [ ouça ♫ ]. Na repetição da primeira parte, quem ‘resposteia’ (o verbo é da linguagem dos sambistas) é Paulinho da Viola.

Sérgio Porto
contracapa


Os Sambistas

Conjunto A Voz do Morro 1966, RGE (XRLP-5.290) | discogs
DISCO É CULTURA

Conjunto A Voz do Morro
O conjunto A Voz do Morro teve uma vida curta, mas foi marcante na vida de seus integrantes. (foto: Reprodução)

FICHA TÉCNICA — CONJUNTO A VOZ DO MORRO: José Cruz, Zé Keti, Elton Medeiros, Anescar, Nelson Sargento, Oscar Bigode, Jair do Cavaquinho e Paulinho da Viola / DIREÇÃO DE GRAVAÇÃO: Luis Antônio e Benil Santos / SOM: Alberto Soluri / FOTO: Mafra / LAY-OUT: Joselito e Nicolau / DIREÇÃO ARTÍSTICA: Júlio Nagib / MÚSICOS: informados no texto acima.

Considerações finais

Um dos principais grupos formados na esteira do espetáculo Rosa de Ouro, foi o conjunto A Voz do Morro. Era a primeira oportunidade que os sambistas de morro tinham para levar suas próprias composições para o disco, registrando perolas musicais que só eram cantadas em rodas de samba. Dessa maneira, quebrava-se uma lógica corrente sobretudo nos anos 30 e 40, quando os compositores só chegavam ao mercado fonográfico por intermédio de cantores conhecidos. O grupo surgiu na época das reuniões musicais na casa do Cartola, na rua dos Andradas. A Voz do Morro chegou a gravar três LPs e chegou a ter a participação dos músicos: Elton Medeiros, Cartola, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Jair Santana, Nelson Sargento, Paulinho da Viola, Anescar do Salqueiro, Zé da Cruz, Joacir Santana e Armando Santos da Portela.

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum — OS SAMBISTAS —, do grupo A Voz do Morro lançado em 1966 pela RGE.

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