Foi na tarde de ontem êste encontro dos dois. Mais tarde istso aparecerá contato como história e foi tão simples o seu modo de acontecer. Dorival Caymmi, acompanhado dos seus filhos, Nana, Dori e Danilo, foi visitar Tom Jobim, recém-chegado dos Estados Unidos, na sua residência, à rua Barão da Torre. Foi om momentos de os dois compositores da nossa música popular confessarem uma admiração mútua e antiga, o que fêz do encontro uma reunião agradável, feliz. Caymmi e Nana cantaram músicas de Tom, acomnpanhados por Dori no violão e Danilo na flauta. Tom, por sua vez, interpretou músicas do compositor da Bahia. Os dois trocaram gentilezas, oferecendo um ao outro sua última composição. E a Elenco também estava presente, gravando o encontro, que afinal será no futuro um docuimentário valioso para a nossa música popular.
texto fielmente transcrito da capa do LP

Existem coisas na vida que devem ser aproveitadas ao máximo, são prazeres, digamos, inenarráveis, que apesar de simples enchem de alegria nossa existência. Para muitas pessoas os momentos bons da vida devem ser vividos intensamente para serem eternamente lembrados. Porém, apesar de muitos considerarem fama, dinheiro, sucesso profissional, valores que adoçam a existência, são nos pequenos prazeres que encontramos a verdadeira felicidade, ou chegamos perto dela. Isso porque o que vale mesmo são aqueles instantes compartilhados com harmonia, paz de espírito, livres de superficialidades, espontâneos, pois, dessa forma eles acontecem mais serenamente e fluem com mais frequência e intensidade.

Se formos fazer um balanço de como anda a vida das pessoas no mundo atual verificaremos sem maiores dificuldades que vivemos em um planeta estressado, correndo sempre atrás de resultados que nos supram a sobrevivência e depois de algumas conquistas, gastamos todas as economias em coisas supérfluas, dominado que somos pelo mercado de consumo a fim de extravasarmos as nossas vaidades. É uma vida superficial que invariavelmente nos leva a uma perspectiva enganosa do que sejam os verdadeiros prazeres da existência, daí a constatação de que as frivolidades do mundo moderno nos consomem tão vorazmente que nem sequer não nos damos conta de as quantas andam nossa relação com o universo que nos cerca acarretando problemas existências presentes e futuros.

Dorival Caymmi e Tom Jobim

Nessa conjetura devemos então ficar atentos para não nos deixarmos envolver com situações desnecessárias, aumentando a sua importância e somatizando seus resultados, deixemos, portanto, nos levar pelo nosso livre arbítrio com responsabilidade e vigilância necessária para que os acontecimentos importantes que vivenciarmos surjam de forma espontânea, pois serão mais verdadeiros e deixarão um legado de saudade e frescor muito agradáveis quando relembrados, pois serão muito especiais, assim, construiremos nossas biografias com mais segurança, tranquilidade e certeza de que não nos deixamos seduzir pelas futilidades e valores pífios que a vida nos oferece, e teremos então sido plenamente felizes e realizados.

Foi justamente pensando nos momentos de encantamento que podemos proporcionar a nos mesmos e aos nossos amigos e familiares que se deu uma reunião de músicos da mais alta linha da canção brasileira, resultando na perpetuação de um trabalho magnífico, atemporal, permanente. O ano era 1963 e o produtor Aloysio de Oliveira dono da gravadora Elenco resolveu unir a família Caymmi ao talentoso compositor bossanovista Tom Jobim para uma gravação onde predominaria a intimidade e a espontaneidade de um encontro de grandes músicos num clima de festa em família, mas, sem as artificialidades de uma típica gravação de estúdio.

A ideia era justamente que na informalidade dos convidados surgissem momentos únicos, aqueles que só aconteceriam se fossem realizados sem nenhuma preparação prévia, naturalmente. Para esse encontro musical foram também chamados o baixista, Sérgio Barroso e os bateristas Doum Romão e Edison Machado, com o objetivo de fazerem o acompanhamento e darem também sua canja na reunião.

As gravações ocorreram em um clima ameno e esse encontro musical definiu as vidas de alguns de seus personagens. Estavam presentes além de Tom Jobim e Dorival Caymmi os filhos e a esposa do compositor baiano, Nana, Dori, Danilo e Stêla.

Como em toda reunião de amigos fraternos houve trocas de gentilezas e Caymmi ofereceu a Tom Jobim a inédita canção “…Das rosas” e Tom devolveu com a também inédita, “Só tinha de ser com você” em parceria com Aloysio de Oliveira, duas musicas que brevemente se tornariam clássicas.

