Pixinguinha, um nome que pode resumir, simbolicamente, toda a música popular brasileira, foi tálvez ao longo de quatro décadas – pelo menos do fim dos anos 20 a meados dos anos 50 – o mais ativo orquestrador e arranjador dos nossos palcos e estúdios. Isto significa que trabalhou e barilou a criação de centenas de compositores dos mais obscuros aos mais famosos. Pixinguinha alinhava a genialidade á discrição: não era qualquer coisa que provocava nele uma demostração de arroubo ou entusiasmo que traísse a sua frieza profissional. Pois bem, uma vêz em 1939, ao fazer o arranjo para uma música de um compositor até então completamente desconhecido, o grande mestre saiu por instantes de uma sábia indiferença para pedir ao cantor Roberto Paiva, intérprete do autor estranho, que o apresentasse áquele criador tão surpreendente. E foi logo dizendo o que o comovera: o samba a que acabara de dar roupagem orquestral guardava uma melodia inteiramente original para a época. O samba era o Se Você Sair Chorando, primeira composição gravada de Geraldo Pereira.

Já estava aí nessa estréia, embora praticamente já associada, a fantástica divisão rítmica que consagraria Geraldo Pereira, um dos mais interessantes e mais ricos criadores de estilo, de escola, entre os compositores brasileiros. Essa marca se acentuaria logo a partir do terceiro samba que ele, no ano seguinte e na voz de Ciro Monteiro, conseguiu pôr em disco: Acabou a Sopa, no qual a sequência de síncopes configuram uma constante. Seu domínio desse recurso foi total. Diversificando em cada nova música uma inventiva melódica de fato prodígiosa. Geraldo levou a síncope – que basicamente consiste no prolongamento do som de um tempo fraco com tempo forte – ás últimas consequências, terminando por fazer-ze reconhecer como o mais perfeito culsor do gênero sincopado, hoje, soa também como uma homenagem a Geraldo Pereira uma citação de seu papel e de sua força no desenvolvimento da nossa música popular.

Esse papel é singular também no terreno poético. Aqui, o correspondente da síncope musical é a síntese acabada e irretocável. Cada samba de Geraldo Pereira é um quadro de costumes, um comentário de um flagrante do cotidiano de um segmento social – o seu – feito sem desperdícios retóricos, sem folclorizações e sem apelos alegóricos. Seus versos tem o pôder de uma boa notícia de jornal, aquela que conta tudo numas poucas linhas de sua coluna. E são mais esclarecedores, do ponto de vista de levantamento sociológico, do que a enfadonha pretenção científica de certos estudos e pesquisas acadêmicas.

É que Geraldo punha em seus sambas – com uma felicidade constatada ao se ouvir, sempre com renomado prazer, qualquer deles – o seu ambiente, o modo de vida de toda uma camada popular carioca. E como o fazia da posição de quem esta de dentro, isto é, podendo ser um personagem verossímil da cena descrita (e freguentemente o era), eis-nos diante de observador e registrador de comportamentos provavelmente inigualável entre os que, em sua época, também tentaram, como compositores populares, contribuir para a fixação de uma fase de nossa vida urbana.

Geraldo ganhou a vida como motorista dos caminhões de coleta de lixo. E gastou-a – embora seja mais correto dizer que a aproveitou – no morro (Mangueira), no subúrbio (Engenho de Dentro) e na zona boêmia (Lapa). Essas indicações sugerem tudo: trabalhou como um mouro, fez ponto nas escolas de samba e nos terreiros (os religiosos, inclusive), amanheceu nos cabarés e nas gafieiras, viveu e sofreu incontáveis ligações amorosas. Não precisou, pois – ao contrário de outros compositores que também buscaram pintar retratos sociais, mas vendo as coisas de fora, como obervadores platônicos – de imaginar ou “criar” situações: ele viveu cercado da inspiração, que, no seu caso, eram os próprios fatos e emoções em que esteve permanentemente mergulhado.

Quando Geraldo morreu, no dia 8 de maio de 1955, aos 37 anos e de hemorragia intestinal – consequênte a uma briga até hoje não suficientemente esclarecida com outra figura de escola da Lapa, o lendário Madame Satã – fazia grande sucesso o seu samba Escurinho, gravado por Ciro Monteiro. Apesar disso, Geraldo morria pobre (Ciro teve que pagar do próprio bolso o enterro). E a impressão que se tinha era a de que estava arquivada uma página da música popular brasileira, destinada a futuras pesquisas de seus historiadores.

