Moacyr Luz e Aldir Blanc formam uma das duplas mais criativas da MPB. Autores de clássicos como “Anjo da Velha Guarda”, “Flores em vida”, “Coração do agreste”, eles compuseram com Paulo César Pinheiro o sucesso “Saudades da Guanabara”; bela composição gravada por Beth Carvalho, e título deste LP que hoje trago, de 89.

Moacyr Luz conta no documentário “Aldir Blanc – dois prá lá, dois prá cá”, que Paulo César Pinheiro o visitava, quando Aldir Blanc foi a sua casa. Moacyr mostrou-lhes uma composição que Beth Carvalho tinha gostado da melodia, porém não apreciado muito a letra. Aproveitando o momento de estar com P.C. Pinheiro e Aldir, 2 letristas inquestionáveis, Moacyr sugeriu que eles refizessem a letra.

A conversa continuou, porém a cerveja acabou. Nesse instante, Aldir foi até a sua casa para buscar mais algumas. Como demorou para voltar, Moacyr desanimou, achando que não sairia nada mais. Mais de 20 minutos depois, volta Aldir Blanc, com um trecho da letra e com título da música. Paulo Pinheiro vai embora levando a música e, aproximadamente 2 horas depois liga para Moacyr e passa o restante da letra. Uma parceria perfeita de 3 maravilhosos representantes da verdadeira música popular carioca…

Letra de um dos mais belo sambas que conheço:

Eu sei
Que o meu peito é uma lona armada
Nostalgia não paga entrada
Circo vive é de ilusão (eu sei…)
Chorei
Com saudades da Guanabara
Refulgindo de estrelas claras
Longe dessa devastação (…e então)
Armei
Pic-nic na Mesa do Imperador
E na Vista Chinesa solucei de dor
Pelos crimes que rolam contra a liberdade
Reguei
O Salgueiro pra muda pegar outro alento
E plantei novos brotos no Engenho de Dentro
Pra alma não se atrofiar (Brasil)
Brasil, tua cara ainda é o Rio de Janeiro
Três por quatro na foto e o teu corpo inteiro
Precisa se regenerar
Mas eu sei…

Eu sei
Que a cidade hoje está mudada
Santa Cruz, Zona Sul, Baixada
Vala negra no coração (…chorei)
Chorei
Com saudades da Guanabara
Da Lagoa de águas claras
Fui tomado de compaixão (…e então)
Passei
Pelas praias da Ilha do Governador
E subi São Conrado até o Redentor
Lá no morro Encantado eu pedi piedade
Plantei
Ramos de Laranjeiras foi meu juramento
No Flamengo, Catete, na Lapa e no Centro
Pois é pra gente respirar (Brasil)
Brasil
Tira as flechas do peito do meu Padroeiro
Que São Sebastião do Rio de Janeiro
Ainda pode se salvar

Beth Carvalho | SAUDADES DA GUANABARA (1989)

Segundo as próprias palavras de Moa:

Eu fazia reuniões semanais na minha casa da Tijuca, recebendo importantes artistas brasileiros. Acaba sendo pomposo, fazer o quê? É real! Guinga, Fátima Guedes, Leila Pinheiro, Sueli Costa, João Nogueira e até Lenine eram presenças constantes. De cantoras, Itamara Koorax, Leny Andrade, Selma Reis e Beth Carvalho marcavam ponto na roda musical. Na lista de letristas, Sérgio Natureza, Paulo Emílio, Paulo Cesar Pinheiro e Aldir Blanc. O samba Saudades… já existia, com uma letra minha mas, sinceramente, truncada demais.

Num pequeno silêncio de canções e sambas dolentes, fui à cozinha abrir uma gelada nos bons tempos de fígado zerado. Beth se aproxima e elogia a melodia do Saudades…
– Mas a letra, Moa…Tantos parceiros…

Uma insônia me consumiu o resto da semana até receber um telefonema do mestre Paulinho Pinheiro. Ele tinha terminado um samba nosso. Estava perto do bairro, viria mostrar os versos. Avisei ao Aldir, vizinho de prédio, da bela surpresa, a presença do autor de “Viagem”. E meu parceiro Blanc prometeu descer “prum” papo a três.

