Para mim, Cyro Monteiro não é só o maior cantor popular brasileiro de todos os tempos – emparelhado apenas, na nova fase, por João Gilberto – mas uma criatura humana de qualidades tão raras que eu acho improvável qualquer de seus amigos não se haver dito, num dia de humildade, que gostaria de ser Cyro Monteiro. Pois Cyro, pra lá de cantor e do homem excepcional, é um abraço em tôda a humanidade.

O segrêdo de sua simplicidade – como, aliás, em João Gilberto – não é simples. Em ambos êstes mestres da arte de cantar samba, não é apenas a bossa que conta. Êles foram não somente os descobridores máximos de divisões e síncopes inéditas na música popular carioca, mas os artífices, paciente e laboriosos de um modo de emitir o samba que dá a impressão, a quem os ouve, de que qualquer pessoa pode cantar. Em vez de inibir o ouvinte com interpretaçôes viciadas por tiques, inflexões desnecessárias, vibratos anódinos e obsoletos, sem qualuqer raíz na verdade do canto, êles trabalham o que cantam até atingir o ponto mais próximo da perfeição, que é aquêle aonde mora a simplicidade.

Ser menos vaidoso que Cyro Monteiro eu não conheço; nem com mais coragem. Não apenas coragem física, que esta é mais fácil e comum; eu digo coragem “de dentro”, para viver todos os instantes como se cada um dêles fôsse o último, e todos os sentimentos como se a sua participação neles não contasse. Para Cyro êle… são os outros. É sua mulher, são seus amigos, é a gente de sua rua, essa fabulosa Silveira Martins, no Catete, onde êle vive num pequenino apartamento como se morasse num palácio, e sempre de porta aberta para quem quiser entrar. É claro que essa vocação, eu diria melhor, êsse sacerdócio de amizade, lhe tem rendido de volta os melhores amigos que um homem pode ter e o círculo dos de Cyro é imenso. Por gente como Carlos Antonio Abreu Braga, Walter Ferraz ou Péricles Dutra o Dutrinha – em defesa de quem guarda uma honrosa cicatriz de faca – Cyro é capaz de qualquer negócio.

Nem nunca deu dois vintens pelo ganho ou pela glória. Houve muito sucesso que andou por aí cantado por todo mundo, que Cyro vendeu – por estar “duro”, ou simplesmente porque lhe pediam com jeitinho – mais barato que “O Dragão” da Rua Larga. Êle tem o sentimento inato da composição anônima, como deve ser – aquela dos menestreis da Idade Média, que é feita e dada ao povo pelo prazer de vê-lo cantar e se divertir.

Nascido a 28 de maio de 1913, no n° 68 da antiga Rua D. Alice, na Estação do Rocha, Cyro mudou-se cedo para Niterói. Logo o vemos instalado em Icaraí, perto do Campo de São Bento. Ah, êsse Campo de São Bento! Se pudesse falar, quantas curiosidades não contaria ao futuro historiador da música popular brasileira… Era ali que se reunia, na Confeitaria Guanabara, a rapaziada do samba, da qual faziam parte, entre outros, seu tio Nonô, o fabuloso pianista que foi também seu melhor orientador, Mario Travassos de Araújo, Walfrido Silva, Dutrinha, Gadé, Sebastião Figueiredo e Ary Frazão. O pessoal batia samba nos bancos da praça hospitaleira e, durante o carnaval, papava todos os prêmios de harmonia com o bloco “Candolecas do São Bento”, exclusivamente organizado para os banhos de mar a fantasia. Era tudo uma mocidade sadia, estudantes como êle próprio, Cyro, ou seu irmão Careno, já falecido, e com que fazia dupla. Silvio Caldas, frequentador assíduo da família, um dia carregou com Cyro para substituir o imortal Luiz Barbosa, que tinha dupla com o Caboclinho, e que havia assinado exclusividade com a Mayrink. Assimilando o modo de Luiz Barbosa até o ponto de encontrar o seu verdadeiro e inimitável estilo (Cyro confessa que, ao lado de seu tio Nonô, Luiz Barbosa foi a sua maior e melhor influência), partiu êle, ao lado de Silvio, para a aventura da música popular. A dupla durou menos de um ano. Veio o programa de Napoleão Tavares, na Mayrink, para o qual foi levado por seu amigo Patacho (Deocleciano Maurício) e logo depois, em 1938, a primeira gravação e o primeiro grande sucesso “Se Acaso Você Chegasse”, de Lupicinio Rodrigues e Felisberto Martins, no qual o cantor lançou o sambista gaucho e vice-versa. Daí por diante, as águas rolaram . Os títulos são tantos que só poderei citar os que mais calaram na memória do povo como “Beijo na Bôca” (Ciro de Souza), “A Mulher que eu Gosto” (Wilson Batista e Ciro de Souza), “Beija-me” (Roberto Martins e Mario Rossi) e “Você Está Sumindo” de Geraldo Pereira. É curioso notar que dêste último e genial sambista, já desobjetivado, Cyro gravou o primeiro e o último sucesso: ” A Falsa Baiana” e “O Escurinho”. E quem poderá esquecer “Seu Oscar” e o “Bonde de São Januário” de Wilson e Ataulfo, também lançados por Cyro? Dêle prório, de parceira com Dias da Cruz, cumpre lembrar “Mascarada”, “Enquanto Hover Amor”, “Sossegadinha”, “Quem Sou Eu” e “Madame Fulano-de-Tal”, que constitui um dos maiores sucessos de Elizete Cardoso.

