Tenho agora o orgulho de comentar o primeiro LP contendo sambas-enredo anuais do carnaval carioca. Devemos todos nós este disco a Hélio Turco e a Ala de Compositores da Mangueira. Sabem por que? Foram eles os compositores do samba-enredo clássico de 1967, “Mundo Encantado de Monteiro Lobato“. Essa primorosa obra, que levantou ainda um campeonato para a verde-rosa, se tornou sucesso no Brasil inteiro na voz da cantora Eliana Pitman. As gravadoras de música despestaram um enorme interesse pelos nossos amados sambas-enredo. Daí, foram gravados, no final de 1967, sambas que seriam levados para a avenida no próximo ano, em 1968.

Foram lançados dois LPs: o “Festival de Samba”, da gravadora Codil, e o “As dez grandes escolas cantam para a posteridade seus sambas de 1968”, gravado pelo MIS (Museu de Imagem e Som). Infelizmente, faltou o samba de três escolas no disco da Codil (São Carlos, Império da Tijuca e Independentes do Leblon). Ambas as gravações são muito precárias, tendo o objetivo (mal-sucedido) de priorizar a voz do cantor. Na primeira, os sambas são cantados só pelo intérprete. Na segunda passada, a bateria entra com as pastoras. Primeiro, que a bateria mais parece uma batucada mal-feita com latas, gerando um som oco, nada cadenciado. Segundo, que na maioria das faixas as pastoras aparecem muito desafinadas. Se a gravadora já sabia bem o tipo de gravação que eles tinha na época, por que forçaram tanto a barra?

Gabriel Carin
sambariocarnaval.com

 

Repertório

Mangueira – “Samba Festa de um Povo” – Um clássico da verde-rosa! Grande samba mangueirense do mestre Hélio Turco e cia. Ajudou muito a levantar o bicampeonato em 1968 e até hoje encanta muita gente por aí. Tem uma letra incrivelmente poética e uma melodia muito simpática, até um pouco pesadinha (algo comum nos sambas verde-rosas dos anos 60). Os refrões são as únicas partes que podiam ser um pouquinho mais caprichadas. Mesmo assim, é uma obra fantástica, uma bela homenagem ao relicário do samba! Gosto muito do trecho “Oh! Melodia/Oh! Melodia triunfal/Sublime festa de um povo/Orgulho do nosso carnaval“.

Unidos de São Carlos – “Visita ao Museo Imperial” –  Samba animadinho, num enredo interessante (Museu Imperial). O resultado é muito bom para um enredo complexo. Porém, ainda não entendi se o enredo trata do Museu Imperial de Petrópolis ou da Quinta da Boa Vista (aqui no Rio). Creio que deve ser o de Petrópolis mesmo, pois a coroa, as jóias, o fardo e as carruagens do imperador Dom Pedro estão lá (mas o nome é o mesmo). O refrão “Encerra passagem da nossa história/Todo o passado de glória/Deste exuberante relicário” é muito bom. A obra merecia uma regravação pra não cair no ostracismo.

Império Serrano – “Pernambuco, Leão do Norte” – Obra-de-arte de Mestre Silas de Oliveira! “Pernambuco, Leão do Norte” é considerado seu pior samba no seu período dourado (1964-1969), mas mesmo assim é maravilhoso. É um clássico extraordinário do Viga Mestre imperiano! Sua letra é primorosa, com rimas belíssimas, coisa que só gente campeã consegue fazer, pois conta muito bem o enredo pernambucano. A melodia é singular, pois é um dos únicos sambas que, quando são cantados aceleradamente, ficam mais gostosos e dançantes. A parte “Evocando os Palmares/Terra de Bamboriki/Ainda ouço pelos ares/O retumbante grito do Zumbi” é um delírio para os amantes de samba-enredo. Boa obra, apesar de não ser o melhor samba dele.

