Uma coleção de obras-primas”, nas palavras de Caetano Veloso

Há muito tempo não ouço um disco inteiro com tanto entusiasmo no coração quanto esse “Pimenteira”. Acho que ouvi Pedro Miranda pela primeira vez numa faixa do CD de Teresa Cristina – e fiquei maravilhado com a musicalidade, a cultura entranhada, a naturalidade, o frescor. Comuniquei meu entusiasmo a Moreno e ele me disse que conhecia Pedro: logo eu estava com o primeiro CD de Pedro nas mãos. O CD confirmava a muito boa impressão causada pela faixa no disco de Teresa. De modo que, agora, quando ele me entregou uma cópia do seu novo disco, eu já me pus em alta expectativa. Mas não imaginava que estivesse diante de um trabalho de tamanho fôlego. Considero este um disco de grande artista. É um disco fácil de ouvir, maneiro, agradável, porém tem força histórica intensa e convida a reflexões complexas e tão profundas que nem a deliciosa paródia de texto acadêmico que vem no encarte (a respeito da alegoria deliberadamente ingênua de Edu Krieger, “Coluna Social”), poderia satirizar.

Para começar, o estilo despojado do cantor, sem afetação, sem tiques nenhuns, dá conta de toda a possível cultura crítica atual relativa ao canto popular brasileiro. Voz maleável, incrivelmente confortável nas regiões agudas, ele mostra destreza e agilidade sem que se perceba esforço de sua parte. E o fraseado revela reverência e familiaridade com a história do samba. Mas é a escolha do repertório que ilumina as virtudes do seu estilo. Esse repertório (para cuja feitura ele agradece a colaboração de Cristina Buarque e Paulão 7 Cordas) diz tudo sobre o que deve ser dito a respeito do que vem acontecendo com o samba, desde que este se tornou emblema da musicalidade brasileira (“O mito é o nada que é tudo”), passando pelo furacão camuflado que foi a bossa nova, e pela sua recolocação no ambiente que o forjou: a boemia que transita entre certos morros e certas áreas do asfalto carioca. Essa recolocação teve como marco inicial a virada que significou, no meio dos anos 1960, coincidirem as insatisfações de Nara Leão com o surgimento do Zicartola, o início das atividades de compositor de Chico Buarque em São Paulo e o estrelato conjunto de Paulinho da Viola e Clementina de Jesus no Rosa de Ouro. Todos os desdobramentos – de Beth Carvalho ao Art Popular, de Zeca Pagodinho ao Psirico, de Arlindo Cruz a Roberta Sá – estão homenageados nesse álbum coeso, sincero e de grande visão.

O arco de compositores vai de Nelson Cavaquinho a Rubinho Jacobina – e, no entanto, a unidade de visão faz de “Pimenteira” uma obra autoral de Pedro Miranda. As melodias, em geral com sabor de choro a caminho da gafieira (mas sem deixar de fora nem a chula baiana nem o coco nordestino), sustentam um virtuosismo poético que, por força da perspectiva da escolha do material (e da ordem em que ele vem), sugere um gosto pessoal, a um tempo apurado, exigente e espontâneo, que atravessa todo o disco. Dos versos elegantes de Paulo César Pinheiro para a música rica de Mauricio Carrilho (com ecos de Bororó) ao fascinante jogo embaralhado de imagens atuais no samba de Moyseis Marques, passando pela “Imagem”, de Trambique e Wilson das Neves, e pelo show de bola de Elton Medeiros e Afonso Machado, tudo em “Pimenteira” transpira grande talento guiado por grande inteligência. O disco fala de tudo o que fala como Nei Lopes fala (na única nota de encarte que não foi escrita por Pedro e Luís Filipe) da série de mulatos que compõem a figura de Compadre Bento: com admiração e intimidade.

Terminei citando muitos dos sambas do disco, mas não é por os achar menos interessantes que não citei alguns: todos são de alta extração, todos fazem o CD soar como uma coleção de obras-primas. O que faz com que esse disco ao mesmo tempo pareça o lançamento de um novo autor e uma antologia de clássicos. Na verdade é o disco que já nasce antológico. A colaboração de Luís Felipe de Lima é decisiva na definição dos arranjos e da sonoridade. Sobre ele (e os demais colaboradores musicais e técnicos) Pedro fala melhor do que eu poderia, nas palavras de agradecimento que escreveu. Quanto a mim, sou mais levado a considerar que a oportunidade foi uma dádiva que Pedro lhes fez.