Em 1956, convocado por mim para fazer o papel de Apolo, o pai do meu “Orfeu da Conceição”, Cyro se houve no palco com a mesma qualidade que mostra diante do microfone. A lembrança dos dias saudosos dos ensaios no velho “High-Life” e da estréia de gala no Municipal, até hoje lhe umedece os olhos. Porque Cyro é, bendito seja, um grande sentimental e possui um coração constantemente em prece.

Em 1957, outro troféu: sua “rentrée” como cantor no “Cave”, de São Paulo, que provocou uma das maiores cheias daquela boate, e pouco depois, no “Chicote”, também na capital paulista. Depois, – o caso é que CYRO não é daqueles que se poupam não… um rigoroso tratamento médico, porém, deu um jeito nele – e não lhe valessem sua incomparável constituição física e o seu total destemor da morte.

Mas CYRO precisa ter cuidado… É só o que lhe pedimos eu e seus outros amigos, para que êle possa seguir fazendo Lps da qualidade dêste, que é o seu primeiro com conjunto orquestral (CYRO gravou sempre à base do regional e da caixa de fósforos) e que tem a valorizá-lo os ótimos arranjos do maestro Astor.

VINICIUS DE MORAES
texto fielmente trancsrito da contracapa do elepê

LP CYRO MONTEIRO SR. SAMBA | 1961, Columbia

QUATRO LOUCOS NUM SAMBA
(Cyro Monteiro-Mary Monteiro)
LIBERDADE DEMAIS
(Mariano Filho-Hélio Nascimento)
TELECO-TECO
(Vinicius de Moraes)
MALANDRO BAMBA
(Pedro Caetano)
CARA FEIA
(Homero, Renato e Ivan Ferreira)
COM FOME NÃO
(Oziel Peçanha-Noacy B. de Marcenez)
IRENE
(Zé Violão)
MINHA MARILÚ
(Cyro Monteiro-Dias da Cruz)
MEU BEM
(Hianto de Almeida)
CHORA, CORAÇÃO
(Denis Brean/Osvaldo Guilherme)
P’RA BRINCAR DE NAMORAR
(Cyro Monteiro)
RECEITA DE MULHER
(Cyro Monteiro-Carlos Frederico)


Columbia LPCB 37190, LP

CYRO MONTEIRO com Orquestra e Côro sob a direção de ASTOR

Publicado por Marcelo Oliveira

Sou carioca, mangueirense, botafoguense e apaixonado por samba. Meu objetivo com o blog sambaderaiz é divulgar o SAMBA, compartilhando meu acervo fonográfico. Que o blog seja um espaço de “Resistência Cultural” e em “Defesa da Tradição do Samba”. Forte abraço. marcelo@sambaderaiz.org

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