Nélson Cavaquinho e eu já varamos muitas madrugadas juntos durante um tempo de minha vida. Por isso posso falar de cadeira desse compositor. Não como crítico, historiador ou repórter, mas como companheiro de boêmia, aprendiz de sua linguagem e conhecedor de sua obra.

Como companheiro, acumulo estórias sobre essa figura singular do povo: não as folclóricas, já repetidas muitas vezes por quem ouviu falar ou essa ou aquela de passados longínquos, mas as com as quais convivi, vi acontecer, participei como personagem. Poucas vezes vi pessoa tão terna no tratar com seus semelhantes, com a gente simples e humilde (prostitutas, marginais, bêbados, mendigos, trabalhadores) que povoa seu mundo cotidiano. Vi Nélson ganhar cachês e distribui-los inteiros entre essa gente, num começo de manhã, ficando sem dinheiro para voltar pra casa. Conheci e me espantei com o Nélson filósofo de depois da décina dose de qualquer bebida.

Passava a vida tão a limpo numa mesa de bar, que intectuais se curvavam diante de sua lógica e visão do mundo. Senti o homem religioso que ele é e a cada momento, com sua imensa fé e sua conversa infindável sobre o mistério da morte. Querendo, talvéz, convencer-se a si próprio que conversará com seu Deus um dia. Vi o Nélson promíscuo em sua missão inusitada pelo meretrício. Vi muitas faces desse homem. E a convivência pacífica e pura, dentro de seu coração, de seus santos e demônios, virtudes e pecados, ânsias e tranquilidades.

Como aprendiz, suponho-me suspeito para falar de seu talento. Considero Nélson o sambista popular que mais me arrebatou e emocionou, com seus temas extremamente originais, estranho ás vezes, mas belos e de fácil assimilação. Melodias vigorosas e inconfundíveis. Versos profundos de marcada vivência. Versos de filosofia. De poesia lírica. De malandragem. Versos moleques de bom-humor como é ele próprio. Ele não fez senão o que ele é de verdade. Nunca fugiu de sua linha. Nunca saiu de seu caminho. É, com letras maiúsculas, o VERDADEIRO COMPOSITOR POPULAR.

E finalmente, como conhecedor de sua obra, só posso provar isso, qualquer dia desses, em alguma roda-de-samba de mesa de botequim onde ele esteja, cantando, de cor, o que ele puxar em seu violão. E com o mesmo timbre de voz. Porque foi do mesmo barro da sua que a minha voz foi feita. Nossas vozes vieram do fundo do poço da noite. Não é à toa que me chamam de filho do Nélson Cavaquinho quando canto.

Portanto
Sua benção meu pai.
Paulo César Pinheiro

P.S. – Acabei não falando a respeito do disco. Mas também pra que falar? Vamos escutá-lo e louvá-lo, oferecendo ao Nelson, as flores, que ele merece, em vida.
contracapa do elepê

LP AS FLORES EM VIDA - NELSON CAVAQUINHO | 1985, Eldorado

LADO A

  1. DEVIA SER CONDENADA
    (Nelson Cavaquinho/Cartola) – NELSON CAVAQUINHO – 3’44”
  2. DONA CAROLA
    (Nelson Cavaquinho/Nourival Bahia/Walto Feitosa) – CHICO BUARQUE DE HOLANDA – 2’08”
  3. NÃO TE DÓI A CONSCIÊNCIA
    (Nelson Cavaquinho/Ary Monteiro/Augusto Garcez)
    QUEM CHORA SEMPRE TEM RAZÃO
    (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito) – NELSON CAVAQUINHO – PAULINHO DA VIOLA – 5’20”
  4. AQUELE BILHETINHO
    (Nelson Cavaquinho/Augusto Garcez/Canegal) – CRISTINA BUARQUE – 2’30”
  5. HISTÓRIA DE UM VALENTE
    (Nelson Cavaquinho/José Ribeiro de Souza) – JOÃO BOSCO – 3’32”

LADO B

  1. NINHO DESFEITO
    (Nelson Cavaquinho/Wilson Canegal) – NELSON CAVAQUINHO – 2’51”
  2. RUGAS
    (Nelson Cavaquinho/Ary Monteiro/Augusto Garcez) – BETH CARVALHO – 2’51”
  3. FOLHAS SECAS
    (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito) – TOQUINHO 2’54”
  4. PECADO
    (Nelson Cavaquinho/Ligia Uchôa) – CARLINHOS VERGUEIRO –
  5. MINHA HONESTIDADE VALE OURO
    (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito) – NELSON CAVAQUINHO – 2’30”
  6. QUANDO EU ME CHAMAR SAUDADE
    (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito) – BEBEL, BEE, CHRISTINA, BETH CARVALHO, MAURO DUARTE, CARLINHOS VERGUEIRO, CHICO BUARQUE, JOÃO BOSCO, PAULINHO DA VIOLA, PAULO CÉSAR PINHEIRO

Estúdio Eldorado ‎– 95.85.0465, LP

COORDENAÇÃO ARTÍSTICA: Aluízio Falcão
PRODUÇÃO: Carlinhos Vergueiro e Christina Buarque
CO-PRODUÇÃO: Mauro Duarte
ARRANJOS: Edson José Alves
TÉCNICO DE GRAVAÇÃO: José Luis Costa (Gatão) – (SP) e Roberto – (Rio)
FOTOS: Carlos Horcades
MIXAGEM: Gatão, Carlinhos e Edson
DIREÇÃO DE ARTE E CAPA: Ariel Severino
ASSISTENTE DE ARTE: Paulo F.T. Nascimento

Publicado por Marcelo Oliveira

Sou carioca, mangueirense, botafoguense e apaixonado por samba. Meu objetivo com o blog sambaderaiz é divulgar o SAMBA, compartilhando meu acervo fonográfico. Que o blog seja um espaço de “Resistência Cultural” e em “Defesa da Tradição do Samba”. Forte abraço. marcelo@sambaderaiz.org

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