Independentes do Leblon – “Aspectos da Vida Carioca no Século XVIII” – A Independentes do Leblon, que tinha sua quadra localizada no morro da Praia do Pinto, por pouco não correu risco de desaparecer. Em 1969, a sede da escola viria a ser transformada pela prefeitura em um conjunto residencial, o que literalmente despejaria os sambistas no olho da rua. Entretanto, com muito esforço, os moradores do bairro conseguiram reerguer a agremiação e montar uma nova quadra, na Cidade Alta, fundando assim a Independentes do Cordovil. Quanto ao samba de 1968, ano de sua última aparição no Primeiro Grupo, é relativamente bom. O grande destaque da obra é sua letra, recheada de lirismo e capaz de contar o enredo com competência (apesar de uns errinhos de métrica aqui e acolá). Infelizmente, o maior pecado desse samba é justamente sua melodia, principalmente na primeira parte. As variações são escassas, sem brilho e o hino acaba beirando a monotonia. Porém, como se partisse do zero, a obra cresce assustadoramente do ponto de vista melódico em sua segunda parte, conseguindo enfim cativar o ouvinte. Ambos os refrões são bonitos.

Unidos de Vila Isabel – “Quatro Séculos de Modas e Costumes” – Outro samba primoroso de Martinho (o mestre emprestou o seu talento para a faixa da MIS), o seu segundo samba para a escola. Parece que o cantor está narrando um desfile de modas, cujos desfilantes são de todas as épocas. Você pode reparar isto no refrão “Lá vem o negro/Vejam as mucamas/Também vem com o branco/Elegantes damas“. A melodia é muito bonita, com várias variações interessantes. Belo momento da Vila Isabel no primeiro Grupo! A agremiação ganhava muito destaque no carnaval e Martinho revolucionava o estilo de samba da época.

Mocidade Independente – “Viagem Pitoresca Através do Brasil” – A bateria de Mestre André era realmente espetacular! No disco da MIS, ela fica dando um showzinho durante quase a metade da faixa! Só pára de fazer o espetáculo lá pros dois minutos da gravação, quando o coro começa a entoar o samba. O samba da Mocidade é lindíssimo! Mais uma vez, a péssima qualidade da gravação é um golpe muito baixo contra a escola da Vila Vintém. A melodia da obra é muito envolvente, um lirismo incrível! O refrão “Glórias…/A esta bela viagem sua/Pois existem até hoje em Munique/Lindos quadros retratados em pinturas” é um dos mais emocionantes que a Mocidade já teve. A letra conta muito bem o tema, que em certos momentos lembra o samba da Imperatriz de 1969, “Brasil, flor amorosa de três raças”.

Salgueiro – “Dona Bêja – A Feiticeira de Araxá” – O melhor samba do ano (supera por muito pouco o “Sublime Pergaminho”)!!! Pra falar a verdade, melhor do ano é pouco. Tá bem: o melhor samba-enredo da história do Salgueiro! Sua melodia merece um prêmio pela emoção inesquecível. Passa todo um sentimento maravilhoso para o ouvinte, algo que a gente jamais vê em um samba de hoje em dia. A melhor obra de Aurinho da Ilha, que compôs também clássicos como “História da Liberdade no Brasil” (Salgueiro-1967) e “Domingo” (União da Ilha-1977). Você não precisa nem prestar atenção na letra da obra que o sentimento passado pela melodia já propaga a paz em sua mente. As variações são muito complexas, nem parece que é um ser humano comum que fez samba. Hoje em dia, a gente não vê um samba deste. Quando a gente acha que a melodia complexa dos versos vai “repousar”, surge outra variação extraordinária. Vocês podem notar isso que eu disse quando acaba lentamente a parte “Mas antes, com seu trejeito feiticeiro/Traz o Triângulo Mineiro/De volta a Minas Gerais” e de repente, surge outros potentes versos “E até o fim da vida/Dona Beija ouviu falar/E seu nome figurar/Na história de Araxá“. Mas, mesmo assim, é muito difícil um ouvinte não se encantar pela letra esplendorosa deste samba. Pra falar a verdade, essa obra não tem letra, tem poema!!! A introdução (“Certa jovem linda, divinal/Seduziu com seus encantos de menina/O Ouvidor Geral/Levada a trocar de roupagem/Numa nova linhagem/Ela foi debutar“) dispensa comentários. Imagina o que Ana Jacintha deveria sentir ao pelo menos ler o trecho “Ana Jacinta, rainha das flores/Dos grandes amores, dos salões reais/Com seus encantos e suas influências/Supera as intrigas/E os preconceitos sociais“!!! Ainda há o endeusamento (pasme) exagerado que Aurinho faz na parte “Era tão linda, tão meiga, tão bela/Ninguém mais formosa que ela/No reino daquele Ouvidor/Ela com seu trejeito reticente/Fez um reinado diferente/Na corte de Araxá/E nos devaneios da festa de Jatobá“. Acho que falei do samba inteirinho neste comentário.