A tarde caindo, talvez feito um viaduto, eu puxando o assunto da madrinha Beth:
– Aceitam refazer a letra?

Meia hora depois o Aldir sobe pra buscar mais cervejas guardadas na geladeira do seu apartamento, o 402. Demora uns vinte minutos, tempo que eu apostei como certo o seu desaparecimento daquele encontro.

Toca de novo a campainha trazendo à mão uma folha rabiscada que mais parecia carta psicografada por algum médium suburbano.

Era a primeira parte do “Saudades da Guanabara”.

Paulinho se despede muito calado pra uma tarde etílica levando no bolso uma cópia das estrofes.

Foi tudo muito rápido. Logo, telefone no pescoço e mão esquerda anotando, vejo a segunda parte do samba chegar cortando o meu peito carioca de uma emoção que ainda sinto agora, relembrando.

Ligo pra Beth e peço uma opinião sobre a nova letra.

Um mês depois, em setembro de 1989, Beth Carvalho lança pela Polygram o disco “Saudades da Guanabara”.

Aconteceu há 20 anos.
Num dia de bagunça.

Blog do Moacyr Luz


Faixas

LADO 1

  1. SAUDADES DA GUANABARA
    Moacyr Luz – Paulo César Pinheiro – Aldir Blanc
  2. MEU SAMBA DIZ
    Sombra – Sombrinha – Adilson Victor
  3. BOTA LENHA NA FOGUEIRA
    Arlindo Cruz – Cláudio Azeredo – Franco
  4. VAQUEIRADA
    Bororó Felipe – Edmundo Souto – Ney Lopes
  5. ZIGUEZAGUEOU
    Cláudio Cartier – Márcio Proença – Marco Aurélio
  6. SORRISO DE CRIANÇA
    D. Ivone Lara – Délcio Carvalho
    Part. Especial: Elizeth Cardoso

LADO 2

  1. SONHANDO EU SOU FELIZ
    Arlindo Cruz – Marquinho PQD – Franco
  2. SEM ATAQUE, SEM DEFESA
    Sombra – Adilson Victor
  3. ATÉ QUEM NÃO É
    Otacílio da Mangueira – Carlos Senna
  4. OS BRASÍADAS
    Paulinho Soares
    O CANTO DO PAJÉ
    Música Incidental: Heitor Villa-Lobos – C. Paula Barros
  5. APARTHEID NÃO
    Serginho Meriti – Arlindo Cruz – Franco
  6. NÃO ME FAZ DE IOIÔ
    Arlindo Cruz – Franco
  7. BOTAFOGO CAMPEÃO (ESSE É O BOTAFOGO QUE EU GOSTO)
    Elias da Silva – Pedro Russo – Maurício Izidoro

Ficha Técnica

ARMANDO PITTIGLIANI direção artística
RENATO CORREA produção
IVAN PAULO – GERALDO VESPAR arranjos
VALTER FIRMO foto capa

Músicos

WILSON DAS NEVES bateria
ARLINDO CRUZ cavaquinho, banjo
GORDINHO surdo, ganzá
PAULINHO DA ABA pandeiro, tamborim
ALCYR MARQUES tan-tan
MARCELO repique, agogô
NECO violão
VALTINHO bateria
SOMBRINHA tan-tan
SOMBRA cavaquinho
WANDERSON cavaquinho
UBIRANI repique
BIRA PRESIDENTE pandeiro


Beth Carvalho ‎– Saudades da Guanabara
Philips ‎– 842 084-1
LP, Vinil
1989
DISCO É CULTURA

Publicado por Marcelo Oliveira

Sou carioca, mangueirense, botafoguense e apaixonado por samba. Meu objetivo com o blog sambaderaiz é divulgar o SAMBA, compartilhando meu acervo fonográfico. Que o blog seja um espaço de “Resistência Cultural” e em “Defesa da Tradição do Samba”. Forte abraço. marcelo@sambaderaiz.org

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