Eu sempre sou citado como elogiador fácil de moças jovens bonitas que cantam samba. Nunca as elogiei sem que achasse justo fazê-lo. Dizer aqui que o CD de um marmanjo, que nem tipo gatinho é, é algo muito mais importante do que o que essas ninfas têm, em conjunto, alcançado deve dar uma ideia do quanto considero “Pimenteira” um evento especial em nossa música. E, de quebra, pode dar mais credibilidade aos elogios que faço às moças.
Caetano Veloso

CD pedro miranda PIMENTEIRA | 2009, Independente

  1. Hello My Girl
    Silvio da Silva
  2. Pimenteira
    Roque Ferreira
  3. Baticum
    Maurício Carrilho, Paulo César Pinheiro
  4. Caso Encerrado
    Alfredo del Penho, Edu Neves
  5. Meio Tom
    Rubinho Jacobina
  6. Imagem
    Trambique, Wilson das Neves
  7. Na Cara do Gol
    Afonso Machado, Elton Medeiros
  8. Compadre Bento
    Nei Lopes
  9. Cartas de Metrô
    Moyseis Marques
  10. Samba da Moreninha
    Pedro Amorim
  11. Velhice
    Alcides Dias Lopes, Nelson Cavaquinho
  12. Coluna Social
    Edu Krieger

Produção Independente, CD

Produção e Arranjados: Luis Filipe de Lima
Músicos:
Afonso Machado : Bandolim
Alexandre Maionese : Flauta
Alisson Maninho : Surdo
Beto Cazes : Caixa de Fósforos, Caixeta, Ganzá, Pandeiro, Reco-reco, Tamborim, Vassourinha
Cláudio Jorge : Violão
Eduardo Neves : Flauta, Saxofone Tenor
Everson Moraes : Trombone
Itamar Assiere : Teclados
João Callado : Cavaquinho
Jorge Helder : Contrabaixo
Luis Filipe de Lima : Violão, Violão 7 Cordas
Marcello Gonçalves : Violão 7 Cordas
Marcos Esguleba : Agogô, Caixa, Frigideira, Pandeiro, Repique de Mão, Tamborim
Mariana Bernardes : Cavaquinho
Nicolas Krassik : Violinos
Ovídio Brito : Cuíca, Pandeiro
Paulino Dias : Caixa, Tamborim
Pedro Amorim : Bandolim, Cavaquinho
Pedro Miranda : Pandeiro
Pretinho da Serrinha : Tantã
Roberto Marques : Trombone
Ronaldo do Bandolim : Bandolim
Rui Alvim : Clarinetas, Clarone, Saxofone Alto
Sandrinho : Tantã
Sérgio Krakowski : Pandeiro
Silvério Pontes : Trompete
Thiago da Serrinha : Pandeiro
Trambique : Agogô, Caixa, Reco-reco, Repique de Anel, Tamborim
Vander Nascimento : Flugelhorn, Trompete
Wanderson Martins : Cavaquinhos
Wilson das Neves : Tamborim
Zé da Velha : Trombone
Zé Paulo Becker : Violão

Coro: Anissa Bensalah, Clarice Magalhães, Cristina Buarque, Edu Krieger, Elisa Addor, Fred Antetomaso, Gallotti, João Cavalcanti, Mariana Bernardes, Ovídio Brito, Pedro Holanda, Pedro Paulo Malta, Rubinho Jacobina, Sandrinho

Publicado por Marcelo Oliveira

Sou carioca, mangueirense, botafoguense e apaixonado por samba. Meu objetivo com o blog sambaderaiz é divulgar o SAMBA, compartilhando meu acervo fonográfico. Que o blog seja um espaço de “Resistência Cultural” e em “Defesa da Tradição do Samba”. Forte abraço. marcelo@sambaderaiz.org

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