Aracy de Almeida, a sambista carioca do Encantado, que é hoje a sambista de todo o Brasil, não é, como muitos querem, apenas “a grande intérprete de Noel“. Tem ela demasiada personalidade para ser apenas a cantora especialista em um só autor, mesmo que êste seja o genial poeta da Vila Isabel. Aracy, que durante 22 anos cantou as músicas do autor de “Com que roupa?“, quando era êle considerado “pouco comercial”, Aracy que é a grande responsável pela projeção do notável artista popular, certa vez queixou-se em carta enviada de São Paulo para o Rio: “Todos me pedem sempre as mesmas músicas, que são em número de três, ou sejam, Palpite infeliz, Último desejo e Feitiço da Vila“. Moça que não usa máscaras, de uma franqueza absoluta, sem negar em absoluto tôda a grandeza de um Noel Rosa, queria dizer em suas palavras que sabia cantar, também, outras coisinhas mais. E citava uma quantidade de sucessos por ela gravados, entre êles Camisa amarela, de Ary Barroso, e Tenha pena de mim, de Ciro de Sousa e Babaú.

Fiel a si mesma, fiel à sua arte, Aracy de Almeida está presente nêste seu “long-playing” de estréia na Philips. É uma Aracy 1960, sem que isto queira de longe dizer que a cantora tenha perdido uma só de suas marcantes características. Vamos encontrá-la com a mesma voz estranha e de timbre tão belo, vamos encontrá-la cantando ainda o verdadeiro samba carioca, cheio de ritmo, repleto de “bossa” e de invenção poética, satírico ou ingênuo, pois Aracy não se “abolerou”, não admitiu nem admitirá em seu repertório os amorfos samboleros e sambaladas, que nada transmitem à nossa sensibilidade e encantamento.

Mas é uma Aracy 1960, pelo repetório. Trazendo composições inéditas de alguns compositores já consagrados, um Vadico, um Marino Pinto ou um Vinicius de Moraes, revela meia dúzia de novos talentos, que ela soube descobrir por gosto ou intuição. E não falta mesmo uma composição de Noel Rosa, mas desta vez absolutamente inédita em disco — Suspiro — feita de parceria com Orestes Barbosa outro gigante do populário carioca, autor de dezenas de canções que o Brasil inteiro decorou.

Os diversos números ora apresentados foram orquestrados pelo maestro Carlos Monteiro de Souza talento que surge com a maestria de um veterano, sabendo valorizar a moldura musical que mais se adapta á cantora, inclusive incluindo côros femininos e mixtos em algumas faces, sempre em função da melodia e do rítmo.

Conhecendo Aracy de Almeida desde o início de sua carreira, nos bons tempos da Rádio Ipanema, quando a cantora era um fiapo de gente, magrinha e delicada, o autor destas linhas sente-se feliz ao escrever estas notas, constatando que, vinte-e-cinco anos depois, a cantora ainda é a melhor intérprete do samba carioca, ainda possui o mesmo timbre deslumbranbte, ainda é “o samba em pessoa”, como a definiu César Ladeira num momento de felicidade.

Lúcio Rangel
texto fielmente trancrito da contracapa do LP


Faixas

Lado A

  1. PRA QUE
    (Alcebíades Nogueira – Colombo)
  2. A VERDADE DÓI
    (Vadico)
  3. DÓI… DÓI… DÓI
    (João Mello)
  4. DE MODO ALGUM
    (Marino Pinto – Aloísio Barros)
  5. CHORANDO PEDIA
    (Vinicius de Moraes)
  6. SUSPIRO
    (Noel Rosa – Orestes Barbosa)

Lado B

  1. BROTINHO BOSSA NOVA
    (João Roberto Kelly)
  2. MULHER DE BOÊMIO
    (Alcebíades Nogueira – Ari Monteiro)
  3. NÃO
    (Carlos Monteiro de Souza – Alberto Paz)
  4. NÃO LEVO NADA NÃO
    (Raimundo Olavo)
  5. E DAÍ
    (Miguel Gustavo)
  6. ONDE ESTA A HONESTIDADE
    (Noel Rosa)

Direção Musical: MONTEIRO DE SOUZA


Aracy de Almeida – Samba com Aracy de Almeida
Philips – P 630.410 L
Vinil, LP
1960
DISCO É CULTURA

Publicado por Marcelo Oliveira

Sou carioca, mangueirense, botafoguense e apaixonado por samba. Meu objetivo com o blog sambaderaiz é divulgar o SAMBA, compartilhando meu acervo fonográfico. Que o blog seja um espaço de “Resistência Cultural” e em “Defesa da Tradição do Samba”. Forte abraço. marcelo@sambaderaiz.org

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