Império da Tijuca – “Homenagem a Portinari” – Samba poético e dolente, que faz uma bela homenagem a Portinari. Tem alguns ‘remendos’ na letra, mas se trata de um bom samba.

Unidos de Lucas – “Sublime Pergaminho” – Um clássico do carnaval, eleito por muitos o melhor samba de 1968 e até de todos os tempos! A Unidos de Lucas conseguiu sua melhor colocação (quinto lugar) com este maravilhoso samba de Carlinhos Madrugada, Zeca Melodia e Nílton Russo e com o trabalho genial de Clóvis Bornay como carnavalesco. Foi puxado na avenida por Abílio Martins. Narra com grande perfeição o sofrimento dos negros na primeira parte. Aos poucos, ao decorrer da obra, essa dor vai “sarando” e a cada anúncio de revogação das leis, você sente o samba muito mais otimista. A obra cresce ao decorrer de cada verso. É uma verdadeira aula de História sobre a abolição da escravatura! Os versos “Iludidos com quinquilharias/Os negros não sabiam/Ser apenas sedução/Para serem armazenados/E vendidos como escravos/Na mais cruel traição” mostram perfeitamente a revolta dos negros com ilusão dos escravagistas, que alegavam o Brasil ser um paraíso perfeito para viver. Mal sabiam os africanos que era mentira e que viriam para o Brasil para serem escravizados! Já no Brasil, eles se uniam para tentar se libertar da mão-de-ferro dos brancos (“Formavam irmandades/Em grande união/Daí nasceram os festejos/Que alimentavam os desejos de libertação“). “De repente, uma lei surgiu” a favor dos torturados escravos (a partir do refrão central, o jogo começa a virar). Primeiro veio a Lei do Ventre Livre (“E de repente uma lei surgiu/Que os filhos dos escravos/Não seriam mais escravos do Brasil“), depois a dos Sexagenários (“Mais tarde, raiou a liberdade/Daqueles que completassem/Sessenta anos de idade“). Foram aparecendo outras leis e os negros ganhavam cada vez mais forças. Até que a Lei Áurea foi assinada (“O sublime pergaminho/Libertação geral/A princesa chorou ao receber/A rosa de ouro papal”). Toda a nação abolicionista comemorava esse feito extraordinário (“Uma chuva de flores cobriu o salão/E um negro jornalista/De joelhos beijou a sua mão“). A notícia do fim da escravidão corria chão, até o Brasil se tornar de vez o último país a acabar com a escravatura (“Uma voz na varanda do paço ecoou/Meu Deus, meu Deus/Está extinta a escravidão“). Como eu disse antes, toda a história da abolição da escravatura foi contada neste fantástico samba-enredo. Assim como “Navio Negreiro” (1957), “Ilu Ayê” (1972), “100 anos de liberdade ou ilusão” (1988), entre muitas outras obras, este samba é um hino a favor dos injustiçados negros brasileiros e um delírio para os bambas.

