Antes de direcionar seu trabalho para uma linha mais popular, Leci Brandão gravou na Polydor como cantora de MPB em geral e não apenas de samba. Entre 1976 e 81 também cantou boleros, canções pop, baladas e bossa-jazz. As letras, entretanto, sempre foram diretas, cortantes, mostrando o dedo em riste e empunhando a faca no peito do ouvinte. Uma cronista e tanto do cotidiano! Cantou pela liberdade do país nos anos 70, sendo também a voz dos excluídos, das minorias sociais e sexuais, incluindo aí a coragem de levantar até mesmo a bandeira gay em diversas composições, algo inédito naquele tempo. Um CD que vai fazer cair o queixo de muita gente. Rodrigo Faour.

Leci Brandão se mudou de vez para São Paulo há sete anos, após ser acolhida por grupos de pagode romântico que vinham gravando suas músicas. Diante de narizes torcidos da elite cultural, tornou-se popular e até se elegeu deputada estadual pelo PC do B, com 83 mil votos.

Entre 1976 e 1981, sua situação era inversa. Contratada da Polydor (hoje Universal), gravava outros gêneros além do samba, fazia letras com críticas políticas e comportamentais, conquistando assim um público de classe média, mas não fazendo sucesso.

O CD “O canto livre de Leci Brandão”, lançado agora, reúne 18 faixas desse período inicial da carreira da artista carioca (primeira mulher a integrar a ala de compositores da Mangueira), desconhecido mesmo para muitos de seus fãs.

— Era a intelectualidade que me curtia — recorda Leci, falando por telefone de seu gabinete na Assembleia Legislativa de São Paulo. — Não vendia tantos discos, mas tinha prestígio. Eu falava do povo, mas não tinha acesso.

Leci Brandão 1981
LECI BRANDÃO em 1981, quando ainda era admirada pela intelectualidade e desconhecida do grande público

Tabus no repertório

Quando foi mostrar na Polydor, em 1981, o que já tinha gravado para seu quinto LP na companhia, Leci ouviu que aquilo não interessava e que precisava fazer um novo tipo de som, mais comercial. Recusou-se, escreveu uma carta de demissão e deixou para trás os primeiros registros de “Deixa, deixa” e “Zé do Caroço”, sambas que se tornariam sucessos anos depois. Inéditas até hoje, as versões originais estão na coletânea.

— Muita gente jovem está me conhecendo por causa das regravações de “Zé do Caroço” — diz Leci, que viu nos anos 2000 0 samba sobre um líder comunitário do Morro do Pau da Bandeira ser cantado por Revelação, Seu Jorge e Mariana Aydar — Esse CD mostra que falar de problemas não é novidade para mim.

A Leci da primeira fase falava, por exemplo, da falta de liberdade que o país vivia sob o regime militar (“Não cala o cantor”). Filha de servente, lutou bastante para se formar em Administração, e sabia falar dos contrastes sociais (“Marias”). Também cantou, quando o tabu era ainda maior, os amores entre pessoas do mesmo sexo (“Ombro amigo”, “Assumindo”).

— Sempre fiz música com motivação. Falei de negros, mulheres e, no caso de “Ombro amigo”, fiz depois de ver uma pessoa ser ofendida na rua, em Copacabana — lembra.

Responsável pela seleção do repertório e pelo texto do encarte do CD, o pesquisador Rodrigo Faour diz que Leci pagou um preço por escolher assuntos espinhosos:

— Por ter tocado em temas como o da causa gay, Leci ficou um pouco estigmatizada e deixou de gravar por cinco anos. Em 1985, novos produtores vieram com a ideia de popularizá-la sem descaracterizar seu trabalho. Acabou dando certo, e ela conseguiu uma nova fatia de público, que antes era bem mais restrita.

Faixas do disco “Leci Brandão”, como “Isso é fundo de quintal”, estouraram. Ela, já na gravadora Copacabana, tornou-se expoente da onda que se convencionou chamar de pagode.

A situação pioraria de novo na década seguinte, e Leci foi buscar em São Paulo o que já não conseguia no Rio: palcos para fazer shows, selos para gravar, público para agradar. Mas tudo só foi possível graças ao apoio de grupos e cantores populares como Sem Compromisso, Sensação, Art Popular e Leandro Lehart.

— Consegui me reerguer e voltar à mídia. Foi fundamental para eu recuperar a minha autoestima. E não tenho problema com sambas românticos. Sempre cantei o amor. Mas as pessoas precisam de coisas para falar mal — diz ela, também acolhida por rappers como Mano Brown e Rappin’ Hood

Texto: Luis Fernando Vianna


Faixas

01 Questão de gosto
02 Deixa pra lá
03 Ombro amigo
04 Chantagem
05 Deixa, deixa (VERSÃO INÉDITA)
06 Assumindo (VERSÃO INÉDITA)
07 Marias
08 Ensopadinho
09 Não cala o cantor
10 Vamos ao teatro
11 Sem vingança
12 Essa tal criatura
13 Dança doce
14 Troca
15 Dobrando as cobertas
16 Ferro frio
17 Vinte e duas horas
18 Zé do Caroço (VERSÃO INÉDITA)

OBS: Todas as músicas são de autoria de Leci – letra e música – exceto Troca (parceria com João Nepomunceno) e Dobrando as cobertas (parceira com Ivor Lancellotti).


Leci Brandão – O CANTO LIVRE DE Leci Brandão
Universal Music
CD, Coletânea
2011
DISCO É CULTURA

Publicado por Marcelo Oliveira

Sou carioca, mangueirense, botafoguense e apaixonado por samba. Meu objetivo com o blog sambaderaiz é divulgar o SAMBA, compartilhando meu acervo fonográfico. Que o blog seja um espaço de “Resistência Cultural” e em “Defesa da Tradição do Samba”. Forte abraço. marcelo@sambaderaiz.org

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