Seis anos mais tarde, em 1961, pleno apogeu da bossa-nova, João Gilberto, o grande nome desse movimento, regravou Bolinha de Papel, um samba que 16 anos antes enriquecera o repertório dos Anjos do Inferno. Foi uma revelação: a peça, da construção rítmica á picardia da letra, era plena de atualidade.

Descobria-se aí, ou confirmava-se, outra característica da obra de Geraldo Pereira: sua perenidade hoje inteiramente comprovada. Trata-se de um clássico, um autor de sambas á prova de todas as épocas.
Moacyr Andrade
contracapa do LP

LP Geraldo Pereira EVOCAÇÃO V | 1980, Estúdio Eldorado

LADO A

  1. ESCURINHA 2’50”
    (Geraldo Pereira-Arnaldo Passos)
  2. PISEI NUM DESPACHO 1’54”
    (Geraldo Pereira-Elpídio Viana)
  3. PODE SER? 3’06”
    (Geraldo Pereira-Marino Pinto)
  4. AINDA SOU SEU AMIGO 2’53”
    (Geraldo Pereira)
  5. ATÉ HOJE NÃO VOLTOU 2’42”
    (Geraldo Pereira- J. Portela)
  6. BOLINHA DE PAPEL 2’05”
    (Geraldo Pereira)

LADO B

  1. ACABOU A SOPA 2’17”
    (Geraldo Pereira-Augusto Garcez)
  2. ONDE ESTÁ A FLORISBELA? 2’33”
    (Geraldo Pereira-Ari Monteiro)
  3. PEDRO DO PEDREGULHO 2’24
    (Geraldo Pereira)
  4. MINISTÉRIO DA ECONOMIA 2’33”
    (Geraldo Pereira-Arnaldo Passos)
  5. ESCURINHO 2’36”
    (Geraldo Pereira)
  6. MAIS CEDO OU MAIS TARDE 1’14”
    (Geraldo Pereira)
  7. SE VOCÊ SAIR CHORANDO 2’38”
    (Geraldo Pereira-Nelson Teixeira)

Estúdio Eldorado – 40.81.0365, LP

Ficha Técnica

Produtor Fonográfico: ESTÚDIO ELDORADO
Coordenação Artística: ALUÍZIO FALÇÃO
Direção de produção: HOMERO FERREIRA
Direção Musical: ORLANDO SILVEIRA
Pesquisa de Repertório: MIÊCIO CAFFÉ
Técnico de Gravação: CARLINHOS
Técnico de Mixagem: FLÁVIO BARREIRA
Assistentes de Gravação: PAULO, ÍNDIO e PENINHA
Capa e Direção de Arte: ARIEL SEVERINO
Assistente de Arte: FLÁVIO MACHADO
Gravado nos Estúdio Hawai (Rio) em julho/agosto de 1980

JOÃO NOGUEIRA gentilmente cedido pela POLYGRAN
CHRISTINA gentilmente cedida pela ARIOLA
ROBERTO SILVA gentilmente cedido pela COPACABANA

“… em 1944 eu gravei a Florisbela no mesmo dia em que o Ciro gravou A Falsa Baiana que eu nem preciso dizer nada.
O Ciro gravou de manhã na RCA, ali na Praça da República, com a regional do Benedito Lacerda: o Benedito, Dino, Meira e Canhoto, Popey no pandeiro e mais o Raul de Barros. Depois, de tarde, o regional foi pra Continental gravar comigo. A Continental ficava ali na avenida Rio Branco, em cima das Cintas Trianon, bem defronte ao Nice. Depois da gravação nós saímos pra festejar: o Geraldo, o Ciro e eu. Meu deus! O Ciro, meu compadre, neste tempo era da Mayrink e já era muito popular. O Geraldo tinha gravado dois sambas no mesmo dia e eu tinha gravado meu primeiro disco. Nós saímos do Nice prá Lapa prá festejar e fomos amanhecer na Taberna da Glória.
O Geraldo estava alegre e comandou a noite toda.
” – Canta meu samba Ciro
– Agora o outro, Batista…”
Batista de Souza

Intérpretes: João Nogueira, Jackson do Pandeiro, Christina, Roberto Silva, Macalé, Elton Medeiros, Monarco, Nelson Sargento, Vânia Carvalho, Grupo Tarsis, Marçal, Batista de Souza

Publicado por Marcelo Oliveira

Sou carioca, mangueirense, botafoguense e apaixonado por samba. Meu objetivo com o blog sambaderaiz é divulgar o SAMBA, compartilhando meu acervo fonográfico. Que o blog seja um espaço de “Resistência Cultural” e em “Defesa da Tradição do Samba”. Forte abraço. marcelo@sambaderaiz.org

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