Portela – “Tronco do Ipê” – Depois de uma sucessão de obras-primas, vem esse samba chatíssimo, extremamente enjoativo. Considero “Tronco do Ipê”, nada menos que O PIOR SAMBA-ENREDO DA HISTÓRIA DA PORTELA!!! Acho pior, inclusive, que o tão criticado “Mulher à Brasileira”, de 1978. O compositor desse boi-com-abóbora é, por incrível que parece, Cabana, o mesmo autor das obras-de-arte “Peri e Ceci” (Beija-Flor-1963) e “Ilu Ayê” (Portela-1972). Sua letra fala, fala, fala e não diz absolutamente nada. Ou seja, a maior parte da obra não aborda coisa alguma sobre o enredo. Até os “Ô ô ô” e os “lalalaraiá” são fracos. Do nada, o samba solta uns versos mal-feitos com os nomes dos personagens constados na história. O compositor poderia se aprofundar muito mais ao falar de cada um deles e uma introdução decente cairia muito bem. Mas creio que ele preferiu passar a maior parte do samba falando que “Tronco do Ipê” é uma grande obra-prima da literatura, que José de Alencar era um gênio, etc., num blá-blá-blá inútil. O trecho “Muito importante e também de emoção/Foi quando Alice caiu no boqueirão” é uma esquisitice só. Parece até que cair num boqueirão é algo muito emocionante. Nos versos “Mário num esforço sobrenatural/Consumou a sua salvação” nota-se que o autor quer chamar atenção por usar palavras difíceis, mas que não fazem sentido algum, pois Mário não usou nenhum esforço sobrenatural pra “consumar a salvação” (ou melhor dizendo, salvar) Alice. A melodia também é muito mal-construída, alternando entre notas demasiadamente alongadas e versos cantados com muita rapidez. Tudo isso combinado a um refrão forçado, de letra e melodia intragáveis. Enfim, o pior samba do ano, sem dúvida alguma! Curiosidade: “Peri e Ceci”, outro samba de autoria de Cabana, também é um romance de José de Alencar, tal como “Tronco no Ipê”, mas é óbvio que esses dois sambas nem dão para serem comparados.

Gabriel Carin
sambariocarnaval.com

capa do LP as dez grandes escolas cantam para a posteridade seus sambas-enrêdo de 1968 MIS

Samba, Festa de um Povo (Mangueira)
(Darcy da Mangueira/Luis/Batista/Hélio Turco/Dico) Intérprete: Darci

Visita Ao Museu Imperial (Unidos de São Carlos)
(Jorge Cabo)

Pernambuco, Leão do Norte (Império Serrano)
(Silas de Oliveira)

Aspectos da Vida Carioca no Século XVIII (Independente do Leblon)
(Alexandre Luis) Intérprete: Julinho

Quatro Séculos de Modas e Costumes (Unidos de Vila Isabel)
(Martinho da Vila) Intérprete: Martinho da Vila

Viagem Pitoresca Através do Brasil (Mocidade Independente)
(Tião da Roça/Djalma Santos)

Dona Bêja, Feiticeira do Araxá (Salgueiro)
(Aurinho da Ilha)

Homenagem a Portinari (Império da Tijuca)
(Ailton Furtado/Mário Pereira) Intérprete: Mário Pereira

Sublime Pergaminho (Unidos de Lucas)
(Carlinhos Madrugada/Zeca Melodia/Nilton Russo) Intérprete: Abílio Martins

Tronco do Ipê (Portela)
(Cabana) Intérpretes: Maninho/Catoni


MIS – Museu da Imagem e do Som – MIS 003, LP

Publicado por Marcelo Oliveira

Sou carioca, mangueirense, botafoguense e apaixonado por samba. Meu objetivo com o blog sambaderaiz é divulgar o SAMBA, compartilhando meu acervo fonográfico. Que o blog seja um espaço de “Resistência Cultural” e em “Defesa da Tradição do Samba”. Forte abraço. marcelo@sambaderaiz.org

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