Nana Caymmi que vinha de um casamento desgastado e morando na Venezuela, estava passando uma temporada no Brasil e ainda tinha dúvidas quanto as suas pretensões em ser cantora profissional, depois, portanto, de ter cantado nesse disco “Inútil paisagem”, de Tom e Aloysio de Oliveira, acompanhada do pai e num belíssimo voo solo, “Sem você”, de Tom e Vinícius e “Tristeza de nós dois”, de Durval Ferreira, Bebeto e Maurício Einhorn, definiu de vez sua vocação resolvendo seguir carreira como intérprete.

Dori Caymmi também sentiu-se estimulado e a partir de então profissionalizou-se como violonista, arranjador e depois cantor, um artista completo.

De todos o mais jovem era Danilo Caymmi, que aos 16 anos estudante de flauta, não fez feio ao lado de músicos consagrados e tornou-se num dos mais talentosos instrumentistas e compositores de sua geração, chegando inclusive a participar da Nova Banda grupo musical que acompanhou Tom Jobim em seus últimos anos.

O repertório do disco que foi lançado no suplemento de 1964 da gravadora inclui ainda “Saudades da Bahia”, samba clássico de Dorival Caymmi, interpretado num magistral dueto por Jobim e Caymmi, “Vae de vez”, de Roberto Menescal e Lula Freire e “Berimbau”, de Vinícius e Baden Powell, apresentadas de maneira instrumental pelos filhos de Caymmi acompanhados dos músicos convidados, por fim, “Canção da noiva”, de Dorival Caymmi, interpretada divinamente por sua esposa Stêla, cantora de belos recursos vocais, mas que abandou precocemente a carreira por causa do casamento.

Com uma capa idealizada como um recorte de jornal bem ao estilo moderno da produção gráfica da gravadora Elenco, este disco reafirma o conceito de que para serem grandes, os bons momentos da vida devem ser construídos espontaneamente, repletos de paz e felicidade entre seus participantes e protagonistas, deixando para a história a tarefa de perpetuá-los e transformá-los em saudade, a audição do desse LP, portanto, nos remete a isso, consagrando-o definitivamente como fundamental para a musica popular brasileira.

Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna, 22 de março de 2005.


FAIXAS

LADO A

  1. … DAS ROSAS
    Dorival Caymmi
    Caymmi oferece a Tom sua última canção ainda inédita
    canto: Dorival Caymmi
    piano: Tom
    violão: Dori
    bateria: Doum
    contra-baixo: Sérgio
    Côro de Abelardo Magalhães
  2. SÓ TINHA QUE SER COM VOCÊ
    A. C. Jobim – A. Oliveira
    Tom oferece a Caymmi e seus filhos sua mais recente composição
    canto: Tom Jobim
    flauta: Danilo
    violão: Dori
    bateria: Doum
    contra-baixo: Sérgio
  3. INÚTIL PAISAGEM
    A. C. Jobim – A. Oliveira
    Nana e Caymmi cantam juntos uma das últimas músicas de Tom
    Tom ao piano
    violão: Dori
    flauta: Danilo
    bateria: Edson
    contra-baixo: Sérgio
  4. VAE DE VEZ
    Menescal – Lula Freire
    O conjunto é formado por:
    Danilo flauta
    Dori violão
    Tom piano
    Edison bateria
    Sérgio: contra-baixo

LADO B

  1. SAUDADES DA BAHIA
    Dorival Caymmi
    Caymmi e Tom cantam juntos a conhecida composição de Caymmi
    piano: Tom
    violão: Dori
    flauta: Danilo
    bateria: Doum
    contra-baixo: Sérgio
  2. TRISTEZA DE NÓS DOIS
    Durval – Bebeto – Maurício
    canto: Nana
    piano: Tom
    violão: Dori
    bateria: Edison
    contra-baixo: Sérgio
  3. BERIMBAU
    Baden – Vinicius
    O conjunto apresentando Danilo e Dori
    Danilo flauta
    Dori violão
    Tom piano
    Edson bateria
    Sérgio contra-baixo
  4. SEM VOCÊ
    Tom – Vinicius
    canto: Nana
    piano: Tom
    bateria: Edison
    contra-baixo: Sergio
    Solo de violão por Dori
  5. CANÇÃO DA NOIVA
    Dorival Caymmi
    Stêla, esposa de Caymmi, no último momento decidiu também participar do encontro, interpretando uma das canções da “História de Pescadores” de Caymmi.

Dorival Caymmi ‎– Caymmi Visita Tom e Leva seus Filhos Nana, Dori e Danilo
Elenco ‎– ME 17
Vinil, LP
1964
DISCO É CULTURA

Publicado por Marcelo Oliveira

Sou carioca, mangueirense, botafoguense e apaixonado por samba. Meu objetivo com o blog sambaderaiz é divulgar o SAMBA, compartilhando meu acervo fonográfico. Que o blog seja um espaço de “Resistência Cultural” e em “Defesa da Tradição do Samba”. Forte abraço. marcelo@sambaderaiz.org

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